10/11/2019 às 10h09min - Atualizada em 10/11/2019 às 10h09min

Drogas: Evitar é mais fácil que o caminho da superação

Há 9 anos, palestrante viaja o Brasil para compartilhar suas experiências de luta contra o vício

NILSON BRAZ
Flávio durante palestra para alunos da E.E. Presidente Tancredo Neves | Foto: Nilson Braz
Alunos da Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, no bairro Marta Helena, em Uberlândia, receberam, na última quarta-feira (6), a palestra de Flávio Roberto da Silva, idealizador e presidente da ONG Resgatado para Resgatar. Adolescentes com faixa de idade entre 13 e 15 anos ouviram as vivências e experiências do homem que há 9 anos conseguiu se livrar do vício de drogas.

São 5 anos de caminhada. Flávio Roberto começou seu projeto em 2014 e por causa dele já passou pelos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Goiás e agora chega a Minas Gerais. Os planos são de viajar todo o país com a missão de fazer com que os jovens não entrem no mundo das drogas. Nas próximas duas semanas o palestrante espera compartilhar sua história e de sua ONG em outras escolas de Uberlândia.

Flávio acredita que o apoio de outras pessoas é fundamental para que mais pessoas consigam abandonar a dependência de drogas e que o trabalho de prevenção é muito mais fácil e eficiente do que o trabalho de recuperação de um indivíduo que precisa se livrar de um vício. Por esse motivo, ele resolveu criar a ONG.

A ideia inicial era dar esse auxílio apenas para a comunidade local, mas com o passar do tempo, percebeu que seria possível expandir esse apoio para outros lugares. Sendo assim, ele decidiu viajar todo Brasil nesta missão.

Uberlândia é a primeira do estado de Minas Gerais que Flávio visita. Ele planeja, além de atender outras escolas aqui na cidade, visitar também Uberaba e Araguari, além de seguir por cidades do interior do estado até chegar em Belo Horizonte. Em entrevista ao Diário, o palestrante disse que se sente grato pela receptividade das pessoas por onde passa. Ele acredita que esse acolhimento e apoio da população é um atestado de que a luta contra as drogas é uma missão coletiva e que cresce a cada dia.

Flávio contou que a ONG sempre teve a missão de lutar contra as drogas, mas que no início de sua caminhada encontrou muitas dificuldades. Segundo ele, em sua cidade de origem, Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, tentou trabalhar com pessoas que, como ele no passado, estavam presas à dependência química. “A gente ajudou no tratamento e até no encaminhamento para a internação de algumas pessoas. Nos primeiros 4 anos da ONG foram 14 pessoas que receberam tratamento médico com nosso intermédio, mas infelizmente só 2 conseguiram se recuperar, os outros 12 tiveram recaídas. A recuperação de um dependente é algo muito difícil. Então eu percebi que mesmo que o apoio aos usuários de drogas seja importante e necessário, vi meu trabalho sendo mais efetivo quando o objetivo é desviar o jovem do caminho das drogas”, disse.

Em sua conversa com os adolescentes, Flávio aborda sobre as experiências tristes e perdas que teve nos momentos da sua vida em que estava preso no vício. Destaca sobre o quão chocante foi perder amigos para o vício, para o tráfico de drogas, com mortes violentas, passar por ameaças, dormir na rua. Ele lembra que durante o vício se viu completamente perdido, sem objetivos, sem motivações. “Uma pessoa sã trabalha, namora, se diverte, tem amigos, come, bebe água. Um dependente químico vive exclusivamente para a droga. Não consegue pensar nem nas necessidades mais básicas como se alimentar. Não consegue fazer mais nada”, relatou.

A palestra da última quarta reuniu aproximadamente 40 alunos das turmas de 8º e 9º ano da escola. Nilma Peres do Carmo, supervisora da escola, foi quem reuniu os alunos e recepcionou o palestrante. Ela disse que este tipo de experiência é muito importante para os alunos. Durante a palestra, a supervisora perguntou sobre como era a rotina dele quando ainda vivia no vício. Segundo avalia, expor certas realidades são importantes para que fique claro para os adolescentes que o uso de drogas se trata de algo muito difícil, perigoso e muitas vezes sem volta. Isso porque o palestrante trouxe exemplos de amigos que morreram em decorrência do uso drogas ou por causa delas, como no caso de crimes envolvendo o tráfico.

Flávio destacou sobre a receptividade dos adolescentes em suas palestras. “Nada mais impactante do que as experiências compartilhadas para chamar atenção destes jovens. No meu caso, como eu vivi esta situação, eu passei pelo momento, eu sei, eu senti na pele as perdas, as decepções, as tristezas, então a receptividade tem sido muito boa, porque eles têm ouvido a mensagem. Tenho certeza que alguns corações são atingidos, mesmo que não seja em todos. Se uma parcela deles assimilarem a mensagem, alguma coisa boa sempre fica. Porque a minha preocupação é a curiosidade do adolescente. Isso porque depois que está na droga é difícil sair. Então eu vejo isso, eu sinto que a receptividade tem sido boa.”
 
ESTUDANTES
A reportagem do Diário conversou com um grupo de quatro alunos para saber sobre o que acharam da palestra. Mesmo ainda tímidos, a resposta deles foi unânime. Giovana e Anna, de 13 anos e Guilherme e Afonso, de 14, acharam a palestra interessante e importante. Como um dos temas da palestra era sobre sonhos e desejos interrompidos pela droga, falaram sobre quais são os deles e de como tudo poderia mudar com um eventual vício. Eles disseram que serão advogados, jogadores de futebol, veterinários. Que querem ter filhos, querem ser exemplo para eles e para o restante dos familiares.

Para Giovana, ouvir sobre as consequências do uso de drogas é muito impactante. Ela que naturalmente tem seus sonhos, diz ter medo das drogas e do que elas podem proporcionar. Mas acredita que esse medo é importante para não ter nem curiosidade de experimentar. Guilherme contou que teve um primo que já se envolveu com drogas. Para ele, o envolvimento com entorpecentes é uma realidade muito complicada, por isso entende que os seus planos, de fazer o curso que tem vontade e de um dia ter uma família, poderiam ser frustrados por um vício. 

Afonso quer ser jogador de futebol. Ele disse que nunca teve a experiência de ter alguém próximo ou da família que já se envolveu no mundo das drogas, e que por isso achou tão importante ter ouvido o que Flávio tinha para contar. “Algumas pessoas que têm parentes ou que conhece pessoas que vive no mundo das drogas sabe como é difícil, e acho que nunca vão querer mexer com isso, mas quem não tem pode ter a curiosidade, pode querer experimentar. E vendo ele falar por tudo que ele passou, de perder a mulher, eu sinto que não deve usar”.
 
HISTÓRIA DE VIDA
Flávio aproveitou o momento de interação com os estudantes para contar um pouco sobre a sua vida e tudo que perdeu no mundo das drogas. Ele disse que o primeiro contato foi com o cigarro. Ele tinha 14 anos quando um amigo, ainda mais novo, lhe ofereceu pela primeira vez. “Achei que seria uma brincadeira de criança, mas foi a porta de entrada. Neguei a primeira tragada por muitos dias, mas com a insistência dele eu resolvi provar e me arrependo disso, porque todas as outras coisas que provei depois, foi com o mesmo pensamento”, contou. 

Depois do primeiro cigarro, um pouco mais velho, ele teve a curiosidade de provar outras coisas, como o álcool e outras drogas. Daí em diante vieram as ilícitas. “Por este motivo que a minha missão é conversar com jovens que ainda não tiveram contato com nenhum tipo de drogas. O mais efetivo e importante desse trabalho é conter o impulso que a curiosidade causa no jovem, mostrar que não vale a pena, porque o vício é traiçoeiro, perdi um bom emprego e o convívio com a minha família por causa disso”.

O palestrante conta que mesmo já tendo se envolvido com as drogas, chegou a se casar e teve uma filha. Passou em um concurso público na cidade onde morava. Teve todas as oportunidades para ter uma vida tranquila. A vida que muita gente toma como ideal. Mas tudo foi por água abaixo por causa das drogas. “Minha esposa se divorciou de mim e foi embora com a minha filha, porque eu não tinha condições de viver com elas, perdi o meu emprego. O mundo das drogas consome quem você é. Eu comecei com um cigarro, depois foi o álcool, a maconha, a cocaína, quando me dei conta, já estava viciado em crack, porque com o crack o vício é imediato, no primeiro trago”.
 
OPORTUNIDADES
Assim como as más influências o levaram para o caminho errado, foram outras influências que o tiraram de lá. Flávio se considera alguém que foi resgatado, que foi retirado de um lugar onde estava perdido. “Em 2010, em uma conversa com um tio muito querido, que é um homem muito religioso, me dei conta de que só conseguiria seguir em frente se tomasse a decisão de largar aquela vida”, contou. Ainda compartilhando duas histórias com os adolescentes, ele disse que o período da abstinência não foi fácil, mas com apoio de pessoas importantes e com força de vontade, foi possível vencer a tentação das recaídas.

Um ponto considerado fundamental para esse resgate foram as oportunidades. Ele disse que após algum tempo sem se envolver com drogas, conseguiu o que considera o mais importante para alguém na situação em que ele estava: confiança. Foi quando conseguiu um emprego em uma revendedora de carros e motos. Aprendeu a profissão, se esforçou e encontrou no trabalho a alternativa para não se sentir tentado a voltar ao mundo das drogas. “Depois de algum tempo, muito esforço e trabalho, eu me destaquei como vendedor, fui considerado o melhor vendedor da empresa e ganhei um carro como premiação”, disse orgulhoso. Foi por causa desta oportunidade que ele percebeu a importância de existir pessoas e organizações que mostrem um fio de esperança para quem está perdido neste universo do vício.

Com a força de vontade, tomou outra decisão: entrou numa faculdade de Direito.

“A decisão que eu tomei no meu coração é muito forte, muito concreta. Nossa vida é feita de decisão. Todo minuto a gente tem que tomar uma decisão. E eu sei o quanto foi difícil, o quanto ainda é difícil estar onde eu cheguei. Sei também que ainda será muito difícil prosseguir. E hoje eu sei que é todo esse avanço que me faz querer continuar”.











 

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