11/08/2019 às 09h05min - Atualizada em 11/08/2019 às 09h05min

Pais e especialistas falam sobre educar os filhos na era digital

Saber dosar o acesso a equipamentos eletrônicos pode ajudar no desenvolvimento psicossocial de crianças e adolescentes

SÍLVIO AZEVEDO
Criar os filhos tem sido um desafio para os pais atuais. Com diversas maneiras de acesso aos aparelhos tecnológicos, tem se perdido a sensibilidade do contato e o controle sobre o uso de smartphones, tablets e computadores.

Grandes mentes da tecnologia restringiram o uso de aparelhos tecnológico dos filhos. É o caso do bilionário e ex-CEO da Microsoft, Bill Gates, que só permitiu celular para os filhos na adolescência, e Steve Jobs, ex-CEO da Apple, que proibiu que seus filhos pequenos se aproximassem de iPads.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o tempo máximo de exposição às telas para crianças maiores de seis anos e adolescentes é de até duas horas. Esse período de uso deve ser limitado e proporcional à idade e etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicossocial.

As consequências para quem faz o uso excessivo de tecnologia são muitas, entre o aumento da ansiedade, a dificuldade de estabelecer relações em sociedade, o estímulo à sexualização precoce, adesão ao cyberbullying, o comportamento violento ou agressivo, os transtornos de sono e de alimentação, o baixo rendimento escolar, as lesões por esforço repetitivo e a exposição precoce a drogas.

Para o palestrante, escritor e psicólogo Rossandro Klinjey, criar os filhos sem controle quanto ao uso da tecnologia é irresponsabilidade e atrapalha o crescimento cognitivo das crianças. “No fundo, é confortável. Existe um ganho por trás, mas também o prejuízo emocional e moral é imenso. Eu entendo que pontualmente, deixar uma criança no celular é uma coisa. Outra, é a criança ter acesso. Existem vários estudos que mostram os prejuízos que têm ocorrido ao cognitivo, ao afeto, à autoestima. Então precisa ter um equilíbrio no uso da tecnologia”, disse.

Klinjey também é o autor do livro “Help! Me Eduque”, onde ele aprofunda sobre como pais, mesmo com boas intenções, podem estragar seus filhos, além de discutir temas polêmicos como liberdade, privacidade, novas formações familiares. O trabalho é fruto de sua experiência como terapeuta. “Por 20 anos eu atendi adultos e parte da disfunção deles vem de quando eles eram crianças e com o papel que os pais deles tiveram, seja de forma positiva ou negativa.”

Pai de duas meninas, o jornalista e escritor, Marcos Piangers, autor do best seller “Papai é Pop”, também pensa nessa linha de raciocínio. Para ele, as crianças precisam desenvolver algumas capacidades cognitivas e interpessoais antes de se envolverem com aparelhos eletrônicos. 


Para Marcos Piangers, crianças precisam desenvolver capacidades cognitivas antes de se envolverem com aparelhos eletrônicos | Foto: Giselle Sauer

“A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda nenhum tipo de tela para crianças menores de dois anos, nem televisão, nem tablets e nem smartphones. Infelizmente, a gente vê famílias no mundo todo colocando crianças expostas a telas muito cedo, com dias, meses de idade. Antes de interagir com um tablet, a criança tem que desenvolver algumas capacidades, habilidades, como empatia, olho no olho, paciência, capacidade de conexão, ler emoções no rosto da mãe e do pai, das pessoas que a rodeiam”, disse.

Piangers ainda aponta problemas no desenvolvimento de aprendizado das crianças que têm acesso desde cedo a aparelhos eletrônicos, inclusive televisão. “Com a exposição a uma tela, a criança não desenvolve características importantes e ela pode desenvolver uma impaciência, irritabilidade, dificuldade do sono, obesidade e um problema grave que é levar as crianças para um ambiente de dificuldade de aprendizado e deficiência cognitiva. Então se quer cuidar do seu filho mesmo, deve desenvolver nele, primeiro, as características humanas para depois passar para a tecnologia”.

Para aproximar ainda mais pai e filhas, Marcos Piangers explica que desenvolve atividades lúdicas, criando brincadeiras entre eles e produzindo jogos de tabuleiro. “A gente interage muito mais entre a gente fazendo nossos próprios jogos de tabuleiro com papel e caneta, ou então brincando de dominó, quebra-cabeça, então nossos labirintos de fita crepe, onde a gente joga de um lado para o outro no corredor e tem que passar para o outro lado rastejando, elas adoram. A gente cria nossas brincadeiras, patinam com meias de lã na sala. Essa é uma educação que vai nos unindo, nos despertando a aproximação, o afeto e capacidade de conversa”.

 

METODOLOGIA PRÓPRIA

Rogério Ribeiro Cardoso ao lado do filho Pietro Bernardo, de 4 anos | Foto: Arquivo Pessoal

Em Uberlândia, o professor Rogério Ribeiro Cardoso, 39, é pai de dois meninos. O mais velho, Pietro Bernardo, tem quatro anos e o mais novo, Luca, quatro semanas. Desde cedo, junto com a esposa, Cardoso incentivou o primogênito a ter autonomia responsável.
“Sempre demos liberdade com responsabilidade, desde antes de começar a andar. A cada novo obstáculo ou desafio que ele ia encontrando, dávamos apenas um empurrãozinho, para que ele mesmo conseguisse resolver [só resolvíamos por ele quando sabíamos que não seria capaz]. Também sempre lhe demos opções de escolha, dentro de um escopo limitado e saudável, tanto para a alimentação, quanto para o lazer”, disse.

Dessa forma, junto com a ampliação das experiências, Pietro começou a fazer questionamentos. Para resolver o conflito, nada como uma conversa saudável olho no olho. “Quanto maior consciência de si e do mundo, maiores são os desafios da educação, pois não mais podemos lhe impor algo, ele irá questionar já que sempre dialogamos e ‘combinamos’ as regras, sempre olhando nos olhos e agachados na altura dele. No entanto, e aí é que está o desafio mesmo, há situações em que precisamos ser mais enfáticos e sem muitas explicações. É quando invariavelmente batemos de frente um com o outro. Mas nada como deixar a poeira baixar, dar um abraço apertado e respirar fundo juntos. Daí conversamos de novo”, disse Rogério.

Para chegar ao modelo que julga adequado na criação dos filhos, Rogério utilizou da própria experiência de vida e profissional como pedagogo para, junto com a esposa, chegar à conclusão que uma educação mais democrática teria resultados mais positivos. “A minha própria criação me serviu de baliza, mas também por eu ser pedagogo e minha esposa também, sempre conversamos muito a respeito e chegamos num acordo mútuo entre nós, e nossos estudos e leituras, assim como vivências pedagógicas, influenciaram muito no modo como criamos nossos filhos. De certa forma, pedagogias mais democráticas nos influenciaram bastante. O respeito à infância como fase própria, e não apenas como preparação para a próxima fase da vida, também é um dos pontos que fundamentam a nossa forma de educar nossos filhos”, afirmou.

Uma forma de estimular o crescimento psicossocial do filho é incentivando-o na formulação de ideias. “Essa questão do explicar as coisas é também muito interessante: nem todas as perguntas que ele faz nós respondemos de pronto. Muitas vezes perguntamos o que ele pensa a respeito. Isso estimula tanto a sua capacidade de formular hipóteses quanto a sua imaginação e criatividade. Assim, ele inventa explicações das mais variadas e fantasiosas, ou até mesmo coerentes. E isso interfere depois no brincar. No teatro, por exemplo, ele inventa histórias com início, meio e fim, bastante coesas e complexas”.

Agora, a família do Rogério cresceu com a chegada do Luca. E o professor quer aproveitar a experiência que teve com Pietro e oferecer a mesma criação para o caçula, mas agora na companhia de um irmão mais velho. “Nós três estamos em novo aprendizado, que é como usar melhor o nosso tempo, ou o tempo que temos uns com os outros. O que queremos, e nos esforçaremos por isso, é dar a ele a mesma educação que temos dado ao primeiro, com menos falhas, esperamos! E sabemos que ele terá ainda um terceiro educador em casa, que é o irmãozão, ou ao menos um influenciador”.

Sobre o papel do pai, Rogério descreve bem a importância da figura paterna na educação dos filhos, fazendo uma divisão entre o que é divisão e compartilhamento de responsabilidades. “Se há um casal, a criação deve ser compartilhada, o que não é a mesma coisa que dividida. A gente divide tarefas domésticas. Educação a gente compartilha, com igual peso nas responsabilidades. E a criança percebe que ela não tem um porto seguro, mas dois.”
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