04/04/2020 às 08h00min - Atualizada em 04/04/2020 às 08h00min

Cultura de Uberlândia sofre impactos com o novo coronavírus

Músicos têm prejuízos com falta de shows; teatro deve ter agenda recheada no segundo semestre

IGOR MARTINS
Ana Carol Naves faz todos os dias lives pelo Instagram | Foto: Divulgação

Por mais que muitos sequer percebam, a todo momento estamos consumindo algum tipo de cultura. Seja assistindo a um filme no cinema ou em plataforma de streaming, ouvindo música no celular ou até mesmo lendo um livro, a arte está presente a todo instante na vida das pessoas.

O crescimento da área cultural em Uberlândia fez com que isso se tornasse cada vez mais notado. Afinal, vários shows e eventos culturais têm acontecido na cidade, tornando o município cada vez mais conhecido no meio artístico. Entretanto, com a chegada do novo coronavírus, a cultura uberlandense sofreu grande impacto. Apresentações foram canceladas ou adiadas, as casas noturnas fecharam temporariamente e quem precisa se virar são as pessoas que vivem diretamente da arte.

Quem sobrevive da música, por exemplo, tem buscado diferentes alternativas para continuar na ativa e ter o menor prejuízo financeiro possível enquanto durar o período de isolamento social em Uberlândia. E o caso do guitarrista Eduardo Lúcio, que vive única e exclusivamente do meio musical há 21 anos.

Após o decreto municipal que aumentou as restrições para isolamento e prevenção devido à Covid-19, o músico teve três shows cancelados e um adiado para setembro. Com esses quatro eventos, ele deixou de ganhar aproximadamente R$ 1.200, segundo os próprios cálculos.

Além de se apresentar em shows por meio da prestação de serviço a bandas e outros músicos, Eduardo também é professor de guitarra e violão. Com a quarentena, todas as aulas presenciais foram canceladas para evitar aproliferação do vírus. Uma alternativa pensada pelo profissional foi a disponibilização de um curso online ministrado por ele.

No curso, o aluno se cadastra e uma aula é ofertada por semana, com várias videoaulas referente a um capítulo. “Estou tentando estabelecer uma conexão online com os alunos. Tem sido difícil, porque eu não tenho essa tradição do online. A quarentena está servindo para eu organizar essa nova etapa da minha vida. Não tenho outra fonte de renda que não seja a música”, disse.
 
LIVES
“Se a gente faz show, ganha. Se não faz, para de ganhar. No meu caso, deixei de fazer 11 shows e consequentemente deixei de ganhar 11 cachês, fora o restante do mês de março e abril e outros eventos particulares que foram adiados”. A realidade da cantora Ana Carol Naves é essa. Os impactos do fechamento de casas noturnas geram um grande prejuízo financeiro para grande parte dos músicos que vivem das “tocadas” em bares e locais culturais.

Seguindo as recomendações de isolamento social, Naves acredita que mesmo com todas as dificuldades o momento requer muito cuidado e respeito ao próximo, além da consciência de todos de ficar em casa em um período que é de grande importância para a população.

Durante a quarentena, Ana Carol tem recorrido ao meio digital para continuar fazendo o que mais ama e ainda divulgar o seu trabalho para a população uberlandense. Todos os dias ela faz lives pelo Instagram diretamente da garagem de casa e canta para os seguidores e vizinhos. A ideia, segundo ela, tem dado bastante resultado. “O pessoal tem gostado. Fiz mais amizades e os comentários, feedbacks e mensagens que recebo são de carinho e gratidão”, disse.

O “In Casa com Ana Carol” acontece sempre às 17h e é possível ajudar com doações através do Instagram @anacarolnaves.
 
TEATRO


Carlos Guimarães elogia solidariedade artística durante a pandemia | Foto: Arquivo Pessoal

O teatro não saiu ileso frente a todos os impactos causados pelo novo vírus. Além do adiamento do espetáculo “Rota”, da Cia Deborah Colker, a cidade precisará realocar todas as apresentações para o segundo semestre. Segundo o produtor cultural Carlos Guimarães, os eventos previstos para acontecer no Teatro Municipal entre março e junho estão sendo transferidos para ocorrer entre julho e novembro.

Ainda de acordo com Guimarães, conversas sobre cancelamentos e adiamentos já vinham acontecendo mesmo antes do decreto de fechamento do teatro, diante do estado de alerta que já estava tomando conta do Brasil na época. Isso gera um grande prejuízo não apenas para espetáculos, mas para todos os tipos de eventos culturais que aconteceriam no município, na opinião do produtor.

“Os setores de eventos e de turismo foram os primeiros a serem atingidos e são os que também não têm viés alternativo para se manterem sem a devida atuação. Em alguns casos da nossa programação já tínhamos passagens aéreas compradas. Mas sabe que não vejo ninguém lamentado isso? Não vejo os artistas, como alguns milionários fazem, chorando com medo da falência. Acho que a arte tem em seu escopo essa premissa de valorização da vida, acima de tudo”, disse.

De qualquer maneira, Carlos Guimarães espera um calendário cheio no segundo semestre na cidade, mesmo sabendo da possibilidade de prolongamento do fechamento do teatro devido à Covid-19. A Secretaria Municipal de Cultura já tem trabalhado nesse sentido e conseguiu reagendar tudo o que estava programado para acontecer no espaço cultural. “Não creio que haverá diminuição das atrações em cartaz no segundo semestre. Ao contrário, a tendência é que seja uma programação mais recheada, e tomara, com bastante público. Imagino que as pessoas sairão dessa quarentena ávidas por eventos culturais e valorizando-os mais ainda”, falou à reportagem.

Segundo o produtor, a maneira como os artistas e agentes culturais sobreviverão a esse momento é um fator preocupante. Em sua opinião, seriam necessárias as criações de políticas públicas para protegê-los, já que estão impedidos de trabalhar. O momento atual é de utilizar a criatividade artística a favor da vitória sobre esse inimigo invisível, de acordo com Carlos.

Guimarães ainda disse sobre a reinvenção da arte e todo o poder que ela exerce em todo o mundo. Seja em crises mundiais, com doenças, conflitos políticos ou guerras, ela sempre emerge mais revigorada. O produtor cultural elogiou as iniciativas de apresentações de músicas ao vivo pela internet e presenciais em sacadas de prédios e condomínios, revelando muito a generosidade e solidariedade artísticas.

“A arte também tem o poder de alento às pessoas, ela produz esperança e revigora a vida. Por isso, tem sido tão buscada nesses momentos de quarentena. Os artistas, de um modo geral, ao menos os verdadeiros, aqueles que carregam a arte na alma, mesmo sem o retorno financeiro estão se doando para que a humanidade atravesse esse momento tão duro com mais leveza. Arte é isso, quase sempre, uma soma de doação e generosidade”, disse.
 
MUSEUS
Os museus de Uberlândia se encontram fechados temporariamente durante a pandemia do coronavírus. Dentre eles, o Museu Municipal, Museu de Biodiversidade do Cerrado, Museu Mineral da UFU, Museu de Artes Sacras, Museu do Índio e o Museu Universitário de Arte (MUnA), que tem nova gestora desde ontem.

Tatiana Ferraz, que é professora de escultura do departamento de artes visuais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), falou ao Diário sobre os desafios de assumir um projeto como este em um período complicado como o atual.

Os planos de Tatiana para o MUnA durante a pandemia passam por trabalhos internos e externos, com colaboradores e com o público, respectivamente. Por meio de reuniões virtuais, a equipe tem elaborado planos para continuar divulgando o acervo do espaço e popularizando o único museu de artes visuais do Triângulo Mineiro.

De acordo com Ferraz, atividades serão divulgadas nas próximas semanas nas redes sociais do MUnA, contendo acervos e divulgando informações de obras que já passaram pelo local nos últimos tempos. “O nosso projeto se chama #MunaComVocê. Faremos duas ou três postagens semanalmente. A ideia é resgatar obras que já foram trabalhadas e possivelmente transformar o MUnA em uma espécie de museu virtual”, disse.












 


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