28/08/2019 às 13h37min - Atualizada em 28/08/2019 às 13h37min

Araguari completa 131 anos nesta quarta-feira (28)

Município vizinho a Uberlândia também foi emancipado no mesmo ano e cresceu com a chegada da ferrovia

ARIANE BOCAMINO
Com uma população atual de 130 mil habitantes, Araguari é o 23º maior município de Minas Gerais | Foto: Diego Storti/Divulgação
Uma das vizinhas mais charmosas de Uberlândia está completando 131 anos de emancipação política nesta quarta-feira (28). Araguari, que se tornou uma referência no quesito logística, ainda preserva os traços de cidade do interior, tendo suas origens nos desbravadores e seu desenvolvimento relacionado à chegada da estrada de ferro.

Um dos primeiros desbravadores das terras araguarinas foi o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, que deixou a cidade de Sabará no século XVIII para desbravar o atual Triângulo Mineiro.

Já no século XIX, o comissário de sesmarias na região, Antônio Rezende da Costa, mais conhecido como “Major do Córrego Fundo”, doou as sesmarias do local para a igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde do Brejo Alegre. Em abril de 1840, a paróquia foi criada em torno da capela e os moradores, em especial fazendeiros da região, fundaram um povoado que deram o nome de Arraial da Ventania.

No ano de 1882 o povoado passa a ser Vila de Brejo Alegre - o nome era uma homenagem ao padroeiro da igreja, uma das responsáveis por reunir pessoas em seu entorno, e assim, auxiliar no desenvolvimento do até então povoado.

Porém, a cidade só nasceu de fato em 28 de agosto de 1888, quando a Assembléia Provincial de Minas Gerais promulgou a emancipação da vila.

Um dos marcos para o desenvolvimento do pequeno município foi a chegada da Estrada de Ferro Mogiana em 1896, que segundo o historiador Antônio Pereira, movimentou o interior do país de uma forma inédita até então.

“Quando a Mogiana chegou só tinha carro de boi e tropa de mulas. Um carro de boi, por exemplo, levava de 5 a 6 dias de Uberaba a Uberlândia e em geral eram levados 1.550 k de produtos no carro de boi. Já a Mogiana fazia em poucas horas comparada aos carros de boi. As correspondências também demoravam muito, de São Paulo para o Triângulo Mineiro demoravam uns 15 dias, com a linha de ferro mudou completamente. Além disso, a Mogiana levava o telégrafo, um dos meios de comunicação mais eficazes da época.”

Ainda segundo Pereira, as cidades às margens da ferrovia passaram a ser um centro de distribuição. Matérias primas como arroz, feijão, tecido, vinham para estas cidades que despachavam para outras, com isso, o comércio se desenvolveu cada vez mais.

Aos poucos, Araguari se tornou uma referência, em especial no quesito logística. Com uma população atual de 130 mil habitantes, é o 23º maior município de Minas Gerais.

Dentro deste contexto, se destacam no crescimento da cidade a chegada de grandes empresas, especialmente ligadas ao agronegócio, e do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac) em 2001. Hoje são oferecidos 15 cursos: Administração, Ciências Contábeis, Direito, Educação Física, Enfermagem, Engenharia de Produção, Engenharia Civil, Farmácia, Medicina, Medicina Veterinária, Nutrição, Pedagogia, Psicologia, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e Tecnologia em Gestão de Recursos.
 
NOVO MOMENTO
Araguari vive uma nova fase de crescimento industrial. Lançado em maio deste ano, o Projeto de Geração de Emprego e Renda (Proger) visa fomentar a geração de emprego e renda por meio da instalação de novas indústrias, em especial em novas áreas disponibilizadas no Distrito Industrial, que foi municipalizado e conta com uma área total de 868.080 m². Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico do município, Juberson Melo, a expectativa para 2019 e 2020 é a criação de aproximados 2 mil novos empregos, e até dezembro de 2020 o número sobe para 10 mil.

Entre os novos investidores estão a empresa austríaca Lenzing e a brasileira Duratex que atuam no ramo de celulose e vão gerar aproximadamente 10 mil empregos nos municípios de Araguari e Indianópolis. A Longping High Tech, empresa chinesa líder no segmento de híbridos de milho no país, também iniciará suas atividades em Araguari ainda este ano.

Juntamente com o projeto de expansão, o município tem incentivado ações de treinamento e capacitação de mão de obra. “Araguari está se transformando, em breve teremos acesso a uma nova cidade, maior, com mais indústrias e mais empregos. O auxílio da Fiemg Regional tem sido fundamental para o crescimento do município não somente no âmbito industrial, bem como no comércio, logística, entre outros", destacou Mauro Cunha, presidente do Sindicato da Indústria de Alimentação de Araguari e diretor da Fiemg Regional Vale do Paranaíba, que acompanhou as transações para o avanço do Proger.
 
Araguari e sua gente
Papo do lado de fora de casa. Pedir benção aos pais. Crianças na praça. Café coado na hora. Vizinhança reunida. O interior conserva raras belezas que só quem opta por este recolhimento tem o prazer de saborear.

O povo araguarino conserva, na medida do possível, a proximidade entre sua gente. As famílias se conhecem e, com isso, fica mais fácil ajudar ao próximo. Conheça alguns personagens que ultrapassam as fronteiras da cidade e levam o nome de Araguari para Minas e todo o país.
 
Douglas Alessi
“AQUI É MINHA CASA”
 
Tudo começou em um período de férias em Araguari. Meados dos anos 2000, Douglas Alessi que é nascido na cidade de Sete Lagoas, Mato Grosso do Sul, tinha apenas 4 anos e em uma brincadeira, seu tio pegou uma câmera para registrar momentos da família e o pequeno cantor soltou sua voz.

Notou-se a afinação do garoto, mas ninguém imaginava que ele iria tão longe musicalmente. Ainda no estado natal, aos 7 anos de idade ele fez sua primeira apresentação em público, na escola; aos 17 começou a se apresentar na noite e daí em diante não parou mais. Em 2018, o cantor que vive em Araguari desde 2010 participou do programa “The Voice”, da Rede Globo.

Na chamada ‘audição as cegas’ os quatro jurados do programa (Carlinhos Brown, Lulu Santos, Ivete Sangalo e Michel Teló) viraram as cadeiras para a interpretação da canção “Versace on the floor” de Bruno Mars. Alessi caminhou bem pelas etapas do programa e conquistou o carinho de fãs e profissionais do universo musical, contudo, foi eliminado uma rodada antes da semifinal, porém, depois do “The Voice” a visibilidade do cantor disparou. Hoje, ele é considerado uma das personalidades mais queridas e talentosas de Araguari.

“Sempre tive uma relação de proximidade com Araguari, minha família inteira é daqui, poucos não moram aqui. Desde pequeno eu estive aqui, eu vinha pelo menos duas vezes por ano para a cidade. Depois do ‘The Voice’ a cidade me abraçou ainda mais, com muito carinho, com isso, quem não me conhecia passou a me conhecer e o fato de estar aqui gerou uma comoção muito bacana e que me deixou muito feliz. É uma cidade pacata, ótima de morar, não tem trânsito, é muito tranquila! Pra mim é uma cidade muito estratégica também. Pretendo envelhecer aqui, eu amo a cidade de paixão. Aqui é a minha casa!”
 
Edgar Saifert
“FAZER O BEM É O MEU COMBUSTÍVEL”
 
Descendente de alemão, o carpinteiro aposentado Edgar Saifert é uma figura popular na cidade. Depois de se aposentar, Edgar começou a buscar uma nova forma de preencher o tempo, e sem a pretensão de tornar-se um guardião das praças da cidade, começou aos poucos a zelar por alguns dos espaços públicos do município, e o mais interessante, sem cobrar nada por isso.

“Sempre via falar que o trabalho voluntário era gratificante. Um dia peguei uma vassoura e comecei a varrer a porta da minha casa. Com o tempo, a minha porta foi ficando pequena e eu fui passando para as portas dos vizinhos. Comecei a tomar gosto pela coisa”, conta.

Casado com Gleide Saifert há 47 anos, Edgar é pai de 4 filhos e avô de 4 netos. Em Araguari ele é conhecido por sua generosidade e apreço pelas praças.

Duas vezes por dia, ele pega sua bicicleta, organiza o ‘instrumental’ incluindo vassouras, rastelos e pás, e pedala poucos metros de sua casa até a praça Nossa Senhora do Rosário. De olhos azuis e com o sobrenome que revela na pronúncia a origem germânica, o aposentado afirma ser apaixonado por Minas e por Araguari. “A cidade é muito hospitaleira. Aqui na praça mesmo todo mundo me conhece e conhece minha família, conversa comigo aqui na praça. No interior, a gente se sente mais notado e respeitado pelo outro.”
 
Letícia Leite
“TEM BERABA, TEM BERLÂNDIA E TEM A BELEZURA, THE BEST, BENÇOADA, BATUTA ARAGUARI!”
 
Os dizeres acima são da araguarina Letícia Leite, dona de um dom muito apurado quando o assunto é a dança das palavras. Mestre em Estudos Linguísticos pelo Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia, Letícia oferece novos sentidos às palavras tradicionais, unindo-as de uma forma singela e cheia de compasso. Alguns minutos de prosa com a professora sinalizam uma dança de palavras que ela cria com autenticidade e muito respeito pela língua portuguesa.

E as palavras, carentes de serem bem empregadas nos dias de hoje, parecem sentir-se à vontade e privilegiadas ao serem conduzidas por ela.

“Excelentura de sugestão!” comentou a araguarina em relação à reportagem sobre o aniversário da cidade. “Muitobrigadmais. Reitero a minha honra em participar dessa contação de história tão especialézima! Fique à vontade pra quaisquer precisanças”, completou.

Letícia Leite também dedica seu talento para a educação inclusiva. Pioneira na língua de sinais em Araguari e Uberlândia, ela é especialista em Educação Especial e Atendimento Educacional Especializado pela UFU, possui a Certificação de Proficiência no Ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Certificação de Proficiência na Tradução e Interpretação da Libras/Língua Portuguesa.

Também graduada em Pedagogia, Letícia ainda auxilia na construção de uma história mais inclusiva no ambiente acadêmico e, por consequência, fora dele.

 Em 2017, por exemplo, graduou-se na UFU a primeira pessoa surda, Joiciene Batista; e lá estava a araguarina, que foi intérprete de Joiciene não somente durante todo o curso de Letras bem como no ensino fundamental. 

E o pioneirismo não para por aí. Antes do termo ‘empoderamento feminino’ fazer parte das nossas rotinas e redes sociais, Letícia Leite levava o nome de Araguari por todo o Brasil com seu berrante. Ela é considerada a primeira mulher a vencer os concursos de toques de berrante, com apresentações nos rodeios mais significativos do Brasil: Americana (SP), Araguari (MG), Barretos (SP), Colorado (PR), Chapecó (SC), Rio Verde (GO), Rondonópolis (MS) e Vacaria (RS).

Para encerrar, a berranteira descreve de forma poética algumas das sílabas que definem sua felicidade: “AR+ÁGUA+RI= tríade que me faz viver feliz!”

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