14/04/2019 às 09h00min - Atualizada em 14/04/2019 às 09h00min

Futuro de Uberlândia pode ser cada vez mais prático e barato com uso de IA

Diário de Uberlândia conversou com especialistas em computação e em Inteligência Artificial para entender mais sobre o assunto

NÚBIA MOTA
Quem era criança entre as décadas de 60 e 80 e assistia Os Jetsons pode ver muito do clássico desenho da Hanna-Barbera se materializado nos dias de hoje. Lembra da Rosie, a empregada cheia de botões, que se deslocava com rodinhas e respondia quase todas as perguntas direcionadas a ela? Você pode até não saber, mas provavelmente já se comunicou com um robô quando fez alguma solicitação para a empresa de telefonia pelo chatbot ou tentou encontrar o melhor trajeto no trânsito com a ajuda do smartphone. Ainda não temos um carro voador como o do George Jetson, mas veículos autônomos já transitam pelas ruas do mundo. Isso tudo e muito mais é Inteligência Artificial (IA), um caminho sem volta e cheio de possibilidades.

A IA pode até parecer um assunto da moda, mas a expressão existe desde 1956. Para entender um pouco a respeito, a reportagem do Diário de Uberlândia foi até a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) conversar com três especialistas em computação e em IA. Os docentes da Engenharia de Computação Alexandre Cardoso e Igor Peretta Santos, e Gerson Flávio Mendes de Lima, professor de Engenharia Elétrica da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), tiverem paciência suficiente para explicar alguns preceitos dessa ciência para a repórter que mal sabe usar o Google Maps ou pedir comida pelo IFood.

Inteligência artificial

Docentes da Engenharia de Computação Alexandre Cardoso e Igor Peretta Santos e Gerson Flávio Mendes de Lima | Foto: Diário de Uberlândia

A entrevista foi feita em uma sala cheia de alunos da graduação, mestrandos e doutorandos falantes e agitados, aberta para estudos e pesquisas praticamente 365 dias por ano. Peretta explicou tudo do início, desde o Teste de Turing, da década de 50, proposto pelo matemático inglês Alan Turing. O teste, de acordo com o docente, foi feito com um interrogador fazendo perguntas a um humano e a um computador. Se o computador fosse realmente inteligente, ele deveria ser capaz de enganar o interrogador, fazendo com que ele não tivesse certeza se a resposta vinha do humano ou da máquina. “Até pouco tempo, era usado esse teste e se o computador enganasse o humano, era inteligência artificial. Mas aí veio outro pesquisador e contestou”, contou Igor Peretta.

Esse outro pesquisador é o filósofo norte-americano John Searle. Além de contestar o Teste de Turing para avaliação de IA, ele bolou um experimento, em 1980, um pouco mais complicado, batizado como Sala Chinesa. Hipoteticamente, ele colocava uma pessoa que não sabia nada de chinês em uma sala com aqueles símbolos chineses e um livro com regras de como usá-los. Fora da sala, ficava alguém que sabia chinês fazendo perguntas. Estava assim estabelecida uma metáfora, em que o ser humano é o computador, o livro de regras o programa e as folhas de papel dispositivos de armazenamento. Quem estiver de fora, com base nas respostas, vai acreditar que a pessoa lá dentro sabe a língua perfeitamente.

“O pesquisador disse, eu posso te enganar e você achar que é um ser humano, mas e a máquina, ela realmente entende o que é chinês? Ela tem consciência do que está fazendo, ou está só juntando alguns padrões?”, disse Peretta.

A partir daí e até nos dias de hoje, a IA foi definida em dois níveis, forte, em que a máquina tem consciência do que está acontecendo, e a fraca, em que ela pode até enganar que é consciente, mas não é. “Hoje, eu não sei de nenhuma máquina e de pesquisa no mundo com Inteligência Artificial forte, com um computador que saiba realmente o que está fazendo. E eu duvido muito que chegue lá, porque passa pela consciência. A gente não consegue nem definir o que é consciência no ser humano”, explicou Igor Peretta.
 
DESTAQUE
Existe uma distância muito grande de tempo, de anos e até de décadas, entre o desenrolar da pesquisa e o momento em que o produto chega ao mercado e chama a atenção das empresas e dos consumidores. Essa é a explicação que dá Alexandre Cardoso, professor da Engenharia de Computação da UFU, para que só agora a Inteligência Artificial ganhe tamanha repercussão. “Hoje, a sociedade e as próprias empresas estão projetando essas áreas que eram só de pesquisa e estão se tornando de grande interesse comercial, por causa da condição de ter de melhorar a prestação de serviço. Mas, em breve, [a IA] vai estar tão misturada ao seu dia a dia, que nem vai merecer mais essa condição de conversarmos sobre o tema”, afirmou o docente.

E isso já está acontecendo. Hoje, além das aplicações da IA estarem em vários setores da sociedade, como nas áreas jurídica, de saúde, nas indústrias e na agricultura, ela faz parte também do nosso cotidiano. Alexandre Cardoso citou, por exemplo, o caso de quando alguém acessa o Facebook e dá de cara com um monte de matéria de sua área de interesse. Isso só é possível graças aos algoritmos de IA, que calculam quais publicações são mais relevantes para cada usuário, com base no que o internauta curte, olha, e chega a ofertar até mesmo anúncio de produtos, como se adivinhasse o que a pessoa quer comprar.
 
CHATBOT
Atualmente, podemos até não ter acesso a uma robozinha física, como a Rosie dos Jetsons, mas podemos facilmente falar com uma. Neste momento de crise financeira, talvez você tenha falado com a Duda, um chatbot de renegociação de dívidas de cartão de créditos desenvolvido pela Algar Telecom.  E o melhor, ela conversa com o cliente via WhatsApp, sem ter que ficar com o telefone preso na linha. “O que é uma atividade repetitiva, linear, previsível, vamos usar o robô, mas o que precisa de criatividade, persuasão, inteligência, capacidade de compaixão, carinho, a gente usa o humano. Por isso, nossa intenção é que nossos associados desenvolvam atividades com maior valor agregado”, disse Bernardo Costa, head de transformação digital.

É o caso da Aline de Rodrigues, curadora, de 23 anos, que entrou na empresa como atendente de telemarketing em 2013, aos 17 anos, e desde 2015 começou a trabalhar com os bots (robôs), no começo sem IA. Agora, ela trabalha ao lado da Ju, uma outra assistente virtual inteligente, responsável pelo Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC). “Tem que estudar, aprimorar os conhecimentos e entender de programação, porque estão surgindo novas áreas. Se não fosse a Ju, eu ficaria no telemarketing”, afirmou. Aline fica por trás do computador se a assistente não conseguir captar a mensagem do lado de lá, caso o usuário utilize uma gíria, ou uma pergunta ou expressão que ainda não foi ensinada para ela, por exemplo, mas hoje, 60% dos atendimentos da área estão na mão da Ju.

Para o docente da UFU, Igor Peretta, programação precisa ser disciplina de ensino básico, para que uma criança aprenda e, quando crescer, já chegue preparada para o mercado de trabalho. “O mercado vai sofrer por mudanças. Tudo que for passível de juntar informação, buscar informação e retornar informação, todo esse tipo de profissão vai sumir, como por exemplo telemarketing, bibliotecário, advogado, médicos que só dão diagnósticos. Agora, profissionais que não vão ser substituídos nunca são os que interagem com pessoas, como enfermeiros, cuidadores de idosos. A máquina nunca vai dar carinho. Por isso, ou venha para as exatas nos ajudar nessa evolução, ou fique nas humanas, mas tenha uma carga de programação”, disse o professor.
 
 
INTELIGÊNCIA COMPUTACIONAL
A Inteligência Computacional ou Inteligência de Máquina é uma subárea da IA, em que os pesquisadores estão mais preocupados em resolver um problema do que replicar o jeito do ser humano de agir. E aí onde os avanços são fenomenais pelo mundo afora e surpreenderia até mesmo a família Jetsons, que viveu no ano 2062, daqui a 43 anos.

Atualmente, temos máquinas que fazem design de objetos, como aros de bicicletas, motos, aeronaves e móveis, por exemplo, com a utilização de menos material, tornado tudo mais leves, mais barato e ao mesmo tempo mais resistente, como explica Gerson Lima, professor de Engenharia Elétrica da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).

Ainda de acordo com o pesquisador, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na área de computação gráfica e de otimização, já há resultados práticos. Em uma tese de doutorado, por exemplo, foi usado algoritmos de inteligência computacional em que foi repensada a rota dos veículos do centro de distribuição de uma empresa de transporte de Uberlândia, com a economia de R$ 78 mil em uma semana.

No Uberlândia Medical Center (UMC), outro teste está sendo feito em uma simulação de um coração integrado com um eletrocardiograma. “Estamos trabalhando no desenvolvimento de um sistema de análise de curvas de eletrocardiograma para dar o diagnóstico automático. Quem vai dar o diagnóstico é o computador”, contou o professor Gerson Lima.

Para o CEO do UMC e cardiologista Roberto Botelho, a IA é imprescindível para o profissional de saúde, e aquele que não estiver engajado em entender a respeito, desaparecerá. “Quem vai salvar o médico é a Inteligência Artificial. Um médico hoje precisa ler, no mínimo, 25 artigos por dia. A cada dois anos, dobra o conhecimento mundial e daqui a pouco, a cada ano, e depois, a cada hora. Então, a única forma do médico ficar atualizado é com o suporte das máquinas”, disse Botelho.

Inteligência artificial

CEO do UMC e cardiologista Roberto Botelho | Foto: Diário de Uberlândia

E diferentemente do que se pensa, a IA, de acordo com o especialista, veio, além de facilitar a medicina, para torná-la mais barata. Ele cita, por exemplo, que enquanto um médico lauda 10 exames por hora, uma máquina consegue 200 laudas. O profissional, então, só atua caso dê alguma alteração no resultado.  

“Você ganha tempo, ganha custo, economiza o médico para usar a cabeça só para quando for preciso e melhora a qualidade e a precisão do exame, porque tem uma supermáquina para te confirmar. O céu é o limite, pode servir para prescrição de antibiótico, controle de infecção, controle de segurança. Muitas especialidades vão sumir, principalmente aqueles que ficam só em diagnósticos”, afirmou o cardiologista.
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