09/09/2019 às 15h02min - Atualizada em 09/09/2019 às 15h02min

Em Uberlândia, especialista aborda mudanças que as próximas gerações terão com a IA

Cláudia Costin ministrou palestra para profissionais da edução e estudantes na última semana

SÍLVIO AZEVEDO
Educadora Cláudia Costin esteve em Uberlândia na última semana em palestra para professores e alunos do Colégio Nacional | Foto: Divulgação
A educadora Cláudia Costin esteve em Uberlândia na última semana em palestra para professores e alunos do Colégio Nacional. Ela falou sobre as mudanças que devem acontecer nos próximos anos com a incorporação da inteligência artificial nos ambientes de trabalho e como o poder público deve trabalhar a educação das próximas gerações.

Cláudia Costin é professora universitária da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, do mestrado em educação de Harvard e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro. O Centro foi criado para fazer aconselhamento técnico a secretários municipais e estaduais de educação. Ou seja, é voltado para pensar a gestão da política educacional. Costin foi ainda diretora global de Educação do Banco Mundial entre julho de 2014 a junho de 2016.

O Diário de Uberlândia conversou com Cláudia Costin com exclusividade sobre educação, trabalho e temas que envolvem o futuro das próximas gerações.
 
Diário - Em que é baseado o seu trabalho sobre educação e trabalho?
Cláudia Costin - Uma das coisas que eu fiz nesses últimos 18 meses foi integrar a comissão global para o futuro do trabalho, que é organizada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), para pensar o que vai acontecer com os trabalhadores frente ao advento da Inteligência Artificial, que configura o que a gente chama de 4ª Revolução Industrial. Eu era a única, dos 26 membros dessa comissão global, da área de educação. Meu papel foi pesquisar como é que a gente prepara as novas gerações para essa realidade, em que o trabalho humano vai ser substituído por máquinas. Até então o trabalho humano, o manual, era substituído por máquinas, agora trabalho intelectual também será.
 
Como é que a gente prepara a nova geração para conviver com isso e como requalificar trabalhadores cujas atividades, em ondas sucessivas, vão sendo extintas?
Infelizmente o que os especialistas preveem não é muito bom. Vamos ter uma chance muito grande de ter gente sem trabalho e aumentar desigualdade social, porque novos postos de trabalho vão ser criados, mas não para as mesmas competências que são demandadas hoje. O que quer dizer que quem não tiver competências mais sofisticadas tenderá, ou a ganhar menos ou ficar desempregado.
 
Como levar essa situação ao conhecimento das próximas gerações?
Temos que ensinar crianças e jovens a serem empreendedores, porque o emprego vai diminuir, mas startups vão aumentar. Mas, primeiro, eles têm que ser protagonistas da própria vida. A questão da persistência e da garra vai ganhar muita importância. Também aprender a aprender porque se você vai ter que se reinventar em ondas sucessivas, vai ter que ter duas coisas: agências de aconselhamento de competências, para saber que competências vão ser demandadas, e o trabalhador sabendo se inventar continuamente, inclusive o trabalhador que tem nível superior.
 
Hoje, quais profissões vêm sofrendo essas transformações?
Desde que o mundo é mundo evidentemente que a tecnologia avança e ferramentas de trabalho substituem parte do trabalho humano. O que há de diferente agora é que substitui o trabalho intelectual e não só mecânico. Vou pegar a sua profissão de jornalista. Hoje já existem algoritmos que você insere os dados e ele constrói na narrativa. Isso quer dizer que vai desaparecer a profissão de jornalista? Não. Quer dizer que vai ter menos espaço para jornalistas iniciantes ou para aquelas narrativas mais simples. Mas a capacidade de fazer análise vai ser muito importante. Por isso, a escola vai ter que ensinar uma outra competência importante, inclusive as universidades, que é ter pensamento sistêmico, ter pensamento crítico e pensamento abstrato.
 
Como as pessoas podem começar a se preparar para essas mudanças?
Para além dos sistemas escolares e universitários, começar a criar um ecossistema educacional que inclui plataformas digitais, cursos a distância, cursos semipresenciais. O que vai ser mais importante para os indivíduos é aprender a ser um aprendiz ou educando independente, não depender de ninguém para aprender. Então você forma a criança e o adolescente para serem independentes e usa o sistema escolar, eventualmente usa a universidade para fazer um curso que te profissionalize em alguma coisa, mas você sabe que você vai ter que mudar constantemente, não só se atualizar na tua profissão, mas aprendendo coisas novas. Então o conselho é: seja independente, não dependa de ninguém. Dependa de redes de relacionamento, mas não de uma instituição que vai te dizer exatamente que precisa ser feito.
 
Que profissões estão sendo substituídas pela Inteligência Artificial?
Dificilmente serão profissões inteiras, como foi na onda anterior. Hoje a tendência é a seguinte: vai desaparecer a profissão de motorista. Não é já, mas vai desaparecer. Essa é mais trabalho mecânico do que propriamente intelectual. Talvez desapareça a de médico radiologista. Mas a grande certeza é que há muita incerteza sobre que profissões vão deixar de existir. Será que vão desaparecer os pilotos de avião? Então a única certeza que a gente tem é a prevenção. Do ponto de vista individual é aprender a aprender, e do ponto de vista das escolas e gestores de política educacional é pensar em tudo que nos diferencia dos robôs.
Outra coisa importante que vai nos surpreender, até porque vai na contramão de um discurso que se fez recentemente no MEC e o próprio presidente da República, filosofia nunca foi tão urgente porque ensinar a pensar vai ser um dos atributos mais importantes da escola, porque os robôs podem ter um pensamento derivado do nosso pensamento, mas eles não têm pensamento original.
 
Esse trabalho de conscientização já está sendo feito?
Nos países mais avançados já está mais avançado que a gente. Mas a Base Nacional Comum Curricular já leva em conta boa parte dessas competências. Ela não é perfeita como dá para imaginar porque é um produto humano e é um conhecimento que nós temos hoje, mas ela já contempla as competências socioemocionais, a questão dos pensamentos crítico e sistêmico, da cultura digital, de toda a questão de ensinar linguagem de máquina, de saber estruturar o pensamento que vai ser algo bastante importante.
 
Ao percorrer o país levando essa mensagem, você tem visto que as pessoas têm entendido bem? Já começaram a trabalhar o tema?
Sim. Eu tenho falado para um público de secretário de educação e professores. Não tenho falado tanto com os pais, que acho que tem que ser uma figura muito importante ao pensar no futuro que desejamos aos seus filhos. É muito importante que os pais estejam atentos, porque tudo que a gente aprendeu eles vão estranhar muito, pois hoje o processo de ensino está em transformação. Mesmo sem saber que é por conta da quarta Revolução Industrial, as boas escolas já estão atentas a esaa tendência e eles, às vezes, estranham. Eu conversei com o grupo de pais de alunos lá em Brasília e senti que era a primeira vez que alguém falava para eles essas questões, embora eram pais que tinham um certo repertório cultural.
 
A educação pública no Brasil tem grandes desafios. Como as prefeituras, estados e a Federação devem agir para oferecer educação de qualidade para crianças e jovens?
Na verdade, a gente passa por quatro questões importantes. Uma é ter currículos claros. Não se garante equidade se você não tem um currículo que diga quais são as aprendizagens mínimas que uma criança tem que ter pelo fato de morar num determinado estado ou país. No nosso caso nós fizemos uma opção dado o tamanho do Brasil de ter uma Base Nacional Comum Curricular, que é como se fosse um pré-currículo e ser traduzido em currículos estaduais e municipais e escolares.

O segundo é formar professores adequadamente para esse currículo. E formar professores quer dizer rever a atratividade da carreira que é muito baixa hoje no Brasil. Há pesquisas que mostram que acaba indo para a profissão de professor os 25% dos alunos do ensino médio com desempenho mais fraco e não necessariamente porque eles querem ser professores, mas porque é uma maneira de ter um diploma universitário. Tem que se mexer nos salários e no reconhecimento social da carreira de professor.

O terceiro eixo é a avaliação. Avaliar a educação oferecida e saber se o aluno está aprendendo ou não para poder ter mecanismos de fazer um aluno que está dando altos voos e levar para onde ele quiser sonhar, de acordo com seu projeto de vida. Ou vou pegar um aluno que está com dificuldade, que precisa de recuperação de aprendizagem e poder oferecer de forma sistêmica essa recuperação de aprendizagem.

O último, mas não menos importante, é de materiais curriculares adequados. O professor precisa ser apoiado em materiais, que são livros didáticos, cadernos pedagógicos, objetos digitais que vão apoiá-lo nesse processo. Então os municípios e estados vão ter que produzir algo mais do que o livro didático, alguma coisa que concretize tudo que está sendo falado, porque um professor, por mais qualificado que seja, se ele não tiver clareza do que o aluno aprendeu no ano anterior ou aprendeu com outros professores, e enxergar isso e ter o material que concretize a sua aula, ele tem muita chance de não conseguir fazer um trabalho significativo, mesmo que ele tenha recebido uma boa formação. Com essas quatro coisas a gente consegue mudar a educação.

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