25/02/2020 às 09h00min - Atualizada em 25/02/2020 às 09h00min

Escolas públicas de Uberlândia não cumprem regra nacional da Educação Financeira

Estado e Município não inseriram a modalidade na grade curricular já prevista para este ano; Colégio Nacional aplica tema em projetos de empreendedorismo para alunos do ensino médio

BRUNA MERLIN
AEF Brasil capacita servidores sobre a temática | Foto: Divulgação
Você sabia que mais de 45% dos brasileiros não fazem controle financeiro e que 21% utiliza a própria memória para gerir as finanças? É isso que aponta um levantamento feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Na teoria, investimentos, poupança, taxa de juros e planejamento para o futuro, tudo parece ser muito simples de entender. Mas, quando precisamos aplicar no dia a dia a história se complica e gera muitas dúvidas.
 
Dívidas decorrentes da má administração do dinheiro afetam cerca de 62 milhões de brasileiros que estão com o Cadastro de Pessoa Física (CPF) negativado, segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).  Com o objetivo de diminuir esse número de futuros endividados e preparar crianças e adolescentes para que desenvolvam habilidades de gerenciamento financeiro, o Conselho Nacional de Educação (CNE) introduziu a Educação Financeira nas escolas brasileiras conforme as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
 
O projeto de aplicação da modalidade de ensino foi sancionado em 2017, mas entrou em vigor neste ano. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), escolas privadas e públicas do país devem se adequar à norma para ajustar o currículo e abordar o tema nas turmas de educação infantil e ensino médio. A nova regra não está sendo cumprida nas escolas Municipais e Estaduais de Uberlândia.
 
A Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF) trabalha há oito anos para capacitar, de forma gratuita, servidores que querem introduzir os conteúdos financeiros nas grades curriculares. Além disso, a organização disponibiliza materiais sobre o assunto para alunos e docentes. Hoje, são mais de 600 instituições de ensino em todo o país atendidas pela associação.
 
Segundo a superintendente da AEF, Claudia Forte, a Educação Financeira pode ser tratada como um tema comportamental e transversal, ou seja, pode ser aplicada por todos os professores de quaisquer disciplinas. “A ideia é disponibilizar o conteúdo de uma forma que não seja rígida e que tenha uma maior interação do aluno para que ele aprenda realmente aplicar isso na prática e que não esqueça. Sendo assim, não é só o educador de matemática que precisa abordar o tema, os outros como de português, história, geografia também podem trazer para as aulas exemplos e exercícios sobre educação financeira que fazem sentido para aquela disciplina”, explicou.
 
Claudia afirma que a disciplina visa ensinar e esclarecer sobre a administração adequada do dinheiro pessoal e coletivo. Os alunos podem descobrir e aprender desde cedo como funciona, por exemplo, o planejamento para a aposentadoria, o investimento para uma casa própria, a ter responsabilidade com o consumo equilibrado e outros assuntos que podem ajudá-los a desviar das dívidas futuras e se tornarem adultos mais conscientes para fazer melhores escolhas.
 
A superintendente da AEF acredita que o Brasil está no caminho certo para tornar a estratégia completamente nacional e que abrange todos os municípios do país, mas visualiza uma falta de interesse por parte das secretarias estaduais e municipais para disseminar a metodologia.
 
“Apesar do progresso ainda é um desafio muito grande atingir todos os cantos do Brasil. As vezes falta um pouco de vontade política porque toda vez que oferecemos uma orientação gratuita, muitos representantes não se interessam”, finalizou Claudia.
 
EM UBERLÂNDIA
Colégio Nacional aplica Educação Financeira durante projeto de empreendedorismo | Foto: Arquivo Pessoal

O Diário de Uberlândia procurou saber como as escolas municipais, estaduais e particulares da cidade estão se adaptando para incluir a Educação Financeira nas grades curriculares dos alunos. Algumas instituições privadas, como o Colégio Nacional, já introduziram projetos que desenvolvem a disciplina com os alunos. Já as públicas ainda não começaram a criar planos para a aplicação do tema.

No Colégio Nacional, a Educação Financeira é aplicada no programa Inova Naça para estudantes do 1º e 2º ano do ensino médio. O objetivo é trabalhar competências cognitivas e socioemocionais dos adolescentes por meio de técnicas de empreendedorismo.

Segundo um dos professores do programa, Leonardo Borges Veloso, os alunos devem criar um projeto, sendo um serviço ou produto, e desenvolver toda a ideia para que ela seja viável ao mercado. A criação deve conter uma parte financeira e os desenvolvedores devem provar a viabilidade econômica dela.

“Trabalhamos o conceito e a prática porque não adianta somente explicarmos sobre o assunto. Eles precisam conhecer e sentirem de perto como gira a economia. O objetivo é que eles tenham os conceitos e apliquem em algo que seja do interesse deles. Na parte financeira eles irão aprender sobre receita, investimento e retorno do dinheiro”, explicou veloso.

O programa Inova Naça oferece orientações para os projetos duas vezes na semana e elas estão inclusas no turno disciplinar. Mas, toda a ação tem uma abordagem interdisciplinar, ou seja, todos os professores de outras disciplinas podem participar e orientar os estudantes.

Ainda de acordo com Leonardo, as aulas do programa começaram na segunda semana de fevereiro e todos os alunos do 1º e 2º são obrigados a participar. Os temas abordados durante a criação do projeto são empreendedorismo, sustentabilidade, educação financeira, cidadania, criatividade, inovações e conteúdos socioemocionais que envolvem tomada de decisão, senso de responsabilidade e empatia.

Município
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Uberlândia para saber como está sendo aplicada a disciplina de Educação Financeira nas escolas municipais da cidade. Por meio de nota, a Secretaria de Educação esclareceu que uma equipe técnica da pasta participará, ainda no mês de fevereiro, de uma formação sobre assunto.

Explicou ainda que nesta etapa serão fornecidas as orientações para os próximos trabalhos que definirão como deverá ser o desenvolvimento desta habilidade, prevista na BNCC.

A Prefeitura também ressaltou que a gestão municipal, por intermédio das secretariais municipais da Educação e de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Turismo, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/MG), já forneceu treinamento na área no ano de 2017, com o projeto “Aprender a Fazer”. O programa aplicou de modo transversal os temas empreendedorismo, cooperativismo e educação financeira para alunos municipais do quinto ano do ensino fundamental. O módulo teve a formação de 154 professores e 5.500 alunos do ensino fundamental na ocasião.

Estado
A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE) também foi questionada sobre como a modalidade está sendo inserida nas aulas das escolas estaduais de Uberlândia. Também por meio de nota foi informado que a Educação Financeira é um tema integrado nas habilidades e competências do Currículo Referência de Minas Gerais (CRMG), que será trabalhado dentro dos componentes curriculares estabelecidos e de forma transversal, podendo, também, ser por meio de projetos interdisciplinares nas escolas do estado.

O Diário também questionou o Estado se há uma previsão para que a disciplina seja integrada à grade curricular dos alunos, mas não obtivemos resposta.









 
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