08/04/2020 às 08h01min - Atualizada em 08/04/2020 às 10h27min

Pacientes sofrem com suspensão de medicamentos em Uberlândia

Enfermos com leucemia buscam meios jurídicos para garantirem a continuidade no tratamento da doença

IGOR MARTINS
Fernando Alves e Marcelo Batista recorreram ao Ministério Público Federal | Foto: Arquivo Pessoal
Três pacientes do Hospital do Câncer de Uberlândia tiveram o fornecimento de seus medicamentos contra a leucemia suspensas pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) desde a última semana. A interrupção é válida para os remédios utilizados na terceira fase do tratamento contra a enfermidade.

O motivo da suspensão, conforme aponta o Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas (PCDT) é que a secretaria só prevê o fornecimento até a segunda linha de tratamento. O Diário teve acesso ao relatório médico de um dos pacientes, mostrando que o documento encaminhado pela Diretoria de Medicamentos Especializados da Superintendência de Assistência à Saúde de Minas Gerais diz que o hospital deverá arcar com o tratamento, já que o Ministério da Saúde não disponibiliza a terapia de terceira linha.

O relatório aponta ainda que o medicamento é de alto custo e o valor não é repassado ao hospital. A reportagem entrou em contato com os três pacientes no início da semana que afirmaram que vinham recebendo os medicamentos da terceira fase do tratamento normalmente nos últimos meses.

PROGRESSÃO DA DOENÇA
Um dos pacientes afetados é Fernando Alves Vieira. Diagnosticado com leucemia em outubro de 2017, ele aguarda um transplante de medula óssea e tentará conseguir na justiça a garantia de entrega de seus medicamentos, que devem ser utilizados de maneira contínua. Vieira afirmou que vinha recebendo o remédio desde dezembro de 2019.

Segundo ele, seu advogado já procurou o Ministério Público e a Defensoria Pública, mas ainda não obteve resposta, devido ao novo coronavírus, que fechou comércios e colocou algumas entidades em recesso em Uberlândia.

De acordo com o médico de Fernando, a leucemia do jovem de 26 anos é agressiva com potencial de levar o paciente a óbito.
No momento, Vieira encontra-se em resposta hematológica com o medicamento em questão e existe o risco de progressão da doença.

“É uma situação difícil. Me deram um laudo médico bem criterioso. Só tenho mais 10 comprimidos e não tenho como comprar o remédio. Ele dura um mês e custa aproximadamente R$ 17 mil. Pensa eu gastar esse dinheiro mensalmente com uma medicação”, disse.

Outro paciente que enfrenta o mesmo problema é Marcelo Batista Gomes, que foi diagnosticado com leucemia mieloide crônica em 2014. Ele já fez o uso de três remédios durante o seu tratamento, mas afirmou que o de maior efeito até hoje foi justamente o utilizado na terceira fase, o dasatinibe. Agora, ele teme não conseguir dar continuidade ao enfrentamento à leucemia e também pretende recorrer aos meios jurídicos para seguir recebendo o medicamento.

Entretanto, com o surto do novo coronavírus na cidade, várias entidades legais estão fechadas e passaram a atender remotamente. “Tá tudo fechado. Estamos tentando falar com o Ministério Público e a Defensoria. Eles são a nossa esperança. A situação é muito arriscada, muito complicada. Se interromper a medicação eu sei que vou piorar. Estamos com medo de nem conseguir pedir ajuda”, disse.

Gomes afirmou que ainda possui comprimidos para tomar durante o mês de abril, mas está preocupado com o que vem depois. Se ficar sem o remédio, a leucemia de Marcelo pode se agravar e uma nova mutação pode acontecer, podendo tornar a medicação ineficaz. “Estou bem devido ao remédio, mas se eu parar de tomar, além de ficar mal, ele pode parar de funcionar”, relatou.

MEDO
“A gente não entende uma coisa dessas. Estava recebendo o remédio normal, e de repente pararam de fornecer no hospital. Não posso ficar sem remédio. Não tomando o remédio, eu corro o risco de morrer”. Este é o relato de Mário Albery Soares Perdomo, que já está na luta contra a leucemia há 16 anos.

Na terceira fase da sexta geração de seu tratamento, ele, assim como Fernando, está fazendo uso do nilotinibe para combater a doença. O idoso de 77 anos afirmou que só tem comprimidos para mais oito dias e mostrou preocupação com a suspensão na disponibilização dos medicamentos.

Mesmo diante do problema, o paciente tenta manter a calma e procura alternativas para garantir a entrega de seu medicamento. Impossibilitado de fazer um transplante de medula óssea, Perdomo tem buscado entidades legais que o possam ajudar neste momento delicado. “Me reuni com alguns médicos no hospital quando recebi a notícia e estou providenciando no Ministério Público para conseguir falar com o promotor de justiça. O problema é que as coisas estão fechadas por conta do novo coronavírus, e por conta da minha idade não posso ficar saindo de casa. Está muito complicado”, disse.

O transplante de medula óssea é contraindicado para pessoas com a idade de Mário. 

POSICIONAMENTO
Por meio de nota, o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) esclareceu que não foi informado sobre a falta de medicamentos para pacientes oncológicos e que tomou ciência pela mídia de que os medicamentos dasatinibe, imatinibe e nilotinibe estariam em falta.

O HC-UFU informou ainda que tais medicamentos são fornecidos pela Secretaria Estadual de Saúde, por meio do Sistema Integrado de Gerenciamento da Assistência Farmacêutica (Sigaf), e que no presente momento tem todos eles em estoque.

A Secretaria Estadual de Saúde, por sua vez, informou que os medicamentos dasatinibe e nilotinibe não fazem parte da lista do Componente Especializado de Assistência Farmacêutica da SES-MG.

NA JUSTIÇA
Ainda na segunda-feira (6), um dos pacientes entrevistados pelo Diário disse que esteve no Ministério Público Federal de Uberlândia e foi informado que a Procuradoria deve mover uma ação a respeito. “Pediram para a gente aguardar e creio que teremos respostas”, afirmou Fernando Alves.
















 
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