17/03/2019 às 09h30min - Atualizada em 17/03/2019 às 09h30min

Niza Luz foi a única mulher a assumir a Prefeitura de Uberlândia

Vice de Virgílio Galassi à época, Niza defendeu que Uberlândia ainda é uma cidade machista e conservadora em termos políticos

NÚBIA MOTA
Niza Luz fala da trajetória política e relembra decepção ao se candidatar a deputada | Foto: Núbia Mota
Em um primeiro momento, à distância, Niza Luz pode até parecer uma mulher prestes a completar 80 anos. Mas nos primeiros segundos de conversa, ao mergulhar naqueles olhos azuis transbordando sabedoria, vêm à tona toda a vitalidade e a força semelhante a de muitas jovens que hoje buscam espaço na sociedade. Desde quando Uberlândia passou a ter candidatos eleitos pelo povo, em 1946, ela é a única mulher que assumiu o Executivo Municipal.

Isso ocorreu por ter sido eleita como vice-prefeita, durante a terceira gestão de Virgílio Galassi, entre 1997 e 2000. Antes disso, foi também a primeira mulher a se candidatar a prefeita, em Uberlândia. O ano era 1988. De lá cá, o espaço feminino na política não tem um quadro de grande representatividade, mas o caminho, pelo menos, já está aberto.

Niza Ribeiro da Luz nasceu em 20 de agosto de 1939, 12 dias antes de deflagrada a Segunda Guerra Mundial. Foi criada e viveu quase toda a vida no centro de Uberlândia, onde, desde muito pequena, passou a ter contato com a política local. Morava em frente à casa do coronel Marcos de Freitas Costa, e o pai, Cândido Ribeiro, foi o fundador do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) na cidade.

Na década de 50, a família chegou a receber a visita do então presidente da República e correligionário Getúlio Vargas. “Não me esqueço da festa, dos preparatórios para receber o presidente. Foram ele e o Gregório (chefe da guarda pessoal de Getúlio). Tudo que ele ia comer, primeiro o Gregório comia”, lembrou Niza.

Na casa de Marcos de Freitas Costa, líder político na cidade, onde Niza frequentava por ser amiga de uma das netas do coronel, a uberlandense também se lembra das discussões e o vai e vem de candidatos. “Ele era paralítico e a gente vivia na beirada da cama dele. As conversas eram a respeito de Uberlândia e ele articulava muito a política da cidade. Foi exatamente isso que eu nunca soube fazer na minha vida, porque a articulação política pra mim, hoje, é a pior que existe. Tomara que esteja passando e tenha um novo modelo de política”, disse Niza.

No ensino fundamental e médio, Niza estudou no Colégio Estadual, o Museu, e foi sempre muito atuante no esporte, praticando vôlei, atletismo, natação e basquete. Antes de buscar um diploma universitário e se enveredar no mundo da administração pública, tratou primeiro de ser mãe. Se casou, aos 19 anos, com o médico dermatologista Simão de Carvalho Luz, um dos fundadores da Escola de Medicina de Uberlândia, e aos 25 já tinha Egle, Leonardo, Jaime, Ariel  e Cláudia. Só quando os filhos ficaram maiores, ela começou o curso de Serviço Social e se formou em 1975.

Ainda se especializou em Administração Hospitalar e fez Mestrado em Ciências Sociais, o que lhe deu direito de fazer parte da equipe de docentes do curso de Medicina da UFU, primeiro ministrando sociologia médica e, depois, prática hospitalar, disciplina que ela mesmo implantou. Na UFU, Niza também foi quem criou o setor de Serviço Social dentro do Hospital de Clínicas (HC).

Em 1983, pouco tempo depois de ficar viúva, aos 42 anos, a professora criou a Secretaria Municipal de Trabalho e Ação Social, na gestão de Zaire Rezende (1983-1988), quando assumiu a pasta. Na época, Uberlândia tinha duas creches e, em 4 anos, mais de 60 instituições de ensino infantil foram criadas. No fim do mandato, em 1988, ela se candidatou a prefeita, concorrendo, na época com Virgílio Galassi, que acabou se reelegendo pela terceira vez. Entre os seis candidatos, ela conseguiu ficar em terceiro lugar, depois de Luiz Alberto Rodrigues.

“Diziam que eu tinha sido picada pela mosca azul. Eu concorri sabendo que não ia ganhar, mas eu queria provar que poderiam ter propostas diferentes. Naquela época, era só Virgílio, Renato (de Freitas), Renato, Virgílio. Nossa política aqui, até hoje, é muito repetitiva. Uberlândia é muito conservadora”.

Em 1989, para a surpresa de Niza, ela foi convidada por Virgílio Galassi (1989-1992) a assumir a secretaria de Ação Social novamente, mesmo tendo pensamentos diferentes do prefeito.

“Éramos água e óleo e fomos muito questionados na época. Eu era de esquerda, com preocupações sociais, e ele da extrema direita. Mas ele me disse que ia chamar uma vencedora, que acreditava no meu trabalho e não estava escolhendo pelo partido, mas pela minha capacidade. Ele era completamente diferente do que eu pensava. Foi muito bom trabalhar com ele. Era muito respeitoso e nunca me disse um não”.

Nas gestões de Virgílio Galassi e Zaire Rezende, a ex-secretária destaca o trabalho feito na área de habitação popular, quando foram eliminadas todas as favelas da cidade e oferecidas moradias para a população, e o trabalho feito com as mulheres, com oferecimento de cursos profissionalizantes e oportunidades de trabalho. “Elas só podiam ser domésticas”, disse Niza, que nessa época teve de abandonar o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), implantado por ela na cidade.

Quando foi eleito Paulo Ferolla (1993-1996), na sequência, Niza seguiu como secretária na mesma pasta e também guarda boas recordações do antigo prefeito, que há 6 anos está em coma, depois de sofrer uma parada cardíaca no dia 30 de outubro de 2012.  “Foi um excelente prefeito, principalmente voltado para o social. Ele tinha o mesmo vigor do seu Virgílio e a mesma visão ampla de melhorar a cidade anos pra frente. Tenho muito respeito pelo Ferolla”, disse.

Após a gestão de Ferolla, a professora novamente ganhou espaço ao lado de Virgílio Galassi (1997-2000), mas dessa vez como vice-prefeita. Até hoje, a primeira e única da história. Por várias vezes, na ausência do titular, Niza assumiu como prefeita, continuando o trabalho com as mulheres e recebendo caravanas vindas de outros países. “Eu não quis pegar nenhuma secretaria. É a questão da articulação política mesmo que, talvez, eu não soubesse fazer tanto, por ser mulher, por pensar diferente”.  
 
DESILUSÃO
Logo após o fim do mandato como vice-prefeita, Niza Luz se candidatou a deputada estadual pelo Partido da Frente Liberal (PFL) e essa foi a grande desilusão política da vida dela, ao ponto de afastá-la para sempre do meio. “Fui totalmente ludibriada”.

Na época, o partido, em Belo Horizonte, com a participação de pessoas da mesma legenda em Uberlândia, não fez corretamente a inscrição da candidata à Assembleia de Minas e ela só soube que se tornaria inelegível no dia da eleição, depois de trabalhar a campanha por meses. “Tive uma boa votação, não me lembro quanto, mas esses votos foram para alguém. Diante disso, eu entendi muito bem a questão da mulher”, disse Niza.

“A questão da mulher” a que ela se refere é explicada pelo fato, segundo Niza, de Uberlândia ser ainda uma das cidades mais machistas e conservadoras do Brasil em termos políticos.

“Para uma mulher despontar e ser uma nova liderança é muito difícil, porque mulher tem menos articulação política. Ela acredita muito no que está fazendo. Pode ver, a própria Liza Prado, teve boa votação, foi boa vereadora, trabalha muito, batalhou muito e nunca conseguiu nada, além de ser vereadora [Liza chegou a exercer um mandato de deputada estadual]. Já tivemos excelentes vereadoras, a Martha (Pannunzio), a Nilza (Alves), a Normy (Firmino), a Olguinha (Olga Costa), e nunca foram além disso.”

Niza se lembra das vezes em que a Câmara Municipal chegou a ter seis vereadoras e lamenta o fato de, hoje, entre os 27 ocupantes do Legislativo, apenas quatro serem mulheres: Michele Bretas, Jussara Matsuda, Flávia Carvalho e Pâmela Volp, que é a primeira transexual eleita na cidade.

“Já é um avanço, mas eu vejo que na Câmara, ela (Pâmela) é totalmente isolada. É o isolamento político. Porque se você não joga na mesa com eles, você não consegue tudo que quer. É o jogo político. Tenho certeza que todas as quatro devem ter muitas dificuldades”.
 
Violência
Durante a entrevista ao Diário de Uberlândia, Niza Luz falou ainda sobre a violência doméstica e institucional, que segundo ela sempre existiu, mas hoje é mais divulgada porque as vítimas estão procurando seus direitos. A professora citou ainda o caso da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, assassinada no ano passado.

 
“Ela foi calada a tiros. É muito difícil a sobrevivência da mulher na política. Ela sempre é mais independente, faz menos articulações no sentido de ‘você faz isso que eu te dou aquilo’. São mais honestas e sabem o que quer. A mulher, geralmente, não está na política para enriquecer. Não digo que não tem homens com política limpa, mas as mulheres entram menos na articulação da velha política. Por isso, eu não sobrevivi” disse Niza.

Apesar da desilusão e descrença política terem completado quase 20 anos, desde a última tentativa de disputar uma eleição, Niza ainda não vê sinais de mudança para um futuro próximo e lista as dificuldades que todas irão enfrentar, caso disputem uma eleição e vençam.

“Primeiro, na família. A minha família nunca me proibiu, mas nunca me ajudou. Depois, é falta de dinheiro e de não saber fazer articulação política. Mulher tem servido só para ser laranja ou para cumprir cota. São subjugadas. Ainda não vejo uma solução. É só com tempo e união. Hoje, nem mulher vota em mulher. Nós precisamos sempre provar que somos boas. Homem não. Qualquer bonitinho, cantor, serve para ser político”, disse Niza.

 

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