03/09/2019 às 09h35min - Atualizada em 03/09/2019 às 09h35min

Assim como a Amazônia, bioma presente no Triângulo Mineiro sofre com ações danosas do homem

Cerrado cobre cerca de 22% do território nacional e é o segundo ecossistema mais sofre alterações com a ocupação humana

GIOVANNA TEDESCHI
Cerrado é o segundo bioma que mais sofreu modificação pelo homem, atrás da Mata Atlântica | Foto: Gustavo Malacco/Divulgação
Nas últimas semanas, os incêndios registrados na Amazônia ganharam destaques em todo o mundo e levantaram debates sobre a necessidade de aumentar esforços para a preservação da floresta e a diminuição dos danos causados pela ação humana. A principal preocupação está relacionada aos agravos que a destruição do bioma, que influencia, por exemplo, no ciclo de chuvas de diversas partes do globo, pode gerar em um futuro próximo.

Mas a Amazônia não é o único bioma que está em perigo no país. O Cerrado, que cobre o Triângulo Mineiro e cerca de 22% do território nacional, é o segundo ecossistema que mais sofreu alterações com a ocupação humana, vindo atrás apenas da Mata Atlântica. Pelo menos 137 espécies nativas de animais estão em risco de extinção. Os principais motivos da deterioração desse sistema natural são a expansão agrícola e o uso da madeira para produção de carvão.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2.036.448 km², quase todo no Brasil. O bioma aparece nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal.

O Cerrado é conhecido pela biodiversidade, com 11.627 espécies de plantas nativas catalogadas, além de 199 espécies de mamíferos, 1,2 mil peixes, 180 tipos de répteis e 150 de anfíbios. É também onde estão as três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata, com lençóis freáticos próximos da superfície.

Mas apesar da importância, tanto biológica, quanto para as populações que fazem uso sustentável dos recursos do bioma, o Cerrado está em perigo, sendo também bastante atacado pelos incêndios de causas humanas. O professor Kleber Del Claro, biólogo, doutor em Ecologia e Diretor de Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), destaca que o Cerrado é caracterizado por épocas secas, mas também estações com chuvas abundantes. A vegetação tem raízes muito profundas e casca bastante grossa para resistir à ação do fogo, que é natural em pequenas áreas a cada seis ou oito anos. Por isso, as árvores crescem mais tortuosas e menos altas, para não morrerem facilmente com queimadas.

“Esse fogo, quando passava de forma rápida e em uma área pequena, era até considerado positivo porque matava espécies invasoras e permitia que outras plantas germinassem. Mas com a ação humana, o Cerrado foi desmatado muito rapidamente e o fogo passou a ser uma prática agrícola. Esse fogo de todo ano, em larga escala, é muito destrutivo e não há planta que aguente”, explica o professor.

Biólogo, mestre em Engenharia Ambiental e ambientalista, Gustavo Malacco explica que os incêndios na região podem gerar consequências, inclusive para a saúde pública, por causa da fumaça, o que gera custos para o Sistema Único de Saúde (SUS). Ele também cita a questão da polinização. “Várias culturas, como, por exemplo, o café, dependem de polinizadores para a produção. E é comprovado na ciência que quando você tem fragmentos de vegetação próximos a áreas de cultura agrícola, há um aumento de produção”, afirma.

O professor Del Claro tem a mesma opinião. Sem polinizadores, como abelhas, morcegos, moscas e borboletas, a produção agrícola se torna mais cara e mais difícil. “Esses insetos estão lá trabalhando de graça para a gente. Em países como Estados Unidos, China, Japão, eles precisam pagar para alguém polinizar para eles. Imagina quanto vai custar um tomate?”, questiona.

Malacco ainda menciona formas de aumentar a preservação do Cerrado, como a criação de aceiros: áreas de raspagem de terra entre a vegetação para isolar o fogo. “Prevenção se faz dessa forma: primeiro com aceiros, segundo com parcerias público-privadas, quando os produtores rurais e o poder público organizam brigadas voluntárias na região para que eles possam combater o desmatamento, e terceiro, com sistema de comando e controle”, cita. Esse sistema consegue, com a ajuda de satélites, identificar focos de incêndio e automaticamente passar os dados para as autoridades. Para o biólogo, isso diminuiria muito os incêndios na região.
 
PERCEPÇÃO
Segundo ciclistas, encontrar tamanduá-bandeira em trilhas tem sido mais difícil | Foto: Wender dos Santos/Arquivo Pessoal


Wender dos Santos, de 44 anos, anda de bicicleta pelas matas de Minas Gerais desde 1998. Vindo de Belo Horizonte, se mudou para Uberlândia em 2010 e em 2013 criou o Movimento Pedala Brasil, que tem como objetivo difundir o esporte na cidade. Ele tem percebido o desmatamento na região com frequência. “Cada vez você vê menos animais. Ali nas trilhas do Telefone e da Serrinha, do lado do [bairro] Aclimação, a gente via muito tamanduá-bandeira, porco-espinho, capivara”, relata. Ele diz também que as queimadas chegam a ser perigosas para os ciclistas, que muitas vezes precisam mudar as rotas.

O caiaqueiro Cassius Emmanuel, de 45 anos, trabalha em uma represa de uma área preservada na zona rural de Uberlândia há seis anos. “Ali, a gente ainda tem uma preservação de espécies de animais e árvores por conta da lei. Mas a criação da represa já destruiu um pouco da vida aquática. Não fizeram escadarias para o peixe continuar a reprodução, então já perdemos boa parte das espécies da nossa região”, conta.
 
LIVRO
O professor Del Claro lançou, na última semana, um livro em que revela novas espécies de insetos aquáticos, encontrados no Clube Caça e Pesca, Rio Uberabinha, em Uberlândia. A obra foi feita em parceria com colegas de países como Argentina, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Japão, México, República Tcheca e Ucrânia.

“Se a gente conhecer o que esses animais fazem, a gente pode preservar melhor, principalmente as veredas [formações vegetais do Cerrado]”, afirma.

“Com esse livro nós descobrimos que na vereda do Caça e Pesca existem mais de 39 espécies só de libélulas. Na Espanha, existem oito ou nove no país inteiro”. Para o professor, o futuro do Cerrado depende de atitudes políticas da população.
 
INCÊNDIOS
Incêndio atingiu área do Parque do Pau Furado, entre Uberlândia e Araguari, em 2018 | Foto: Arquivo/Diário de Uberlândia
 
Apesar do perigo dos incêndios no Cerrado, a vegetação ainda tem certa resistência e demora cerca de 10 a 15 anos para se recuperar. Na Amazônia, o mesmo dano faz com que as plantas demorem 50 anos para reproduzirem o que havia ali antes. Ainda assim, o prejuízo que os biomas sofrem é praticamente igual por causa da extinção de espécies.

O desmatamento na Amazônia reflete diretamente não só no Brasil, mas em países como Argentina e Uruguai. Segundo o professor Kleber Del Claro, biólogo, doutor em Ecologia e Diretor de Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a floresta faz a fotossíntese e produz água e oxigênio. Essa água gera nuvens, que fazem com que chova principalmente na região Sudeste do Brasil. “Se tirar a floresta de lá, não vem mais essa nuvem de chuva. E aí nós vamos entrar em processo de desertificação na região”, afirma.

Para o ambientalista Gustavo Malacco, o desmatamento, tanto na Amazônia quanto no Cerrado, pode gerar grandes consequências. “O que estamos assistindo na questão da Amazônia é que incide diretamente até em uma preocupação global. Você pode até fechar o mercado por causa do que está acontecendo lá fora. Incêndios de forma antrópica trazem prejuízos para a economia, para a saúde e para a biodiversidade”, opina.
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