10/05/2020 às 10h22min - Atualizada em 10/05/2020 às 10h22min

Mães contam como estão encarando gestação e maternidade durante pandemia

Situação gera medo e ansiedade às mulheres grávidas ou que acabaram de dar à luz; profissionais de Uberlândia dão orientações para o período

BRUNA MERLIN
No isolamento, Viviane conta com a ajuda do marido e filha para lidar com o puerpério | Foto: Arquivo Pessoal
A gestação e o período puerperal são momentos recheados de expectativas, medos e incertezas para as mulheres. E se já não bastasse o excesso de preocupações, a realidade de quem espera ou acabou de dar à luz a um bebê se torna ainda mais complicada devido à pandemia do coronavírus, que força mudanças repentinas e necessárias.

O isolamento social tem sido um grande desafio para as mamães, já que o Ministério da Saúde (MS) considera que gestantes, mulheres e crianças que estão na fase puerperal fazem parte do grupo de risco de contaminação da doença. Portanto, as angústias e preocupações se tornaram maiores tanto para as mães de primeira viagem quanto para as com mais experiência que já tiveram outros filhos.

“Mesmo que não haja estudos suficientes para comprovar essa vulnerabilidade, o Ministério resolveu redobrar a atenção com essa classe para que não haja consequências futuras”, explicou a pediatra Flayda Vaz da Cunha Gonçalves.

A psicopedagoga Viviane dos Santos Silva deu à luz ao Bento no final do mês de abril em meio ao caos da pandemia. Os sentimentos de medo e ansiedade, que já se acumulavam no período de gestação, ficaram ainda mais intensos no momento do nascimento do filho.

Segundo Viviane, o parto aconteceu em um hospital público de Uberlândia e a aflição aumentou quando ela descobriu que uma mulher estava internada em outro quarto da unidade com suspeita de covid-19. “Meu instinto materno me alertou para fazer tudo certinho, cuidar da higiene e amamentar direitinho. Todos os sentimentos foram se transformando em ações para proteger meu filho”, detalhou a mãe de 39 anos.

Mariana Milani de Oliveira, que teve o pequeno Raul também no fim de abril, passou por muitos momentos difíceis durante a gestão e o nascimento do filho. A mamãe, que sofre de transtorno de ansiedade, não queria acreditar que o Raul nasceria em meio aos caos.

“Só de imaginar que eu iria para um hospital com meu filho e correria riscos por isso, já ficava mal. Chorei bastante e pensei em diversas coisas ruins. Era um sentimento de muita preocupação porque eu só queria zelar pelo meu filho”, comentou.  


Mariana sofreu ao pensar que o pequeno Raul nasceria em meio ao caos | Foto: Arquivo Pessoal

SEM VISITAS
O nascimento de uma criança é um dos momentos mais felizes para os pais e familiares. Em hospitais, é comum a presença de vários parentes que querem conhecer e oferecer carinho ao mais novo membro da família. Mas, a pandemia trouxe mudanças também para esse hábito.

Cumprindo orientações e recomendações do Ministério da Saúde, as unidades de saúde de todo o país proíbem o comparecimento e companhia de outras pessoas durante e pós o trabalho de parto. Agora, a mãe só pode estar acompanhada do companheiro ou companheira.

Foi o caso das mães Viviane e Mariana. Apesar de quererem receber a atenção dos familiares, elas tiveram que mudar os planos para preservar a saúde de todos. Além disso, o período de maternidade nos hospitais, em que os pais recebem auxílio dos médicos e enfermeiros, foi reduzido e a volta para casa foi mais rápida do que o esperado.

Logo após o parto, inicia-se um período que se estende de 45 a 60 dias, chamado puerpério, conhecido como a fase de resguardo, em que a mulher e o bebê estão mais frágeis. Neste momento, é muito comum a ajuda de avós e outros familiares próximos com tarefas domésticas e atividades que exigem esforço. Contudo, o coronavírus também alterou esse costume.

A psicopedagoga Viviane, que ainda está no período de resguardo, acredita que agora ela e o marido serão os protagonistas e terão que revezar os afazeres por mais difícil que seja. Mas, a parte mais complicada para ela é que o pequeno Bento ainda não foi apresentado pessoalmente às avós que também estão no grupo de risco da doença.

“Já temos outra filha, a Maitê de 5 anos. Então, já sabemos como lidar com a rotina e o bebê recém-nascido. É claro que uma ajuda não seria ruim, mas precisamos preservar a nossa saúde no momento. E, devido a isso, ninguém da família pode conhecê-lo pessoalmente ou pegá-lo”, complementou.

A jovem Mariana recebeu a ajuda de uma tia por uma semana para fazer comida e limpar a casa. Agora, ela e o namorado também se revezam para cuidar do filho. E, além da adaptação para conciliar as tarefas domésticas com o bebê, os pais tiveram que ficar atentos aos cuidados de higiene e restringiram as visitas.

“Saímos somente para realizar exames e vacinas dele porque é indispensável. Mas, estamos sempre de olho na higienização, utilizando máscaras e evitando aglomerações com o Raul”, finalizou ela.

 
CAUTELA PARA O FUTURO

 
Planejamentos e cuidados para o futuro já passam pela cabeça da fisioterapeuta, Ana Beatriz Gonçalves Silva de 29 anos, que está grávida de 23 semanas, ou seja, seis meses. Ela, que aguarda a chegada do Raul, também está incluída no grupo de risco e já pensa em formas de evitar consequências caso a situação não melhore e o filho chegue enquanto o coronavírus ainda for um risco para todos.

“Costumo ser muito ansiosa, então neste momento é impossível não pensar no que pode acontecer e já planejar medidas para cuidar da saúde e bem-estar do meu filho”, ressaltou.

Ana Beatriz já está cumprindo o isolamento social com o marido e evita ao máximo se encontrar com parentes. Segundo ela, essa decisão poderá ficar ainda mais rígida após o nascimento de Raul.

“Eu e meu marido estamos muito cautelosos com tudo neste período de gestação e infelizmente teremos que ser mais ainda após a chegada do Raul. Não receber visitas e não apresentar ele aos familiares pode ser uma realidade”, concluiu. 

CUIDADOS
A pediatra Flayda Vaz da Cunha Gonçalves acredita que todo cuidado é pouco neste momento em que o coronavírus está com alto poder de contaminação. Para ela, todas as restrições indicadas pelo Ministério da Saúde aplicadas pelos hospitais e respeitadas pelos pais são necessárias para o bem-estar de todos.

“É importantíssimo cumprir o isolamento social e restringir as visitas neste momento tanto para as mulheres que ainda estão em gestação ou que já deram à luz. É necessário fortalecer a imunidade, a higienização e compreender a importância da quarentena”, frisou.

Apesar do medo, as consultas de rotina devem continuar sendo feitas, cumprindo todas as restrições para evitar riscos. Segundo a médica, as consultas são fundamentais principalmente para os recém-nascidos, pois é quando é avaliado o desenvolvimento e crescimento do bebê.

“São consultas que não podem ser adiadas. Além disso, as vacinas também não podem atrasar porque são essenciais para as crianças. Nós recomendamos que tudo seja feito com cautela, respeitando os cuidados higiênicos e tentando agendar consultas e vacinas em horários com menos fluxos”, continuou a médica.

Além dos cuidados externos, as mães também precisam de atenção para lidar com o mix de emoções sentidas durante a gestação e puerpério, especialmente durante o distanciamento social. A psicóloga Bruna Souza Magalhães costuma dizer que elas preparam tudo, o quartinho do bebê, as roupinhas, os móveis, mas acabam esquecendo de se prepararem emocionalmente para a chegada do bebê. 

“Nestes momentos de imprevisibilidade e insegurança, é comum que os sintomas de ansiedade aumentem e o medo pela contaminação no ambiente hospitalar e pelo isolamento social são comuns nessas horas. O mais importante é que as mamães sejam gentis com elas mesmas, se permitirem sentir tudo que vier e pensar em alternativas saudáveis de lidar com isso”, detalhou. 

Bruna explica que uma rede de apoio é essencial para dispensar os pensamentos negativos. De acordo com a psicóloga, os familiares podem ajudar de diferentes formas mesmo com a distância. 

“Os familiares podem fazer registros com cartas, fotos, para quando for possível, entregar a mamãe e ao bebê. É de extrema importância o apoio presencial do companheiro ou companheira da mamãe para enfrentar esses desafios juntos até todos esses problemas passarem”, concluiu. 














 
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