25/03/2019 às 09h47min - Atualizada em 25/03/2019 às 09h47min

Pastas de Agricultura e Agropecuária são ocupadas por mulheres nas esferas municipal, estadual e federal

Diário de Uberlândia conversou com secretárias que se destacam na política e no setor do agronegócio

NÚBIA MOTA
Tereza Cristina foi primeira mulher a assumir o primeiro escalão no governo de Jair Bolsonaro | Foto: Agência Brasil
As pesquisas mais recentes dão conta de que a cada dez chefes de fazendas, duas são mulheres. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Censo Agropecuário 2017 e mostram que o total de estabelecimentos agrícolas nos quais o produtor é do sexo feminino subiu de 12,7% para 18,6%, entre 2006 e a última pesquisa. Mas se depender do exemplo dos três nomes que encabeçam o agronegócio nas gestões municipal, estadual e federal, esse número deve ser ainda maior para os próximos anos.

Além de mulheres e mães, a ministra da Agricultura Tereza Cristina Corrêa, a secretária de Estado da Agricultura, Ana Maria Valetini, e a secretária municipal de Agropecuária, Walkíria Naves, são produtoras rurais, já sofreram de perto todas as dificuldades do setor e, por isso, sabem o que é preciso para melhorar a vida no campo.

Tereza Cristina tem 64 anos, é engenheira agrônoma, nascida em Campo Grande (MS), tem 2 filhos e 1 neto. Foi a primeira mulher a assumir o primeiro escalão no governo de Jair Bolsonaro e é vista com bons olhos pelos profissionais da agricultura.  Em fevereiro, inclusive, ela chegou a receber representantes da cadeia produtiva do leite da região, entre eles o presidente da Cooperativa Agropecuária de Uberlândia (Calu), Cenyldes Moura, quando aumentou em 42% o imposto de importação de leite, como forma de proteger os produtores locais. 

Em viagem a Nova York na última semana, a ministra não pôde falar com o Diário de Uberlândia. Lá, ela estava em busca de investimentos internacionais para o agronegócio do Brasil. “A agricultura brasileira está no caminho certo, mas o grande gargalo é a infraestrutura. É fundamental, para que o agronegócio continue sendo bem-sucedido e tenha competitividade nos mercados internacionais, que tenhamos (novos projetos de) ferrovias, hidrovias, rodovias, armazenagem, irrigação e energia”, disse a ministra em entrevista à Agência Brasil.

Como deputada federal, a atuação de Tereza Cristina ficou marcada nos últimos anos pela defesa à aprovação do projeto que flexibiliza as regras para fiscalização e aplicação de agrotóxicos no País, o que rendeu a ela o apelido de "musa do veneno" entre os ambientalistas.

Ela também foi relatora da medida provisória que criou o Programa de Regularização Tributária Rural (Refis), do Fundo de Assistência do Trabalhador Rural (Funrural) e que gerou críticas de algumas alas do agronegócio. No Mato Grosso do Sul, antes de ser eleita deputada federal, Tereza ocupou quatro secretarias como gerente executiva: Planejamento, Agricultura, Indústria e Comércio e Turismo.
 
MINAS 

Já no Estado de Minas Gerais, a mulher que chefia a agricultura é a engenheira florestal Ana Maria Valentini, que inclusive vem a Uberlândia na próxima terça-feira (26) para o primeiro Encontro de Mulheres Mineiras do Agronegócio, no Camaru, onde será discutido o papel da figura feminina no setor, com apresentação de cases de sucesso durante a Femec 2019. Na última semana, Ana Maria falou ao Diário sobre sua história e o papel da mulher no agronegócio.

Filha de produtores rurais, nascida na zona rural de Capitólio (MG), ela é a primeira mulher a assumir a pasta da Agricultura em Minas Gerais. A escolha foi por meio de processo seletivo, com análise de currículo. O nome dela foi escolhido entre outros 17 nomes, e ela acredita que o diferencial se deve ao fato dela ser produtora rural.

“Era um sonho, meu e de meu marido, que a gente tivesse terra pra plantar. Nós dois engenheiros, trabalhávamos e economizávamos para comprar um pedacinho de terra. Morávamos a 100 km de estrada de terra da cidade, sem telefone, se energia elétrica. Foram muitos anos de dificuldade, porque não tínhamos as tecnologias que temos hoje”, contou Ana Maria.

Mãe de dois homens e uma mulher, a secretária conta que nunca sofreu preconceito no meio, seja como produtora rural, nem dentro da secretaria. Mesmo tendo sido criada entre quatro irmãos, sendo só duas meninas, ela conta que os pais nunca fizeram distinção e deram oportunidade para todos estudarem ou fazerem o que quer que seja.

“Se na minha própria casa, nunca senti essa diferenciação, nunca prestei atenção em outras áreas. Não tenho como responder isso, quando me perguntam, porque nunca senti preconceito por ser mulher. Meu marido é engenheiro agrônomo, sempre o ajudei na fazenda, e ele também sempre valorizou o meu trabalho”.

Para Ana Maria, é muito certo o crescimento da mulher no agronegócio daqui para frente. Para ela, enquanto antigamente era comum as mães de famílias rurais não darem seguimento aos trabalhos das propriedades, quando ficavam viúvas, ou herdavam um pedaço de terra, hoje elas têm assumido mais as atividades no campo.

“Isso é motivo de orgulho. Eu estive na Fenicafé de Araguari nessa semana e o 1º, 2º e 3º lugares de um concurso de melhores cafés foram para três mulheres. Isso a gente não via antes. As mulheres não se sentiam capazes de assumir a propriedade herdada e esse papel [de líder]. Hoje tem se visto muito isso. A mulher pode ser várias coisas”, afirmou a secretária.

Desde 1987, Ana Maria Soares Valentini participa do Programa de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER), que contou com o apoio do governo japonês para ampliar as áreas agricultáveis de soja no Brasil. Entre seus trabalhos como engenheira de pesquisa florestal, esteve em meados da década de 1980 no projeto “Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais”, na Amazônia, coordenado pela fundação WWF (World Wide Fund for Nature), que é uma Organização não governamental internacional que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental.
 

Secretária assume Agropecuária pela segunda vez

 
Assim como a ministra e secretária de Estado, a titular da pasta da Agropecuária em Uberlândia, Walkíria Naves, de 53 anos, é produtora rural, nascida de parteira na zona rural da vizinha Indianópolis. Ela veio para Uberlândia ainda criança, onde se formou em Medicina Veterinária. Desde pequena, ela conta que acompanhou o pai, Gerson Borges, na lida da fazenda com o gado de corte, de leite e nas lavouras, motivo pelo qual optou por fazer veterinária.

Depois de formada, além de continuar trabalhando como produtora rural, foi ainda professora de zootecnia na Faculdade de Agronomia de Itumbiara e secretária municipal de Obras e Desenvolvimento Rural em Bom Jesus de Goiás.

Funcionária pública municipal concursada há 25 anos, ocupou os cargos de médica veterinária do Serviço de Inspeção, coordenadora do Serviço de Inspeção Municipal, diretora de Abastecimento e Inspeção, assessora de projetos e essa é a segunda vez que assume a Secretaria Municipal de Agropecuária e Abastecimento (a primeira foi no período 2010-2012).

Mãe do estudante de zootecnia Matheus, de 21 anos, e de Thiago, de 17 anos, ainda no ensino fundamental, ela conta como é conciliar a maternidade, a casa, o trabalho na secretaria, a empresa de cascalho e a propriedade rural onde cria gado Jersey e desenvolve um hobby na fabricação de queijos. “Só a mulher mesmo tem a capacidade de fazer tanta coisa junta. Eu acho que é porque eu gosto muito de tudo que eu faço e procuro ser muito dedicada”, afirmou.

Dentro da secretaria, trabalhando com outras produtoras rurais, Walkíria conta que a mulher tem uma vontade de aprender e inovar, enquanto o homem é mais acomodado. “As mulheres estudam mais do que os homens. E no agronegócio é muita tecnologia, muda muito e não aceita desaforo. Se você errar, acabou, é prejuízo. Não quer dizer que os homens não são bons, mas a mulher é mais dedicada. Por exemplo, você está me perguntado detalhes. Homem não se atenta a detalhes. E isso é nosso diferencial no Agronegócio ou em qualquer outro negócio”, disse Walkíria.

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