05/04/2020 às 10h51min - Atualizada em 05/04/2020 às 10h51min

Em Uberlândia, agronegócio vai na contramão de crise do coronavírus

Apesar dos impactos na economia, setor tem aproveitado o momento para realizar mais negócios

SÍLVIO AZEVEDO
Algar Farming aproveita cenário atual com o dólar em alta | Foto: Officina de Criação
Dono de mais de 21% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2019, o setor agro é essencial para a economia nacional, que deverá ser impactada com o fechamento de temporário de comércios e indústrias. Além do valor de arrecadação e venda, é o agronegócio que abastece o país com alimentos.

Contrariando outros setores da economia, o segmento em Uberlândia ainda não sofreu grandes impactos causados pela pandemia. Alguns produtores, inclusive, foram beneficiados com a variação do dólar e a valorização dos produtos.

“Se a gente fizer uma análise muito simplista, o agro não sofre muito. Em alguns setores a gente tem uma diversidade muito grande de negócios. Se pegar as commodities, por exemplo, estão travadas. A maioria está precificada e com o dólar em alta acaba sendo positivo”, explicou o presidente do Sindicato Rural de Uberlândia, Gustavo Galassi.

A grande preocupação, no entanto, é com a economia do país, com a queda de braço entre pessoas ligadas à saúde pedindo um isolamento total, enquanto outras entidades estão prevendo um problema econômico grave. 

 
“É uma coisa tão diferente, nova, que foge do que você pode planejar para daqui uma, duas semanas. Não gosto de falar que o Agro vai salvar o Brasil. Não, a gente vai ajudar, mas precisa ter uma dose de bom senso e equilíbrio na parte econômica senão será um caos maior do que a própria pandemia”, disse Gustavo.

Fazendo uma análise comparativa com outros setores, o presidente do Sindicato Rural explicou que a reação entre os setores econômicos é bem distinta. “O que a gente tem falado, trazido para o setor do comércio, industrial, serviços, a pancada deles vai ser mais rápida. Mas, a gente está vendo lá na frente que isso vai impactar em um todo, porque nossa reação é a médio e longo prazo. Por isso, eu acho que tem que haver uma sensibilidade. É hora de ter uma dose equilibrada de bom senso para dar continuidade na economia senão vamos ter problemas sérios”, disse Gustavo Galassi.

Ainda de acordo com Galassi, o setor não pode parar e os produtores seguem otimistas. O Sindicato Rural realiza ações internas motivando os associados e mostrando que o trabalho deles deve continuar. O reflexo disso é o fluxo normal de atendimento aos produtores do sindicato. 

“Embora a gente esteja fechado, mas a parte interna, de atendimento ao associado, segue fluxo normal. Notas de vendas de produtos, comércio de bovinos, temos observado que isso não parou. Apesar de termos fechados os leilões por obrigação do decreto, a gente vê que os produtores têm feito sua parte. Os frigoríficos têm mantido o abate normalmente. Entre nós, engraçado, que está tudo positivo. Temos o sentimento de fazer a nossa parte”.

UBERLÂNDIA
Impactos em lavouras e eventos agro 
Produtor de bananas disse ter sofrido queda de 20% nas vendas | Foto: Arquivo Pessoal

Dentro das lavouras e pastos, o novo coronavírus impactou de maneira distinta alguns setores. Enquanto uns estão em fase final de safra, com os produtos já comercializados, outros sofrem com a queda nas vendas.

Grande produtora de soja com aproximadamente 13 mil hectares de área plantada em Uberlândia, a Algar Farming é uma das empresas que aproveitaram o cenário atual do dólar em alta. Segundo o diretor-presidente, Marlos Alves, a princípio o impacto foi bastante positivo. Em fase final de safra, a empresa já colheu 70% da área de plantio e vendeu 95% da produção.

 “Assim como toda a cadeia, nosso impacto a curto prazo foi positivo, pois estamos no momento de realizar receita e, com essa decolada do dólar, aconteceu que o nosso principal produto em reais, que é a soja, sofreu um aumento expressivo, quase 10% de preço médio, passando de R$ 77 para R$ 86 reais a saca”.

Além da alta no dólar, alguns fatores têm favorecido a produção e escoamento da soja. “Estamos no momento de colheita e até o momento não tem fechamento de porto. Com isso, as entregas são normais. Os problemas que temos tido são normais de qualquer outra safra, como o gargalo logístico, que não tem nada a ver com o coronavírus. Até então conseguimos tocar a vida normal”.

Mas, como medida de contingência, a empresa adotou ações, como a compra de mais silos bolsa, usados para armazenar o grão no campo. “Compramos 30% a mais do que o habitual. Então, temos agora capacidade de estocar entre sete e oito mil toneladas em silos bolsa, que corresponde a 25% da nossa produção. É uma medida de contingência caso os portos vierem a fechar, o que ainda não aconteceu”, explicou Marlos.

Por se tratar de uma matéria prima para muitos produtos alimentares, Marlos não acredita na retração da demanda. Porém, o grande impacto a médio prazo que a empresa pode sofrer é na hora de comprar os insumos para a próxima safra, que começa a ser plantada em novembro. “A alta no preço do insumo que tem base dólar na matéria prima. Por exemplo, defensivos agrícolas têm moléculas com preço em dólar e causam o aumento na nossa formação de custo”.

Segundo o presidente da Algar Farming, parte da próxima safra, inclusive, já está vendida. “Para isso, a gente já está tomando algumas medidas como, por exemplo, temos condições de fixar essa soja para a safra 20/21. A gente tem boa parte da nossa soja vendida, fixada, e nos dá uma segurança nesse ambiente”.

Por outro lado, alguns produtores encontram queda nas vendas. Gabriel Sorna tem uma propriedade com 30 hectares de plantação de bananas em Uberlândia. Segundo ele, houve uma queda de 20% nas vendas nesse período.

 
“Antigamente, entregava de 700 a mil caixas por semana no Ceasa. Hoje entrego de 500 a 600. Muito porque compradores de fora não estão vindo. Teve uma mudança. Não estava tendo comercialização nas feiras livres, e este é outro cenário que prejudica. A gente reduziu a quantidade que está levando, para não perder, mas não paramos”.                                                                                                                                                                                                                                                           
Segundo Gabriel, o momento ainda é de entressafra, com uma produção mais baixa. Mas, a partir de maio começa a safra, com uma produção maior e não consegue segurar muito tempo a fruta no pé. “Algumas vezes dá para segurar, mas se começar a madurar no pé tem que tirar, não dá para deixar lá”.

Outra consequência do momento é o aumento de 40% no preço da caixa de 16 kg de banana, que passou de R$ 25 para R$ 35. Com isso, nem todo produto tem saída. “Mesmo com a não importação da fruta de outras regiões do estado, os vendedores estão com produtos estocados. Essa semana, eu levei 650 caixas para o Ceasa e sobrei com 45”.

Sobre o planejamento para um período maior da pandemia, o produtor afirmou que mesmo com a queda na quantidade de bananas vendidas, não está planejando nada diferente, pois ainda está tudo muito incerto. “A gente trabalha normal. Teve a queda, teve, mas não paramos e nem nos programamos para frente porque é um cenário que não sabe quanto tempo vai durar”.

EVENTOS
Por causa dos decretos estadual e municipal, atendendo a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), dois grandes eventos do agronegócio que aconteceriam em Uberlândia foram adiados. 

A Feira do Agronegócio Mineiro (FEMEC), organizado pelo Sindicato Rural de Uberlândia, aconteceria entre os dias 23 e 27 de março, e segundo o presidente Gustavo Galassi, a nova data será marcada após definição dos poderes públicos sobre a liberação da realização de eventos.

“Nós seguimos aguardando o desenrolar das liberações”. A diretoria e organização da FEMEC tem se reunido frequentemente analisando as possibilidades. Assim que tivermos uma ordem de governo, a gente vai tomar a decisão sobre a nova data. Por enquanto estamos aguardando. 

Já a FarmingShow, organizada pela Algar Farming, aconteceria no mês de abril e foi adiada para os dias 29 e 30 de julho.

 
“Sabemos que o momento exige cuidados, e, pensando em todas as pessoas envolvidas, sejam elas expositores, colaboradores e visitantes da feira, mudamos a data para o final de julho, mas manteremos a organização e esperamos que grandes negócios aconteçam nesses dois dias de evento”, disse o diretor-presidente, Marlos Alves.







 

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