30/11/2019 às 08h28min - Atualizada em 30/11/2019 às 08h28min

Prédio mais antigo, igreja de Miraporanga é citada na literatura nacional

Prédio do município de Uberlândia ajudou a formar identidade local

NILSON BRAZ
Igreja de Miraporanga pode virar patrimônio nacional; pedido está parado desde a década de 1960 | Foto: Nilson Braz
Foi no distrito de Santa Maria, hoje conhecido como Miraporanga, que foi erguido no século XIX o prédio que hoje é considerado o mais antigo existente no Município de Uberlândia: a igreja de Nossa Senhora do Rosário, originalmente, uma capela. Construída entre os anos de 1850 e 1852, a construção é mais antiga que a própria emancipação do então Distrito de Uberabinha, hoje município de Uberlândia.

Ela foi a 15ª capela construída na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, que na época era conhecida como Sertão da Farinha Podre, mas, de todas essas, foi a única a continuar de pé até hoje. Para isso, foi necessário o empenho de muita gente para que a capela sobrevivesse todo esse tempo. Além de um importante papel para a formação de Uberlândia, a igreja de Nossa Senhora do Rosário também tem um valor histórico nacional, com passagem até na literatura.

O historiador Antônio Pereira da Silva conta que a igrejinha já esteve por um fio. “Em 1967 eu fui secretário de Ação Social de Uberlândia, uma secretaria que nem existe mais. Fui visitar a igrejinha e percebi que ela não tinha caído porque a professora Domingas Caminho não deixou. Ela fazia sorteio, quermesse, para juntar dinheiro e não deixar a igreja cair. Ela fazia o que podia. Até o serviço de algum profissional ela conseguia, para trabalhar de graça. Mas ainda assim, do lado direito não tinha parede, janela e nem porta; [a igreja] estava toda destelhada. Só tinha as colunas de sustentação. O assoalho estava todo arrancado e não tinha mais nenhuma imagem”, disse.

O aposentado Raimundo José de Souza, de 81 anos, é um dos moradores mais antigos do distrito de Miraporanga. Ele também conta como Domingas Caminho foi importante no cuidado com a igrejinha. “Ela fazia leilão para dar um jeito de juntar dinheiro para reformar a igreja. Ela comandava. Por conta dela mesmo mandou arrumar [a igreja]. Foi em 1966, que fez uma reforma lá. Meu sogro, que era um carpinteiro muito bom, foi quem ajudou ela a com a reforma”, disse o aposentado.

O historiador Antônio Pereira contou também que, na mesma época, ainda como secretário municipal, juntou documentos, jornais e livros que contavam a história e faziam menção à igreja e enviou para os órgãos estaduais e federais, na tentativa de conseguir o tombamento da construção e, com isso, viabilizar uma reforma. “Juntei papéis, trechos do livro ‘A Retirada da Laguna’, de Visconde de Taunay, que fala dos soldados que dormiram em volta da igrejinha de Santa Maria, e mandei para todos os institutos do estado e da união, mas não tive resposta”, comentou.

Antônio Pereira contou ainda que, por não ter estas respostas, tentou o tombamento por outros caminhos. “Chamei o Antônio Couto de Andrade, que era vereador na época e muito amigo meu, e resolvemos fazer o tombamento por Uberlândia mesmo. Não tinha nenhum ainda. Em 1968 ele entrou com um projeto de lei, pedindo o tombamento. O prefeito Renato de Freitas assinou e a igrejinha de Miraporanga foi o primeiro tombamento de Uberlândia”, disse.
 
NA HISTÓRIA DO BRASIL
Conforme citado pelo historiador Antônio Pereira, a igreja de Miraporanga aparece em trecho do livro “A Retirada da Laguna”. Trata-se de um relato, de 1865, em que a capela serviu como lugar de repouso para os integrantes da Coluna do Mato Grosso, composta de cerca de 3 mil homens, que seguiam rumo à Guerra do Paraguai.

Valéria Queiroz, historiadora e membro do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Cultural de Uberlândia (Comphac), conta que “existem relatos de que os soldados dormiram no adro da igreja, foi rezado uma missa e eles acamparam. E por conta disso, recebemos uma visita recente do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Eles têm um pedido, desde 1968 parado, mas que agora terá andamento, de tombamento da igreja de Miraporanga como patrimônio nacional, tendo em vista esta história dela com o país”, disse.

Além dessa ligação, os pesquisadores apontam que a igreja de Miraporanga é, também, de grande importância como referência da formação e da identidade da cidade de Uberlândia. “Ela guarda as características daquele momento histórico, das construções arquitetônicas, que moveram a organização social do Brasil Império. A igreja de Uberlândia, onde surgiu a cidade, que ficava onde hoje é a Biblioteca Pública, deveria ser daquele padrão”, comentou Valéria.

Hoje, a igreja leva o nome de Nossa Senhora do Rosário, mas o primeiro o nome que recebeu foi de Capela de Nossa Senhora das Neves, construída sob o oráculo de Nossa Senhora do Carmo e Santa Maria Maior. De acordo com Antônio Pereira, por existir uma dúvida na própria comunidade de quem seria a padroeira da igreja, foi feito uma votação do Conselho Comunitário de Miraporanga, em 30 de julho de 1986, definindo então o nome que carrega até hoje. 
 
REFORMAS
Apesar de todos os esforços dos moradores, só em 1986, ano em que recebeu o novo nome, é que a igreja passou pela primeira reforma. Na placa que marca a data da reforma, conta também os dizeres: “Reconstruindo, desvendamos raízes, redescobrimos o belo, o novo. Para que a história não se perca, preservamos esta obra, memória do nosso povo”. A frase é da então secretária de cultura, Iolanda de Lima Freitas.

Em 2001, outra obra de restauração foi necessária. Dessa vez, a então secretária de cultura, Lídia Maria Meirelles, deixou uma mensagem sobre a importância da construção. “Ao recuperarmos a Capela de Miraporanga, não estamos preservando apenas o perfil arquitetônico do templo, mas também todas as vivências, emoções e identidades que se afirmaram no entorno. Neste sentido, cabe a cada habitante deste distrito apropriar-se dele como um elemento constituinte de sua memória.”






 

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