05/04/2020 às 08h45min - Atualizada em 05/04/2020 às 08h45min

Psicólogo de Uberlândia fala sobre como o isolamento pode afetar a saúde mental

Profissional ouvido pelo Diário dá dicas para manter equilíbrio e evitar crises de ansiedade e depressão durante a quarentena domiciliar

BRUNA MERLIN
A pandemia mundial do novo coronavírus trouxe diversas consequências e preocupações para a população, que não esperava passar pelo isolamento social indicado pelo Ministério da Saúde para diminuir a disseminação da doença. Em meio ao caos, a angústia e a aflição geradas pela incerteza afetam a saúde mental de diversas pessoas que não conseguem lidar com a situação.

O psicólogo Leonardo Abrahão explica que todas as mudanças que tem sido feitas na rotina pessoal e profissional da maioria da população são um gatilho para despertar ou agravar transtornos emocionais e psicológicos. “A mudança repentina de alguma rotina causa muitos efeitos no ser humano, ainda mais quando ele não tem o controle da situação. Uma novidade que não é bem entendida ou aceita ela pode acabar gerando transtornos psicológicos como agressividade, ansiedade, fobias, transtornos alimentares, comportamentos antissociais e outros”, explicou Leonardo.

Uma comerciante, que não quis se identificar, contou ao Diário de Uberlândia que o marido de 66 anos começou a ter crises de ansiedade devido à quarentena domiciliar. O casal, que mora em Uberlândia, sempre teve uma rotina normal. De acordo com a comerciante, ela e o esposo, que é administrador, trabalhavam fora de casa e costumavam sair regularmente com amigos e parentes.

Ela conta que o esposo nunca havia apresentado sintomas do transtorno antes do isolamento e teve que ser medicado com calmantes para conseguir se manter em casa. As crises de ansiedade são acompanhadas por aumento da pressão e falta de ar.

“Ele não tem medo do que pode acontecer ou de perder o emprego porque está conseguindo trabalhar em casa, mas tem receio de ficar dentro da residência o dia inteiro. Estamos nessa situação há cerca de 15 dias quando as crises começaram.  Procuramos um profissional e com o remédio ele consegue ficar mais calmo”, detalhou a comerciante.

Para o psicólogo Leonardo Abrahão, os transtornos correspondem a um processo de desintoxicação de um estilo de vida que é regrado pela correria, falta de tempo e pela vontade de se satisfazer com passeios e eventos. Ainda de acordo com o profissional, essas mudanças devem ser encaradas como oportunidades para descobrir novas coisas para manter a mente ocupada.

COMPREENSÃO
Psicólogo Leonardo Abrahão fala sobre o que pode ser feito para driblar os transtornos | Foto: Arquivo Pessoal


Existem muitas alternativas para driblar o surgimento ou aumento dos transtornos. Mas, segundo Leonardo Abrahão, as pessoas precisam começar entendendo o verdadeiro sentido do que está acontecendo para que as mudanças não sejam feitas somente externamente em suas casas, mas sim no interno de cada um.

“Somos movidos por sentidos, sendo assim, quando compreendemos o sentido do porquê de todas essas transformações nas nossas rotinas, conseguimos lidar melhor com o que está acontecendo. É necessário compreender que o isolamento social é legítimo, tem um propósito e que irá passar”, explicou.

O segundo passo é aceitar o processo de adaptação temporária e procurar por estratégias que tornem a situação melhor. “Nós passamos por adaptações o tempo todo, como começar uma nova dieta ou prática de exercício, mas é preciso ter esforço e paciência para que dê certo”, completou o psicólogo.

Por fim, é hora de investir nas estratégias traçadas. É recomendado que as pessoas mantenham uma rotina, façam planejamentos, criem metas e tenham horários mesmo dentro de casa. Além disso, outras atividades podem ajudar a distrair a cabeça como manter contato com os amigos por redes sociais, investir em um curso novo, fazer exercício físico e outras.

“É importante lembrar que cada pessoa deve respeitar o seu limite. Não devemos mergulhar nas opções de atividade em excesso porque isso só irá sobrecarregar o psicológico É necessário ter equilíbrio e buscar por coisas que fazem sentido para você”, orientou. 

MENOS É MAIS
O psicólogo também lembra a importância de manter o equilíbrio nestes momentos de crise que afetam diversas pessoas no mundo. Para ele, o excesso pela procura de informações a respeito de tudo o que envolve a situação pode trazer muitas consequências e gerar um comportamento obsessivo.

“A busca incansável por informações sobre o vírus e o que ele está causando na sociedade, principalmente, quando se trata de fake news, que é a grande maioria, gera uma preocupação maior do que a necessária. A pessoa deixa de prestar atenção em outras questões, em si mesma e nos familiares. Esse ato cega, veda e a pessoa vai se afundando cada vez mais, e esquece de pensar em outras coisas que possam agregar diante da situação”, disse.

Leonardo afirma que a informação não deve ser esquecida pelos cidadãos, pois ela é sempre importante para manter o senso de realidade, mas deve ser buscada em veículos de comunicação confiáveis e oficiais. Além disso, é recomendado que isso seja feito apenas uma ou duas vez por dia.

AJUDA
A busca por auxílio profissional em momentos de descontrole pode ser essencial para preservar a saúde mental. Segundo o psicólogo Leonardo, existem diversos suportes disponíveis, tanto solidários quanto remunerados, para quem não consegue passar pelo processo do isolamento social da Covid-19.

O profissional indicou aos leitores do Diário de Uberlândia os serviços de apoio do Instituto Janeiro Branco, fundado na cidade. Grupos de psicológicos do município estão se unindo para oferecer acolhimento durante a pandemia do vírus. Os interessados podem acessar o site do instituto e solicitar ajuda. 






 
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