14/02/2021 às 09h00min - Atualizada em 14/02/2021 às 09h00min

Pesquisadores testam medicamento de Alzheimer no combate à Chikungunya

Estudos de cientistas da UFU, Unicamp e Uniara se concentram na ação antiviral do hidrocloreto de memantina

DA REDAÇÃO
A Chikungunya é transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus I Foto: NIAIDFotos Públicas
Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de Araraquara (Uniara) estão testando um medicamento utilizado no tratamento de Alzheimer, o hidrocloreto de memantina, para combater o Chikungunya. Até o momento, não existe vacina ou tratamento eficaz para combater esse vírus causador da febre Chikungunya.

Os estudos ainda estão em progresso, mas os resultados já obtidos nos testes in vitro - primeiro passo capaz de apontar a eventual atividade de um composto - animaram os cientistas. Esses resultados parciais foram recentemente publicados na revista Pharmacological Reports.

A doença de Alzheimer (AD) causa a degeneração do sistema nervoso do paciente, acarretando a perda da memória e da função mental. Na Chikungunya, transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, os sintomas são distintos: febre, manchas vermelhas na pele, fadiga e dor nas costas, cabeça e articulações. Ou seja, olhando de longe, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

A semelhança, no entanto, é explicada pelo professor do Instituto de Química da UFU e integrante do grupo que desenvolve a pesquisa Fernando Bergamini. “Em termos sintomáticos, não há relação entre AD (doença de Alzheimer) e Chikungunya. Entretanto, ambas as doenças dependem de um canal de prótons chamado de M2”, explica.

“Para o caso do vírus, esse canal está relacionado com o ‘desnudamento’, isto é, com liberação do material genético do vírus na célula, para que haja a replicação (multiplicação do vírus). Quando se inibe este canal de prótons (M2), se inibe a replicação viral. Para o Alzheimer, a regulação dos canais iônicos como M2 também são essenciais para o controle da progressão da doença”, completa o pesquisador.

Cientistas pesquisam o cloridrato de memantina especialmente em doenças degenerativas e infecções virais. Em pesquisas recentes, inclusive, verificaram que a substância conseguiu inibir SARS-CoV-2 (o novo coronavírus) em algumas concentrações.

IN VITRO
Os estudos in vitro mostraram que o hidrocloreto de memantina, cuja estrutura é similar a medicamentos utilizados contra cepas de influenza A, inibe o vírus causador da Chikungunya.

Com esse resultado promissor, os pesquisadores pretendem realizar os ensaios in vivo (em modelos animais), assim que tiverem o aval do Comitê de Ética da UFU. Caso os resultados nos modelos in vivo também sejam promissores, os pesquisadores pretendem estimular interações com empresas farmacêuticas para a realização dos testes clínicos. Mas, como se trata de um medicamento já utilizado em outra doença, um menor número de ensaios será necessário.

“Ainda assim, vale ressaltar que, somente após se seguir todas as etapas e com resultados positivos em todas elas, é que o fármaco poderá ser aplicado de fato. Em resumo, talvez o caminho não seja tão longo quanto o de um candidato a fármaco recém-desenvolvido, mas, ainda assim, relativamente longo, de modo a garantir que o fármaco seja seguro aos pacientes frente a esta doença em particular (a febre Chikungunya)”, reforça o professor do Instituto de Química da UFU e integrante do grupo que desenvolve a pesquisa Fernando Bergamini.

O artigo sobre o estudo é assinado por Anna Karla dos Santos Pereira (Unicamp), Igor A. Santos (UFU), Washington W. da Silva (Uniara), Flávia A. Resende Nogueira (Uniara), Fernando R. G. Bergamini (UFU), Ana Carolina G. Jardim (UFU) e Pedro P. Corbi (Unicamp).




 

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