01/09/2020 às 09h27min - Atualizada em 01/09/2020 às 09h27min

Uberlândia como referência na rota do sertanejo

Diário mostra em reportagem especial o desenvolvimento da cidade no show business musical

DHIEGO BORGES
Natural de Uberlândia, o músico e produtor Newton Fonseca revolucionou com Gusttavo Lima e a bachata feeling | Foto: Divulgação
“Quando eu quero mais, eu vou pra Goiás”. A frase, eternizada pela canção Goiás é Mais, composta por Moacyr Franco e gravada em 1997 pela dupla Bruno e Marrone, destaca as belezas do Brasil e do estado goiano, reconhecido nacionalmente por ser um grande polo sertanejo. Mas, se fosse reescrito nos dias atuais, provavelmente este clássico poderia ter seu refrão inspirado pela mineirinha Uberlândia, que aos poucos desponta como um destino de destaque na rota da música sertaneja.

Conhecida por revelar grandes talentos, entre eles o uberlandense Alexandre Pires e o Grupo Só Pra Contrariar, Uberlândia começou a ganhar visibilidade no cenário musical na década de 90 com o estouro de hits do samba como ‘Que se chama amor’, ‘A Barata’, ‘Out Door’, ‘Domingo’ e muitos outros. O SPC conquistou o país e fez o mercado voltar os olhos para a cidade.  

O samba abriu as portas e, de lá para cá, o sertanejo é o gênero que vem se desenvolvendo e ganhando cada vez mais força com a repercussão do trabalho de produtores musicais, compositores, músicos e cantores que levam o nome da ‘terra gentil que seduz’ para todo o Brasil. No especial Aniversário de Uberlândia, o Diário mostra, com exclusividade, um pouco da trajetória de profissionais renomados no show business e um panorama do mercado musical na cidade.  

Pratas da casa na produção musical
Nos últimos anos, produtores musicais da cidade vêm ganhando cada vez mais espaço e visibilidade com a repercussão de trabalhos feitos para artistas conhecidos em todo o país. 

Um desses profissionais é o produtor Newton Fonseca, conhecido como Newtinho. Inspirado pelo pai, James Newton, mais popular como “Jaiminho”, músico bastante conhecido no cenário de Uberlândia e região, Newtinho iniciou sua trajetória praticamente aos 12 anos, participando de trabalhos em estúdio junto com o pai.  

Natural de Uberlândia, o músico, de 33 anos, começou a dar os primeiros passos como violonista de uma banda baile. Aos 18, já fazia suas primeiras produções, iniciando com jingles publicitários, e passou a acompanhar a dupla João Victor e Rafael na estrada. Foram sete anos tocando, fazendo direção musical e produzindo trabalhos do duo.

Em 2007, Newtinho montou seu próprio estúdio em Uberlândia e focou na produção musical. “No começo, eu almejava ser mais músico do que produtor, mas o mercado foi se desenhando de forma positiva para mim e decidi que eu queria apenas produzir e não mais tocar na noite ou ser músico de estrada. Mais tarde, montei meu estúdio e fui conquistando meu espaço”, contou à reportagem.

BACHATA FEELING
O trabalho de Newtinho começou a ganhar destaque com o cantor Gusttavo Lima. Em 2014, ele produziu a primeira música para o artista, que gravou um single de ‘Que mal te fiz eu (Diz-me)’. A canção emplacou no álbum ‘Do Outro Lado da Moeda’ junto a outros hits românticos como ‘Diz pra mim’, ‘Fui Fiel’ e ‘Jejum de amor’. 

Depois disso, o produtor começou a ser procurado para gravar outros artistas, entre eles Lucas Lucco e Giovani, da dupla Gian e Giovani. Mas, o auge do reconhecimento veio no começo de 2016, quando Gusttavo Lima propôs ao músico uma sociedade para trabalhar em um estúdio do cantor em Goiânia (GO). 

Foi no Studio Balada que, com o ‘Embaixador’, Newtinho iniciou um reposicionamento musical na carreira do cantor. Gusttavo queria desenvolver um estilo voltado para a ‘bachata’, um ritmo originado na República Dominicana que mistura bolero com outras influências musicais como o chá-chá-chá e o tango.  

“O Gusttavo deu a ideia e eu disse para ele para iniciarmos aos poucos. Fizemos um primeiro teste no DVD de Barretos e vimos que deu certo. Tanto que o último trabalho, o ‘Ao Vivo em Cariri’, veio com uma proposta 90% bachata”, lembrou. 

A chamada ‘bachata feeling’ se tornou uma marca de Gusttavo Lima e um divisor de águas para o produtor Newton Fonseca. Foram três anos seguidos produzindo trabalhos para o cantor, como os DVDs ‘Buteco do Gusttavo Lima 2’, ‘O Embaixador em Barretos’ e ‘O Embaixador em Cariri’, último álbum lançado pelo artista.

Com arranjos diferenciados do que o mercado havia produzido até então, Newtinho e Gusttavo Lima promoveram uma verdadeira revolução e emplacaram hits como ‘Apelido Carinhoso’, ‘Mundo de Ilusões’, ‘Zé da Recaída’, ‘Cem Mil’, ‘Eu não Iria’, ‘Milu’, ‘A gente fez amor’, ‘Até a garrafa chora’, ‘Carreira Solo’, ‘Online’ e diversos outros. 

“O Gusttavo foi um grande divisor de águas, a gente tinha um público que já seguia o trabalho, mas depois que eu fui para o Studio Balada, mudou muito minha forma de ver o mercado, porque você convive com um artista número um, então comecei a ter contato com outras frentes, principalmente relacionadas à estratégia”, revelou o produtor. 

Após o fim da parceria com Gusttavo, Newtinho montou um estúdio próprio em Goiânia e tem produzido artistas de destaque, com um portfólio de trabalhos que incluem nomes como Zé Felipe, Jefferson Moraes e Paula Mattos. O estúdio de gravações em Uberlândia continua ativo atendendo aos artistas da região. 

Na visão de Newtinho, a cidade se desenvolveu muito na última década, mas tem potencial para crescer mais. “Uberlândia tem levantado uma bandeira muito bacana entre os compositores, temos grandes artistas morando na cidade e vejo grande potencial para desenvolvimento. O que falta são os empresários acreditarem e investirem mais”, afirmou.

Parceria de sucesso e amor pela música 

Produtores Junior Melo e Marcelo Cheba são sócios do Studio Bar e produzem grandes artistas como Bruno e Marrone e Diego e Victor Hugo | Foto: Dhiego Borges

Eles até que tentaram ficar longe da música, mas a paixão acabou por falar mais alto para os produtores Junior Melo e Marcelo Cheba, que hoje mantêm uma sociedade em um estúdio em Uberlândia e produzem artistas de renome como Bruno e Marrone e Diego e Victor Hugo.

 Para o músico e produtor Junior Melo, de 38 anos, a história com a música teve início logo aos 14, quando ainda morava no Distrito de Tapuirama e montou uma banda baile para tocar com amigos. Um tempo depois, disse que não queria mais trabalhar com música. Ficou dois anos afastado do meio, mas a vocação acabou puxando-o de volta. 

O reinício veio como violonista da dupla Diego e Ricardo, que teve bastante repercussão em Uberlândia e região. Com o sucesso como músico, vieram os convites para gravar com outros produtores. Na mesma época, ele também montou a banda ‘Doce Valete’, que já tinha músicas autorais. Foi a partir daí que Junior Melo aprofundou os conhecimentos na área da produção musical e, além da banda, também produziu trabalhos para a dupla Diego e Ricardo. 

Mais tarde, Junior Melo montou seu primeiro estúdio e deu maior foco na carreira como produtor. Com o sonho de gravar um DVD, ele conta que apostou na dupla de Uberlândia Diego e Victor Hugo, que buscava seu espaço na música. “Propus aos meninos uma sociedade para gravarmos um DVD e eu cuidar da carreira deles. Eles toparam e junto com o Alexandre Mello [empresário] temos desenvolvido uma carreira bastante promissora. Estamos indo para o quinto projeto”, revelou.

Em maio de 2017, a dupla gravou o primeiro projeto, o DVD ‘Diego e Victor Hugo Ao Vivo em Uberlândia’, com participações de Gusttavo Lima, Maiara e Maraisa, Jads e Jadson, Bruno e Marrone e Henrique e Juliano. Sucessos como ‘O Alvo’, ‘Calafrio’, ‘Prefiro nem perguntar’ e ‘Sem contraindicação’ revelaram o duo para o Brasil. 

A partir deste primeiro projeto, Junior Melo estreitou os laços com o cantor Bruno, da dupla Bruno e Marrone, e começou a produzir alguns trabalhos do duo. Foi nesta mesma época que Melo teve o primeiro contato com o, hoje sócio, Marcelo Cheba, que trabalhava na equipe da dupla Diego e Victor Hugo. 

De largado às traças ao reconhecimento
Por volta dos anos 2000, o produtor Marcelo Cheba, de 36 anos, iniciou sua carreira ainda no samba, tocando para a banda ‘Alma Gêmea’ em Uberlândia. Assim como o sócio, Cheba também quis abandonar a música. Começou a trabalhar em uma fotocopiadora, mas nas horas vagas continuava estudando violão.

Mais tarde, despertou interesse pelo universo da produção musical e teve as primeiras experiências gravando na casa de um amigo, com quase nenhum equipamento. Ele revela que se destacou fazendo guias para compositores, entre 2017 e 2018. 

“Normalmente, os compositores gravavam apenas uma voz e violão e mandavam para os artistas. Ninguém, na época, fazia uma guia bem produzida. Então, eu disse: é possível fazer isso melhor e comecei com alguns compositores, como o Philipe Pancadinha e o Victor Hugo, e tivemos muito sucesso. Os dois primeiros anos foram os que mais registraram venda de composições no Brasil”, destacou.   

Além dos compositores de Uberlândia, Cheba começou a atender demandas de autores de outras regiões do país e os arranjos do violonista chamaram a atenção de produtores já renomados. Entre eles, Ivan Miyazato, que produziu o hit ‘Largado às Traças’, sucesso na voz da dupla Zé Neto e Cristiano. A música foi a segunda mais tocada do ano em 2018, no ranking divulgado pela Crowley. Assinada por Philipe Pancadinha e Victor Hugo, da dupla Diego e Victor Hugo, compositores de Uberlândia, junto com André Vox, a canção teve arranjos produzidos por Cheba, que assina a música como arranjador junto com o produtor Ivan Miyazato.

Além do sucesso com Zé Neto e Cristiano, Marcelo é o responsável por diversos arranjos com artistas como Wesley Safadão, Michel Teló, Simone e Simaria, Jorge e Mateus, Matheus e Kauan e muitos outros. O trabalho com as guias foi o primeiro passo para, mais tarde, iniciar a parceria com o então sócio Junior Melo, efetivada no fim de 2017. 

O STUDIO BAR
Studio Bar em Uberlândia trouxe novo conceito de estúdio | Foto: Alysson Estopa 

Em 2018, os dois produtores iniciaram um novo desafio e inovaram com a inauguração de um espaço que mescla um estúdio e outra grande paixão dos artistas: o afamado bar. A ideia, segundo Junior Melo, veio do cantor Bruno, que sugeriu o nome Studio Bar. 

Segundo Melo, o objetivo foi desenvolver um espaço que propiciasse a artistas e compositores a oportunidade de trabalhar e descontrair ao mesmo tempo em um espaço reservado. “A gente queria uma montar junto com o estúdio uma área de convivência, com churrasqueira. Fizemos um projeto, mas ficou mais parecido com uma casa. Então, mostrei para alguns amigos, entre eles o Bruno. Ele ficou louco com o projeto e um dia ele disse que estava muito bom, mas tinha que ser um bar, tem que ser Studio Bar”. 

Além da produção musical, o estúdio também passou a ser bastante utilizado para gravações de DVDs, lives e outros trabalhos artísticos. A dupla Bruno e Marrone inaugurou o espaço com o DVD ‘Bruno e Marrone Studio Bar Live’, gravado em 2018 com uma participação da dupla Jorge e Mateus, na música ‘Surto de Amor’.

Desde então, os produtores vêm crescendo cada vez mais o portfólio de artistas, gravando projetos para Diego e Victor Hugo, Enzo Rabelo, Ícaro e Gilmar, Rio Negro e Solimões, Bruno e Marrone, Hugo Henrique e até mesmo para o cantor Jorge, da dupla Jorge e Mateus. 

Para Junior Melo, Uberlândia tem despontado no mercado. “Acho que não tanto como Goiânia e São Paulo, que são grandes capitais, mas já podemos dizer que Uberlândia seja talvez a terceira cidade que se destaca no sertanejo”, destaca o produtor.

Marcelo Cheba destaca que, além dos artistas, a cidade também tem no berço muitos músicos e profissionais que atuam no ramo. “Desde o estouro de Alexandre Pires, sempre teve gente de Uberlândia trabalhando com artistas nacionais, mas ainda não tinha muita visibilidade. Hoje, a maioria dos profissionais de equipes técnicas são daqui”, afirma. 

Apesar da visibilidade adquirida nos últimos anos, os produtores dizem que a cidade ainda precisa se desenvolver. Na visão dos profissionais, a cidade é carente de opções como mais casas de shows, escritórios de música e maior investimento do empresariado.

Na estrada com grandes artistas
Sanfoneiro Kleiger Xavier, natural de Uberlândia, acompanha a dupla George Henrique e Rodrigo na estrada há sete anos | Foto: Ezequias Mendes 

Foi ainda criança, aos nove anos, que o músico uberlandense Kleiger Xavier, 29, deu seus primeiros passos na música. Com a sanfona no colo, as primeiras notas deram o tom nas festas de família e nas tradicionais Folias de Reis. Aos poucos, foi tomando gosto pela coisa e começou a se profissionalizar tocando com artistas em Uberlândia e região, como Graziella, Nando Moreno e a dupla Emílio e Eduardo. 

Em 2012, ele decidiu ir para Goiânia em busca de mais oportunidades. Foi na capital da música sertaneja que ele conheceu a dupla George Henrique e Rodrigo e passou a acompanhar os cantores na estrada. De lá pra cá, são sete anos abrindo o fole da gaita junto com a banda e viajando para vários cantos do país. 

Atualmente, o músico reside em Uberlândia e, além do trabalho com George Henrique e Rodrigo, desenvolve um projeto de produção musical voltado para artistas de pequeno e médio porte. “Sempre gravava em outros estúdios e em 2018 resolvi investir em um espaço próprio. Aos poucos foi surgindo a oportunidade de produzir e desenvolvemos um projeto pocket. Tem dado bastante certo e já gravamos de sete a oito artistas aqui”, conta Kleiger.

O músico e produtor, Wteykson Silva, mora em Uberlândia e é diretor musical na banda do cantor Lucas Lucco | Foto: Arquivo Pessoal

Aos sete anos, o músico e produtor Wteykson Silva, 34, iniciava sua introdução no mundo das teclas musicais. Natural de Itaituba (PA), o sanfoneiro e pianista autodidata conta que começou na igreja tocando música gospel. Aos 15, fez suas primeiras produções e foi descobrindo outros ritmos. A trajetória profissional teve início no estado do Mato Grosso, quando ele começou a tocar em barzinhos para duplas regionais. 

Mais tarde, fez amizade com produtores de Goiânia, que o incentivaram a entrar no mercado. Investiu no sertanejo e com a repercussão do trabalho na noite, em 2012 foi convidado para trabalhar com o cantor Lucas Lucco. “Começamos a fazer algumas músicas produzidas e arranjadas pela própria banda na época e, graças a Deus, por esse motivo consegui arranjar algumas músicas que logo se tornaram nacionais”, conta. 

Desde então, o produtor, que também é diretor musical da banda de Lucas Lucco, tem acompanhando o cantor, que mora em Uberlândia, na estrada. Neste ano, Wteykson se mudou para a cidade para ficar mais próximo do artista e investir mais na produção musical. 

“É uma cidade tranquila, pacata, que me ajuda mais na inspiração como arranjador sem contar nas opções de lazer, morar em Uberlândia está sendo maravilhoso. O cenário musical é muito promissor, acredito que o mercado está em grande evidência no mercado nacional, com grandes artistas até da própria cidade, creio que ainda surgiram vários outros artistas. Uberlândia é muito rica em gêneros musicais”, revela Wteykson. 

Além de ser um berço de músicos e produtores, Uberlândia também é um destino bastante procurado por artistas conhecidos nacionalmente, que escolheram a cidade para morar. Entre eles, Bruno, da dupla Bruno e Marrone, Victor Hugo, Lucas Lucco e o cantor Leo Chaves. 





 

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