30/08/2019 às 18h23min - Atualizada em 30/08/2019 às 18h23min

Uberlândia ainda preserva boas iniciativas no setor cultural

Produtor cultural comenta sobre o poder transformador da arte e o desenvolvimento da cidade no segmento

ADREANA OLIVEIRA
Carlos Guimarães Coelho é jornalista e produtor cultural | Foto: Beto Oliveira/Divulgação

Enquanto redigia as reportagens desta edição em casa, estive acompanhada pelo meu filho, Nicholas, 4 anos, praticamente todo o tempo. Ele alternava atividades ao celular com desenhos, pinturas, quebra-cabeças e claro, a TV. Chamou-me a atenção uma colocação no final de um dos episódios de “Masha e o urso”, “The very fairy tale”: “Então, esse é o poder transformador da arte?!”, dizia a protagonista.

Essa animação russa, sucesso mundial, é voltada para a primeira infância e já aborda algo que deve ser inserido no nosso dia a dia, porque somos seres culturais. As culturas, as artes, são, felizmente, muitas. Nos últimos anos, temos lançamentos de pelo menos um livro de escritor local a cada dois meses, espetáculos de dança e teatro, amadores e profissionais, muitas exposições de arte e fotografia, música para todos os gostos, festivais underground de música e festivais com monstros sagrados do rock mundial.

Para que tudo isso circule e chegue a mais pessoas, é preciso compreensão, apoio, incentivo, inclusive financeiro, e difusão. E o trabalho tem mesmo que começar cedo, não só na seleção do que seus filhos vão ver na TV, mas a respeito do que vão compartilhar ao longo da vida com outras pessoas. É dever de todos pensar e agir para que os equipamentos culturais cheguem a todo canto.

O produtor cultural Carlos Guimarães Coelho, responsável pelos maiores espetáculos teatrais do circuito nacional que chegam a Uberlândia, trabalha com contrapartidas sociais. Segundo ele, não há nada mais gratificante para a produção local do que ter a chance de viabilizar o acesso de pessoas ao teatro. Vários dos espetáculos que trouxe por meio do Uberlândia na Rota do Teatro nos últimos três anos levaram ao teatro jovens e adolescentes de escolas públicas, integrantes de associações como o Instituto Algar, o Instituto Politriz, a Estação Vida e o EmCantar, além de alunos ingressantes do curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

“É recompensador ver a alegria dessas pessoas quando saem da apresentação. E a ansiedade pela próxima oportunidade. Pena que não conseguimos fazer com que aconteça sempre. Quando ocorre, geralmente, é porque a peça vem chancelada pela Lei de Incentivo à Cultura, antiga Lei Rouanet, e essa é uma das contrapartidas sociais oferecidas.”

Ele cita ainda os espetáculos levados para a praça pública, como “Duas Mãos”, com Ingrid Guimarães e Carol Machado, o show da cantora já falecida Selma Reis, tendo como parceira de palco Ana Botafogo e sua dança, a companhia de Carlinhos de Jesus, a comédia da atriz Cida Mendes com sua personagem Concessa, o teatro-circo do Grupo Trampulim, do Grupo Galpão, entre outras apresentações ao ar livre.

“E ao ar livre também fizemos parte da programação de projetos como o ‘Udi em Cena’, um circuito de artes cênicas, em três edições, e o festival de música ‘Jazz de Verão’, em duas edições. Tudo isso chancelado por leis de incentivo.”

É assim que funciona para eventos desse porte acontecerem, alguém tem de bancar as despesas de logística e cachês. No caso, a iniciativa privada compareceu, isentando o seu investimento dos impostos. Paralelamente às apresentações, em muitos casos, houve oficinas, palestras e outras atividades de formação e/ou capacitação artística.

Para Guimarães, o desenvolvimento cultural em Uberlândia é incipiente, não acompanha (ainda) o acelerado progresso da cidade, que precisa de mais iniciativas para formação de público, principalmente para o teatro.

“Creio que estamos plantando uma semente que será colhida a médio e longo prazo. Por termos começado, acabamos abrindo portas para outras iniciativas. Em nossa batalha, há um constante educar de artistas, público e empresas parceiras. Ainda há muito por percorrer nesse sentido. Despertar a sensibilidade artística nas pessoas é uma tarefa longa, que demanda tempo. Mas bom é saber que o futuro agradece a iniciativa, que nosso trabalho contribua para transformar Uberlândia em uma cidade onde exista maior fruição das artes.”

Para ele o interessante é constatar que as pessoas beneficiadas pelas chamadas cotas sociais dos projetos artísticos são as que mais valorizam os eventos, pois se sentem contempladas pela arte como uma espécie de presente. E dão a ele a importância que merece. “E isso reverbera, formando uma corrente saudável de produção artística. Ainda faltam políticas públicas que favoreçam melhor isso, mas penso que estamos no caminho e, um dia, a arte acontece na cidade em toda a sua potência.


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