02/01/2020 às 17h16min - Atualizada em 02/01/2020 às 17h16min

Campanha criada em Uberlândia reforça importância da saúde mental

Em 2020, campanha Janeiro Branco chega à 7ª edição com a proposta de levar a saúde mental para o cotidiano das pessoas

VINÍCIUS LEMOS
Ação do Janeiro Branco ocorrida no ano passado em São Luís, Maranhão | Foto: Divulgação
Em 2020, a campanha Janeiro Branco vai entrar em sua sétima edição. Nascida em Uberlândia, a ação com foco na saúde mental e combate ao adoecimento emocional já atingiu países de pelo menos quatro continentes: América, África, Europa e Ásia. Contudo, para o criador do movimento, o psicólogo Leonardo Abrahão, o momento será de levar os conceitos que norteiam o Janeiro Branco para um lugar muito particular: o cotidiano das pessoas. “Fazemos nascer uma proposta para ver a vida de outra maneira”, disse.

Trabalhando entre o filosófico e o puramente técnico, Abrahão falou em entrevista ao Diário de Uberlândia que o momento da campanha é de revisões em busca da saúde mental, que devem ser despertadas e levadas para os demais meses do ano. Dessa forma, o Brasil poderá deixar estatísticas como as que apontam o País com a maior taxa de depressão da América Latina, a 2ª maior das Américas e a 5ª do mundo.

Para o próximo ano, o movimento, que ganhou um caráter horizontalizado, segundo o próprio criador, prevê ações que vão de palestras e panfletagens a abraços públicos em parques e praias. Confira a entrevista.

Diário de Uberlândia – Quais as novidades do Janeiro Branco em 2020?
Leonardo Abrahão - O que entendemos é que a campanha se consolidou no calendário dos Municípios e Estados brasileiros, que se dedicam à saúde mental e que têm leis colocando a campanha no calendário oficial. A gente agora quer imprimir à campanha uma conotação de ação familiar. Ele [o movimento] conseguiu se institucionalizar e queremos que ganhe capilarização nas famílias, igrejas e trabalhos. O mais importante é levar [as ações] para o cotidiano das pessoas, para que em janeiro elas pensem em saúde mental e qualidade de vida, pelo menos em janeiro, para que depois [essas ideias] façam parte do cotidiano das pessoas.

E como fazer isso?
Criando uma cultura da saúde mental. As pessoas pensam em futebol, novela e carnaval constantemente. Temos essas culturas. A humanidade desenvolveu nos anos 80 a cultura da saúde física. Essa é a lacuna que queremos suprir: a saúde mental. É trazer preocupações e reflexões, atenções e ações em nome da saúde mental. E para fazer isso é preciso chamar a atenção. Quando atraímos a atenção, a segunda coisa importante é vencer tabus como: ao falar sobre saúde mental, as pessoas ligam às doenças mentais. Saúde mental não é doença, é qualidade e propósito de vida coerentes a essas pessoas, é falar de afeto conjugal e até do trânsito, respeitando pessoas. Depois de desmitificar os temas, passamos orientações básicas. Distribuindo informação. É uma campanha didática.

O que já está programado como ações em 2020?
Caminhadas, panfletagens e até abraços em praças e praias, parques. Palestras em igrejas e empresas. E entrevistas como essas. Rodas de conversa e meditação. Atividades físicas. Uma série de atividades com o corpo e cabeça.

Vocês percebem uma maior recepção nesses 7 anos?
Recebemos mensagens por redes sociais e e-mails sobre os debates da vida, sobre o ritmo de cada um e como isso partiu de uma abordagem feita por nós. Todo mundo está a ponto de transbordar. É uma humanidade cheia de violência, injustiças e dores que têm que ser engolidas. Então, quando a gente encontra as pessoas, vemos que elas querem falar e desabafar. Querem um interlocutor que dê importância para o que elas estão dizendo e sem julgamentos. Instituições entrando em contato em busca de ações demonstra um interesse crescente.

Quais os problemas na saúde mental mais comuns hoje?
Poderia te dar uma resposta técnica de que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e um dos mais deprimidos. É o oitavo do mundo em suicídios em números absolutos. A campanha se justifica só aí. Agora, de maneira filosófica, posso dizer que falta sentido nas vidas das pessoas. Sentidos autônomos. A gente vive vários tipos de sequestros e ditaduras, como entretenimento barato e vulgar, a indústria dos remédios, ditadura do consumismo. Não é uma campanha focada na doença, a gente passa por ela e vai além.

E como vê a expansão da campanha criada em Uberlândia?
Ela criou vida própria e eu não tenho todas informações. Esses dias um psicóloga entrou em contato comigo, ela mora no interior de Portugal e quer fazer a campanha lá. Uma psicóloga da Holanda também quer. Em Luanda, na Angola, há um grupo que faz. Japão e Argentina aderiram, Colômbia também têm. A campanha tem perfil espontâneo e horizontal, plural e inclusivo. Ela é laica, não ligada a uma religião. Janeiro era um deus romano (Janus) e ele era considerado o deus das passagens, transições, de inícios e reinícios de ciclos. O calendário foi criado se permitindo momentos de respiro. É simbólico para terminar alguns ciclos e começar novos. Então pensamos nessa simbologia para convidar pessoas para pensarem. E significativamente a campanha começou na “terra fértil” (significado da palavra Uberlândia). Fazemos nascer uma proposta para ver a vida de outra maneira.

 
Psicólogo Leonardo Abrahão é o criador do movimento Janeiro Branco   | Foto: Arquivo pessoal







 

 
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