13/05/2019 às 17h05min - Atualizada em 13/05/2019 às 17h05min

Tese revela que história de Uberlândia encobre passado escravocrata e de exclusão racial

Doutorado defendido na UFU apresenta episódios que comprovam prática de escravidão e a resistência negra na cidade

CAROLINE ALEIXO

Historiador Jeremias defendeu a tese de doutorado na UFU | Foto: Jeremias Brasileiro/Arquivo

Treze de maio, celebrado nesta segunda-feira, é lembrado pelo dia em que foi abolida a escravidão no Brasil. O ano da assinatura da Lei Áurea se deu em 1888, coincidentemente, no mesmo período de formação administrativa do município de Uberlândia. E qual a relação entre a cidade e a escravidão? Uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) neste ano revelou que, por trás do contexto de desenvolvimento e emancipação, a cidade é historicamente racista e amarga cenas do período escravocrata.

A pesquisa foi realizada por Jeremias Brasileiro, doutor em História Social, com o objetivo de estimular a reflexão sobre a permanência do racismo e da resistência negra na cidade de Uberlândia até os dias de hoje. O historiador se embasou em depoimentos e documentos que comprovam a prática de escravismo nas terras mineiras.
“Uma das essências [da tese] é esta: demonstrar como é que Uberlândia conseguiu esconder o seu histórico de passado escravista. Porque a gente só tem a história da cidade a partir de 1888. É uma cidade que vai ser constituída a partir desse progresso, do desenvolvimento. Então você não acredita que teve escravidão aqui”, disse.

A comprovação vem, dentre outras coisas, de uma lista de bens doados para leilão a fim de arrecadar dinheiro para a construção da antiga Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em 1858, quando a cidade ainda era denominada São Pedro de Uberabinha. O arquivo mostra que entre as prendas estavam animais, peças de couro, carros de milho e um negro escravo “dado por João José Dias e arrematado por José do Carmo” por 17$000 réis.

A lista de donativos aponta ainda como provedor Felisberto Carrejo, um dos fundadores da cidade. O estudo revela que os fazendeiros faziam parte de famílias escravocratas da região e o leilão do negro, em praça pública, representava para a elite da época um ato festivo e religioso.  

Em outros documentos foram identificados mais de cem casamentos de negros escravizados entre 1885 e 1888 na cidade. A existência dessas famílias se confirma tanto no período de escravidão quanto depois, uma vez que vários casamentos continuaram sendo realizados e os registros traziam a referência dos negros como ex-escravos, além do nome do senhor a qual pertenceram.
As certidões estão documentadas em livros de registros da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião do Uberabinha e que ficaram, posteriormente, entre os arquivos da Catedral de Santa Terezinha.

 
“Sempre se omitiu a presença dos senhores de escravos na cidade de Uberlândia, eles não querem que isso venha à tona. Mas quem apadrinhava esses casamentos era esse pessoal da elite”, comentou o historiador.


Lista de prendas para construção de igreja constava um escravo para o leilão | Foto: AcervoDigital/Jeremias Brasileiro

RACISMO
Em alguns documentos sigilosos dos quais Brasileiro teve acesso, constam atas de reuniões de uma irmandade religiosa da cidade, chamada de Confraria de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O grupo criado no início de 1900 era formado por mulheres brancas da elite de Uberlândia e que não aceitavam celebrar a festa de Nossa Senhora do Rosário junto aos negros.

Trechos da documentação revelam comportamento racista e preconceituoso por parte dos membros da irmandade em relação à festa da Congada e aos negros tratados como “homens de cor”. Elas não queriam celebrar a festa da santa no mesmo mês, no caso outubro, em que os grupos de congos também realizavam a festa em louvor à Senhora do Rosário. Com isso, passaram a ser realizadas duas festas, uma dos brancos, em outubro, e a Congada, transferida para novembro.

A mudança estava associada à recém-criada Irmandade do Rosário que, na visão da elite branca, não era bem-vinda ao círculo social religioso. Os congadeiros eram considerados como incultos, rudes e não civilizados, contudo, se falava em dar exemplo de bons costumes a eles conforme mostra um dos fragmentos da ata:

“Falou-nos [Cônego Diretor] do novenário a N. Senhora e São Benedito, festa tradicional dos homens de cor da nossa cidade, pedindo-nos comparecimento às novenas, à missa cantada e a procissão em homenagem a N. Senhora, homenagem esta a que não devemos fugir, mesmo para dar exemplo às pessoas mais rudes e afastadas.”


Imagem em frente ao Santuário N.S. Aparecida é a única da padroeira do Brasil pintada de branco | Foto: Jeremias Brasileiro/Acervo digital

Segundo a pesquisa, mesmo após a demolição da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, e a migração dessas mulheres para a Catedral de Santa Terezinha, elas continuaram por alguns anos a realizar a festa no mês de outubro.

A tese também pontua a presença do racismo na imagem que está em frente ao santuário de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de mesmo nome. De acordo com o pesquisador, ela é a única imagem da padroeira do Brasil pintada de branca em todo o território nacional.

“A normatização do racismo do ponto de vista estrutural, institucional e simbólico é tão grande nessa cidade que a gente acaba naturalizando o olhar. As pessoas só sabem que se trata de Nossa Senhora Aparecida devido ao local em que ela está. Quando o movimento negro questionou, a resposta foi a licenciosidade artística e que poderiam pintar de preto, só pagar R$ 15 mil”, abordou Jeremias.


CONGADA
Em sua tese de doutorado defendida neste ano na Universidade Federal de Uberlândia, o historiador Jeremias Brasileiro traz o contexto de racismo acompanhado à história da Festa da Congada em Uberlândia - cuja manifestação religiosa e cultural é de origem africana - que se desenvolve junto à cidade, e o quanto a população negra contribuiu ao crescimento do município, ainda que os personagens estejam esquecidos.

“Apesar de todas as dificuldades, de tudo isso, essas pessoas sobreviveram e continuaram resistindo nesta cidade. E exigem um lugar na história a exemplo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1929. A literatura fala que quem construiu foram empresários, engenheiros, mas quando você conversa com moradores antigos, os negros mostram que também ajudaram nesta construção.”


Negros ajudaram na construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Uberlândia | Foto: 
AcervoDigital/Jeremias Brasileiro

O preconceito contra a comunidade negra uberlandense persiste, desde as tentativas de boicote à festa dos congadeiros na história, mudanças dos endereços do Congado e do tradicional carnaval de rua da cidade. Mesmo após um centenário, os reflexos desse comportamento são visíveis em todos os setores.

Para compor a pesquisa, o doutor em História colheu depoimentos de diversas pessoas que foram cruelmente vítimas da exclusão racial. Entre elas está uma senhora congadeira, que nos anos 70 foi trabalhar na casa de uma mulher que não permitia que ela fosse chamada pelo próprio nome, o mesmo de sua nora, já que ela era empregada.

“[...] Eu perdi o chão. Parece que essa cidade sempre quis manter os negros no ‘marco zero’. Uberlândia não me aceitou enquanto profissional da educação, os ricos tomaram meu lugar na época, por isso fui para São Paulo”, relatou a mulher.

Houve também uma assessora parlamentar que, ao ser atendida na Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Tibery, foi questionada pela médica se era faxineira, porque estava precisando de uma.

Um outro congadeiro foi demitido de uma rede de supermercados na cidade depois de ter se atrasado para iniciar o trabalho e ouviu do patrão que “esses pretos só gostam de congo”. 

Os nomes dos personagens foram ocultados para preservar a identidade deles. A pesquisa “O congado (a) e a permanência do racismo na cidade de Uberlândia-MG: resistência negra, identidades, memórias, vivências”, orientada pelo professor Newton Dângelo, pode ser acessada na íntegra na página do Repositório Institucional da UFU
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