16/05/2020 às 10h00min - Atualizada em 16/05/2020 às 10h00min

Escolas e projetos voltados para a arte se adaptam durante pandemia

Projeto Pé de Moleque e escola Uai Q Dança de Uberlândia fornecem aulas online durante isolamento social

IGOR MARTINS
Aluna faz exercícios propostos pelo professor dentro de casa | Foto: Arquivo Pessoal
O ensino das artes vai além de mostrar a uma pessoa como atuar ou cantar uma canção, ensinar o dedilhado de um solo de guitarra ou mostrar como se executa um passo de uma música. A valorização artística tem como um pilar fundamental o aprimoramento das pessoas como seres humanos, desenvolvendo o pensamento crítico e permitindo que os indivíduos se manifestem de diferentes maneiras.

Com o decreto de isolamento social em Uberlândia devido à pandemia da Covid-19, as escolas de dança e outros projetos sociais voltados ao cenário artístico têm se adaptado como podem para seguirem realizando suas atividades. O Projeto Pé de Moleque, por exemplo, tem realizado suas orientações e aulas de maneira totalmente remota.

Criado em 1997 por Guiomar Boaventura, a iniciativa oferta oficinas de ballet para crianças e adolescentes no bairro Shopping Park de maneira gratuita. O projeto tem como consultor o coreógrafo, bailarino e professor russo Vladimir Rybyakov e promove ainda um espetáculo de dança anualmente, apresentando à comunidade os resultados alcançados.

Com a quarentena, o Pé de Moleque aderiu em abril às aulas remotas e todo o contato entre alunos e professores acontece agora por meio de mensagens e vídeos através da internet. Segundo Guiomar, a medida é importante para manter a proximidade com as crianças e jovens contemplados com o projeto. “É muito importante estarmos próximos. Nada substitui a aula presencial, mas vivemos um momento muito diferente, e que nos afeta física e psicologicamente”, disse.

Para não interromper os ensinamentos, o grupo se mobilizou para filmar aulas com alunos mais experientes, mostrando aos pequenos exercícios e correções dos passos de dança. De acordo com Guiomar, alguns materiais teóricos didáticos têm sido uma boa ferramenta para ampliar o conhecimento da arte desenvolvida no Pé de Moleque, como livros falando sobre a história da dança, por exemplo.

A professora e master de ballet clássico acredita que os encontros remotos ajudarão todos a neutralizar os impactos negativos da situação causada pelo vírus, mesmo que representem um grande desafio para os envolvidos na transmissão do conhecimento da dança. “O momento impõe uma série de revisões na maneira de transmitirmos conhecimentos de uma forma até agora inimaginável. É lançando mão do avanço tecnológico que vamos reestruturando os pressupostos teóricos e práticos daquilo que se entendeu até agora como o ensino da dança”.

Por fim, Guiomar espera que o fim do coronavírus represente uma renovação através da expressão da dança e fala sobre esperança e fé ao citar as palavras de Isadora Duncan: “a dança deve implantar em nossas vidas uma harmonia que cintila e pulsa”. Desta maneira, ela acredita que o Projeto Pé de Moleque seguirá encarando o ensino da dança artística como atividade educativa e criativa além de pandemias que ainda vierem em outros tempos.

ADAPTAÇÃO
Uma das referências em Uberlândia, a escola Uai Q Dança implementou as aulas virtuais para que os alunos e professores continuem se movimentando e exercitando até passar o período da pandemia. Segundo a professora de sapateado e hip-hop Panmela Tadeu, os feedbacks têm sido bastante positivos mesmo com as dificuldades de adaptação tecnológica por parte de vários estudantes da dança.

“Nós estamos trabalhando com muito cuidado. Mesmo não estando presentes fisicamente e não podermos ver os nossos alunos de perto, nós entendemos a necessidade do momento e a dificuldade que muitos têm com a tecnologia. Temos muitos alunos pequenos que muitas vezes não entendem o que está acontecendo. Pra nós, é um desafio muito grande”.

Ao Diário, a sócia da escola de dança contou que a implementação aconteceu aos poucos. Inicialmente, a Uai Q Dança ofereceu videoaulas gravadas, mas após três semanas, todos os professores se mobilizaram para fazer as aulas remotas online. Como mora em um apartamento, a uberlandense precisou fazer algumas adaptações para seguir fazendo o que mais gosta: ensinar arte.

Segundo ela, danças como o sapateado podem atrapalhar vizinhos por conta do barulho causado pelos calçados. Para isso, ela tem utilizado um tablado para abafar o som e poder seguir com suas aulas normalmente. A Uai Q Dança oferece os cursos de dança contemporânea, jazz, dança infantil, dança livre e ballet. “Cada professor está se adaptando a seu modo”, diz Panmela.

A professora afirmou ainda que durante as aulas ela pede para que todos os alunos liguem suas câmeras para que ela possa ver o desenvolvimento obtido através de suas aulas. “Primeiro faço algum tipo de exercício como modelo e peço para eles repetirem. Depois paro e assisto a tela para ver como eles estão se saindo. Não é o ideal, mas é o possível no momento. Às vezes a conexão não ajuda, mas temos que entender o momento”.

Com a proliferação do coronavírus em Uberlândia, a Uai Q Dança, assim como vários outros estúdios de dança e companhias teatrais, precisou adiar espetáculos previstos para acontecerem no primeiro semestre. A escola tem apresentações oficiais marcadas para o fim do ano, que só serão realizadas se for totalmente seguro para todos os envolvidos, de acordo com Panmela. Até lá, ela quer seguir orientando e conscientizando os alunos sobre a dificuldade do momento e a gravidade da Covid-19, um dia de cada vez, dançando mais e mais. “Acreditamos no existir mesmo com todos os impedimentos, sempre usando a nossa criatividade. Queremos continuar em movimento, respeitando também quem não quiser continuar em movimento”, finalizou.

PAIXÃO EM FAMÍLIA
Rosilene Guimarães é aluna da Uai Q Dança há aproximadamente três anos. Além dela, suas duas filhas, Fernanda e Renata, também aprendem a dança no mesmo local há 12 e 3 anos, respectivamente. Desde o fim de março, as três aprendem mais sobre a arte em seus notebooks, de maneira totalmente digital.

Na opinião da uberlandense de 37 anos, por mais que algumas orientações só aconteçam de maneira presencial, as aulas online têm sido bastante proveitosas e didáticas, mas muitas vezes a disciplina representa um grande desafio por conta da rotina vivida por ela.

“Estar junto presencialmente nos enche de ânimo, e mesmo nos dias em que as vezes estamos mais cansadas, estar em grupo resulta em rendimento. Para mim, que trabalho até mais tarde, isso influencia mais. Para as minhas filhas, o estar em casa pode ter outros atrativos. Mas com a adaptação, as aulas fluem bem melhor”, falou ao Diário.



















 
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