26/04/2020 às 12h59min - Atualizada em 26/04/2020 às 12h59min

Isolamento social requer atenção com cuidados emocionais das crianças

Angústias também acometem os pequenos neste período de quarentena; psicóloga e médico de Uberlândia orientam pais

BRUNA MERLIN
Raissa e o marido criaram alternativas para distrair e alegrar o pequeno Oto | Foto: Arquivo Pessoal
A pandemia da Covid-19 trouxe muitos desafios e alterou a rotina de milhões de pessoas que hoje estão em isolamento social. O momento atual, que chegou repentinamente, requer atenção redobrada com os cuidados emocionais, principalmente com as crianças que foram afastadas de suas atividades, colegas e familiares, e muitas vezes não entendem o porquê da necessidade da quarentena.

Segundo a psicóloga, Bruna Souza Magalhães, assim como em adultos, a anormalidade também atinge as emoções das crianças. Ansiedade, euforia e tristeza podem acometer os pequenos neste período de incerteza e restrições.

“Os sentimentos podem ser ainda mais intensos nas crianças. Dependendo da idade, elas não conseguem entender realmente o que está acontecendo e não sabem lidar com todas essas emoções e mudanças inesperadas. Neste momento, elas precisam da atenção dos responsáveis mais do que nunca”, disse a profissional.

O pequeno Oto, de três anos, passou por várias fases de adaptação e euforia. De acordo com a mãe, Raissa Dantas de Souza, a quarentena já dura há mais de um mês e o filho enfrentou diversas emoções ao longo do período.

“Na primeira semana ele estava achando que era férias, depois quando via que outras crianças e adultos estavam na rua, ele chorava bastante e perguntava porque ele não podia brincar na praça ou ir na casa da vovó e vovô”, detalhou a mãe.

Em suas redes sociais, Raissa chegou a relatar um momento de muita aflição e tristeza do filho. Oto estava tendo pesadelos de que não poderia mais brincar com os amigos da escola. “Ele acordou muito cedo e chorando muito. Nada acalmava ele, foi um custo. Neste momento, dei toda a minha atenção para ele. Peguei no colo, acolhi, ele mamou e ficou mais calmo”, completou a jornalista, de 29 anos.

Depois de alguns episódios de muito estresse do filho, Raissa e o marido começaram a conversar com o filho sobre o que realmente estava acontecendo no mundo. Além disso, sugeriram alternativas para distrair e alegrar o pequeno.

“Fomos tentando explicar de maneira simples que tem uma ‘gripe’ lá fora e que não podemos pegar, que só estamos protegidos em casa, que nossa casa é segura e que aqui podemos ficar tranquilos. Sugerimos de às vezes fazer ligações de vídeo com um amiguinho com quem ele tem mais proximidade, andar de bicicleta pela praça e também passar em frente à escola para ele ver”, concluiu.

ANIVERSÁRIO ONLINE
Bárbara de sete anos teve festa de aniversário cancelada, mas recebeu comemoração adaptada para o mundo virtual | Foto: Arquivo Pessoal

Bárbara, de sete anos, também passou por diversos momentos de fortes emoções durante a quarentena. A menina, que estava com o aniversário marcado e com os convites da festa entregues antes da determinação de isolamento social, viu sua comemoração ser cancelada. 

A mãe de Bárbara, Suélen Cristina Campos, de 32 anos, explica que apesar da filha entender sobre a situação que atinge o mundo, ela ficou triste com a suspensão da festa que já estava planejada para acontecer no dia 8 de abril. Para alegrar a menina, os pais realizaram um aniversário online com os amigos e familiares mais próximos.

“Encomendei um bolo com salgadinhos e docinhos só para ela, eu e meu esposo. Fiz uma mini decoração simples da Turma da Mônica, que ela adora, e na hora dos parabéns ligamos para as pessoas por vídeo. Ela ficou muito feliz e até recebeu presentes entregues por motoboy”, detalhou a mãe.

ADAPTAÇÃO
Para a psicóloga Bruna Souza, a adaptação é inevitável nos momentos de mudanças de rotina. O aniversário online da Bárbara e os passeios de bicicleta em lugares sem aglomeração do Oto são alternativas muito válidas para manter as programações de forma adaptada durante o período de pandemia. 

A profissional explica ainda que hoje existem diversos conteúdos infantis gratuitos disponibilizados na internet que explicam de forma mais simples e educativa a importância da quarentena. Segundo ela, várias dicas de atividades e brincadeiras também podem ser encontradas no mundo virtual que foram criadas especialmente para o momento de isolamento. “As atividades são muito indicadas para distrair e deixar as crianças mais felizes. É importante tirar algumas horas do dia para brincar com elas”, ressaltou.

Na casa da Suélen, muitas adaptações foram feitas para proporcionar distração à Bárbara já que os pais não a deixam mexer em celulares, tablets e computadores. “Tive que comprar novos brinquedos e muitos gibis que ela ama. Isso está ajudando muito”.

Além de adquirir livros infantis e estabelecer um horário para contação de histórias com o filho, Raissa teve que estender o tempo de exposição a telas de Oto. Antes, ele tinha horários estabelecidos para assistir desenhos, mas com a quarentena o tempo aumentou. “É uma forma de eu e meu marido trabalharmos, porque estamos atuando em home office. Baixamos alguns jogos também para distraí-lo”, completou a jornalista.

A psicóloga acredita que os aparelhos virtuais podem sim ajudar no processo de adequação, principalmente quando os pais precisam trabalhar, mas esse recurso não deve ser disponibilizado à criança em excesso. O ideal, de acordo com a especialista, é sempre procurar atividades que ocupem o tempo e ao mesmo estimulem o conhecimento, como desenho e leitura.

“Os pais também devem estabelecer uma parceria e acordos. Se houver flexibilidade de horários entre o trabalho dos dois, um pode ficar e brincar com a criança enquanto o outro realiza suas atividades profissionais. É uma alternativa para escapar do excesso de exposição a telas”, seguiu a explicação.

Por fim, a profissional ressalta que os horários e programações dos pais e das crianças devem continuar estabelecidos para que não haja desorganização e mais alterações no dia a dia dos mesmos. “Os horários de acordar, almoçar, tomar banho, jantar e ir dormir devem ser seguidos para não confundir ainda mais a cabeça de todos, principalmente das crianças. É importante manter uma rotina saudável e com programações estabelecidas”, finalizou Magalhães.

CUIDADOS
Com as crianças em casa, a responsabilidade dos pais com os perigos domésticos deve ser aumentada. Para o ortopedista pediátrico, Celso Eduardo Ribeiro Gonçalves Santos, a quarentena requer maior atenção com a criançada que está mais exposta a queimaduras, quedas, cortes e afogamentos.

O médico ressalta que as precauções devem ser redobradas especialmente com crianças de 4 a 9 anos que já adquiriram uma maior independência dos pais. “Recém-nascidos e crianças abaixo de três anos ainda são mais dependentes dos pais e ficam a todo instante coladas neles. Após essa idade, elas já começam a brincar sozinhas e isso pode representar perigo”, explicou.

Celso aponta que é importante não esquecer que as crianças são curiosas e qualquer novidade chama a atenção delas. Sendo assim, lugares como banheiros e cozinha devem ser proibidos para crianças sem a companhia de um adulto.

“Muitos pais que estão em home office se trancam em um quarto e oferecem uma distração para a criança. Durante esse período ela pode ficar exposta a objetos cortantes, aparelhos eletrônicos, panelas quentes, fósforos e outros objetos que apresentam riscos”, complementou o ortopedista.

Casas ou condomínios que têm piscina e playgrounds também são zonas de riscos para os pequenos. Segundo o médico, os pais devem estar sempre supervisionando as crianças nestes lugares.

“Nós vemos muito, principalmente em condomínios que certamente apresenta maior segurança, crianças que saem de casa para brincar com os colegas na rua e acabam sendo atropeladas, caindo dos brinquedos no parquinho e até dentro de piscina. As crianças não podem ficar sozinhas e é muito importante ressaltar isso aos responsáveis”, concluiu o médico.














 
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