26/04/2020 às 10h38min - Atualizada em 26/04/2020 às 10h38min

Em tempos de quarentena, livros podem ser bons aliados para a mente

Psicóloga de Uberlândia fala sobre a importância da leitura neste cenário de pandemia; leitores aproveitam tempo livre para se dedicar ao hobby

SÍLVIO AZEVEDO
Ítalo de Faria já leu este ano 26 livros | Foto: Arquivo Pessoal
O período de isolamento social, devido ao novo coronavírus, deu a oportunidade para muitas pessoas começarem a ampliar as atividades realizadas dentro de casa. Enquanto alguns buscaram colocar filmes e séries em dia, outros preferem estimular o cérebro com os hábitos da leitura.

Publicações recentes, realizadas por universidades estrangeiras, mostram os benefícios da leitura no corpo humano. Pesquisadores da Universidade de Sussex, na Inglaterra, chegaram à conclusão de que seis minutos de leitura silenciosa são suficientes para diminuir a frequência cardíaca e aliviar a tensão nos músculos, chegando a 68% a redução do estresse, enquanto ouvir música reduz os níveis em 61%, tomar uma xícara de café em 54% e caminhar 42%.

Já a Universidade de Stanford (EUA) realizou uma pesquisa com candidatos a doutorado e mostrou que a leitura literária é um exercício valioso ao cérebro das pessoas, com o estímulo causado pelo aumento do fluxo sanguíneo em algumas partes do órgão.

“A leitura sempre foi uma boa companhia em qualquer momento. É um hábito que ocupa nosso tempo em todas as fases da vida exercitando nossa imaginação, suscitando emoções e alimentando conhecimentos. Então, nesse contexto de isolamento social, que estamos com uma rotina diferente, permeada por dúvidas, incertezas e medos, sentimentos desafiadores de lidar, esses benefícios da leitura são muito bem-vindos”, explicou a psicóloga Juliana Oliveira e Silva.

Ainda segundo a profissional, com o isolamento social criou-se a oportunidade para as pessoas se conscientizarem sobre a importância da leitura.

“Com mais tempo disponível e a necessidade de se reinventar na rotina, descobrir novas formas de ser e estar no mundo é uma boa oportunidade para percebermos os prazeres e vantagens do hábito de ler. Quem sabe mais pessoas se descobrem nessa prática e levam isso para a vida?”, disse.

E em momentos de muito estresse, em alguns casos medo, o importante é escolher títulos que tragam conforto e sentimento de bem-estar. “Nesse momento podemos escolher leituras que nos fazem sentir bem, acho que essa opção é sempre importante, sem ignorar as leituras informativas, pode ser muito bom ler algo que nos nutra de sentimentos agradáveis e seja prazeroso.

Podemos escolher, por exemplo, também revisitar leituras conhecidas, aquelas que têm uma memória afetiva e vai ajudar nessa busca por sentir-se bem, que pode nutrir nossa criança interna e dar aquele aconchego no coração”, disse Juliana.

E não pense que ler demais pode causar algum dano, muito pelo contrário. Juliana Oliveira afirma que é um hábito que nos conecta com nosso interior e a sensações que fazem bem para a mente. 

“Sendo uma prática que faz bem para mente, emoções e nos ensina tanta coisa, não vai ser ruim. Para mim, uma apaixonada por livros e histórias, a leitura é um momento de silenciar o externo, me conectar com os personagens e me permitir entrar no enredo. Quando eu me permito isso, entro em contato com os meus pensamentos, sensações, sentimentos que aquela leitura desperta em mim a partir das minhas experiencias de vida. Essa conexão com a gente e essas permissões para silenciar o externo é muito do que precisamos ultimamente, sendo assim, ler muito está liberado!”.

PAIXÃO PELA LEITURA
O estudante Ítalo Aleixo de Faria, 32 anos, é um amante da literatura. Já foram mais de 600 livros lidos, 26 somente este ano. E esse hábito começou com incentivo da mãe e do avô. 

“Eles me emprestavam os livros da Agatha Christie para ler e me levavam na biblioteca da cidade de Nuporanga (SP) para pegar livros emprestados. Normalmente eu sempre pegava o mesmo livro sobre vida animal, principalmente por causa das gravuras, mas naquela época eu lia pouco, lia nas férias, ou só quando topava com algum livro que me interessasse, um ou dois livros por ano no máximo”.

A leitura como hobby começou na adolescência, com as leituras obrigatórias do ensino médio para prestar as provas de ingresso na universidade. “Quando em meio às leituras obrigatórias do vestibular eu me encantei especificamente com dois livros: A Tempestade do Shakespeare e Os Lusíadas do Camões, até então eu não tinha noção que histórias com tanta magia ou aventura poderiam existir e fiquei muito mais curioso sobre quais outros tipos de história eu poderia encontrar. Passei a ler Tolkien, Júlio Verne e outros clássicos mais acessíveis e todo tipo de história que me fizesse viajar por lugares mágicos. Desde então, de lá pra cá, passei a consumir muito mais literatura”.

Com o isolamento social, Ítalo passou a ter mais tempo para ler livros e ampliar ainda mais seu conhecimento e alimentar a paixão pela leitura. “Nos horários em que eu deveria estar trabalhando ou na faculdade, agora eu passo lendo ou vendo filmes. Eu encaro essas coisas como um hobby real e não só como um passatempo. Então ficar trancado dentro de casa deixa de ser tão pavoroso quando você tem com o que ocupar o tempo”.

Em meio à expansão do novo coronavírus, a curiosidade sobre outras pandemias atiçou em Ítalo um gênero literário pouco explorado em suas leituras. “É inevitável que num clima de pandemia a gente queira saber mais sobre esse tipo de evento e como outras populações do mundo passaram por isso. Então tenho procurado mais livros que tratem de doenças e como elas afetaram a história do mundo”.

RETOMADA DA LEITURA
“Antes eu costumava ler no máximo um livro por mês. Durante a quarentena estou terminando de ler o quarto”. Assim se tornou a rotina da bióloga Phabliny Martins Silva Bomfim com o isolamento social.

O hábito da leitura foi interrompido com os compromissos da faculdade e a bióloga tinha vontade de voltar a ler. Agora veio a oportunidade que ela não tem deixado passar. “Eu já estava desde janeiro tentando retomar o hábito de leitura. Com a quarentena, além de ter mais tempo para ler, também estou me sentindo menos culpada por estar dedicando mais tempo para ler livros que gosto e não tem nada a ver com a minha profissão”.

Segundo a bióloga, com a volta da leitura melhorou a qualidade de vida e diminuiu a ansiedade. “Sempre que leio algum livro, seja ele mais filosófico ou fantasioso, eu me coloco no lugar dos personagens e isso me faz refletir sobre algum aspecto da minha vida. Ultimamente percebo que lendo mais eu estou me sentindo bem menos ansiosa do que o normal, além de me sentir realizada assim que termino alguma leitura”.








 

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