26/08/2019 às 08h30min - Atualizada em 26/08/2019 às 08h30min

Idosos voltam ao mercado de trabalho mesmo com aposentadoria em Uberlândia

Reinserção no mercado de trabalho cresce 43% nos últimos 4 anos, mas crise tem jogado parcela de idosos na informalidade

SÍLVIO AZEVEDO
Antonino e Antônio foram contratados por rede supermercadista por meio de programa voltado à terceira idade | Foto: Sílvio Azevedo

Dados publicados pela Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia, através da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), mostram que o número de pessoas com 65 anos ou mais em vagas com carteira assinada aumentou 43% em quatro anos, saindo de 484 mil, em 2013, para 649,4 mil, em 2017.

Atualmente, o Brasil possui cerca de 7,5 milhões de idosos trabalhadores. Os números fazem parte dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). A pesquisa ainda revelou crescimento do percentual de participação dos idosos no mercado de trabalho, passando de 5,9%, em 2012, para 7,2%, em 2018.

Entre os fatores encontrados para esse aumento está o envelhecimento da população idosa, que segundo as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve ser de 9,52%, neste ano, e 25,5%, em 2060. Outra razão é a busca por uma renda extra, além da aposentadoria, principalmente em um cenário de crise econômica como a que o país tem passado.

Apesar da resistência em algumas empresas, a terceira idade têm encontrado mercado em certos setores. De acordo com franqueada da empresa de recursos humanos RHF em Uberlândia, Aline Borges Ribeiro Ferreira, cabe ao RH identificar os pontos positivos de contar com um colaborador da terceira idade.

“Por parte de algumas empresas, a gente nota uma certa resistência quando se oferece candidatos com mais idade. A gente já tem quebrado esse paradigma quando a gente vai contratar, já falando da capacidade e dos diferenciais que um idoso pode proporcionar para sua empresa”, disse.

Aline vê com bons olhos a recolocação de idosos no mercado de trabalho, se tratando de profissionais que, historicamente, mantinham-se em um mesmo emprego por muitos anos, diferentemente dos mais jovens, cuja rotatividade é maior.

“Eu enxergo como promissor [o empregado idoso] pela disponibilidade de tempo, experiência, know-how e credibilidade. A maioria dos idosos, antigamente, ficava 20, 30 anos numa empresa, diferentemente dos jovens, que se surgir a oportunidade, troca de emprego.”

Uma das empresas de Uberlândia que tem dado oportunidade para idosos voltarem ao mercado de trabalho é o supermercado D’Ville, com seu projeto “Melhor Idade”. Para Juliana Escarpinati, gerente de recursos humanos do supermercado, o projeto busca dar uma nova oportunidade para os idosos, aposentados ou não, que têm um tratamento especial com os clientes que passam pelo estabelecimento.

“São pessoas que têm uma percepção do que é o mercado de trabalho, maturidade e uma energia muito grande. Não querem parar, sentem a necessidade de estar na ativa. O nosso objetivo é trazer essas pessoas para esse cenário, onde se tornam mais produtivas, se sentem reconhecidas, com uma identidade profissional, além de serem muito carismáticas com os clientes”, disse.
Além do bom trato com os clientes, ainda segundo Escarpinati, contratar a turma da terceira idade traz outros benefícios para o estabelecimento, como mais comprometimento e baixo índice de “turnover”, ou seja, quem entra, veste a camisa e não troca de trabalho.

“Eles têm comprometimento maior, senso de valor muito grande pelo emprego, com isso, o retorno que ele traz para a empresa é de um colaborador que realmente está conosco. É tão importante quanto estar bem em casa, conseguir suas contas em dia e, com isso, a gente tem como retorno uma diminuição nos quadros de absenteísmo e de turnover, que são indicadores que normalmente agrava muito a condição da empresa”, explicou.

Quem faz parte desse projeto é Antônio Eustáquio da Silva, de 70 anos, que, mesmo aposentado, faz questão de ir trabalhar todos os dias e diz gostar do que faz. “Trabalhar significa muito para mim, pois a gente vê o desemprego e a gente [está] trabalhando de boa, ganhando um dinheirinho para inteirar a aposentadoria, que é muito pouca”, disse.

Além da questão financeira, Seu Antônio tem um ganho com a saúde mental. “Eu não gosto de ficar parado. Trabalhar é importante até por causa da saúde. Se ficar parado, fico triste, me dá depressão. Então isso aqui para mim é muito bom. Eu trabalho alegre, feliz, pois conhecemos pessoas que dão valor e nos incentivam.”

O aposentado ainda pede mais consciência dos empresários para abrir as portas para os trabalhadores de terceira idade. “Eu acho que os empresários tinham que abrir mais oportunidades para os idosos. Ficar parado é ruim demais. Teria mais gente trabalhando com experiência e dignidade. Acho que é importante se as empresas olhassem para esse lado”, disse.

Quem também não pensa em parar é o barbeiro Paulo Roberto Rosa, que aos 72 anos, mesmo aposentado, tem disposição para atender sua clientela por mais alguns anos. “Eu comecei na profissão aos 15 anos. Só parei quando fui servir o Exército. E ser barbeiro me deu tudo que tenho hoje. Tenho fregueses de anos, mais velhos que eu, que faço atendimento a domicílio”, disse.

E o barbeiro soube aproveitar os 57 anos trabalhando. Até pode parar de trabalhar, mas prefere continuar com seu ponto aberto para receber clientes e amigos. “Graças a Deus, ser barbeiro é uma profissão sagrada. Consegui criar minha família, fazer um patriomoniozinho que, se eu parar hoje, não passo dificuldade. Eu trabalho pelo gosto da profissão. Se eu parar vou fazer o que em casa? Não tem sentido.”
 
SEM EMPREGO
Informalidade também cresce entre idosos



Maria Conceição Silva trabalha como ambulante para complementar renda | Foto: Sílvio Azevedo

Diante do aumento da oferta de trabalhadores, e da consequente diminuição das vagas, a informalidade também cresce entre os trabalhadores da terceira idade. Se em 2016, as vagas com carteira assinada desse grupo representavam 27,6%, esse índice diminuiu para 26,6% no primeiro trimestre de 2018.

Aos 67 anos, a pensionista Maria Conceição Silva é a responsável pela renda da casa onde mora com a filha e uma prima. Para dar conta dos gastos, acabou indo para as ruas trabalhar como ambulante.

“Eu era cuidadora de idosos e como não estava aparecendo trabalho, optei por trabalhar com vendas. Tem me ajudado bastante. Mas se tivesse a oportunidade, deixaria o trabalho de ambulante. Acho que as empresas deveriam abrir mais as portas para a terceira idade”, disse.

Irene Rodrigues, 66, é aposentada e recebe um salário mínimo. Para ganhar uma renda extra, trabalha vendendo picolés e cartelas de sorteios de título de capitalização na Praça Tubal Vilela.

“Para assinar carteira é mais difícil e a gente se vira como autônoma. Acho que as empresas deveriam dar mais oportunidade para a terceira idade. Trabalhei na indústria por 23 anos e depois que aposentei não consegui outra colocação profissional”, disse. Além da informalidade, muitos idosos acabam indo para trabalhos com condição pouco favoráveis à idade, como por exemplo motoristas de aplicativos, serviços de limpeza de firmas terceirizadas, construção civil entre outros trabalhos braçais.
 
PREVIDÊNCIA
Quem volta a trabalhar, volta a contribuir

 
O advogado trabalhista e previdenciário Renato Rodrigues lembra que mesmo aposentado, o idoso que volta ao mercado de trabalho obrigatoriamente deve contribuir com o INSS. Ele não tem direito de revisão no valor da aposentadoria, ou a se “reaposentar”, mas a contribuição é obrigatória.

“Se o idoso for pensar que vai voltar a trabalhar e reaposentar, não vai. Inclusive é obrigado a contribuir, mesmo aposentado. Como o INSS é contributivo, onde todos que fazem parte do sistema têm que contribuir, mesmo já estando aposentado e sem nenhuma chance de se aposentar novamente, ele é obrigado a pagar o INSS, seja descontado em folha ou prestação de serviço como autônomo”, disse.

Mas nem sempre foi assim. Há alguns anos era possível realizar essa reaposentadoria, com melhora no valor a receber, mas a justiça já determinou que não é mais possível. “Antes a pessoa aposentava por tempo de contribuição e continuava trabalhando. Depois, ia ao INSS e pedia a reaposentadoria, já que voltou a contribuir. Mas o Supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu que não será aceito mais.”

Segundo ele, alguns juízes de primeira instância têm dado pareceres favoráveis à reaposentadoria, mas o INSS pode recorrer ao Tribunal Regional Federal, depois ao Superior Tribunal de Justiça e vai ser dado ganho de causa ao instituto de previdência, graças à decisão do Supremo.


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