06/02/2019 às 08h21min - Atualizada em 06/02/2019 às 08h21min

Desenhista mineiro lança HQ biográfica

Bruno Oliveira nasceu em Uberaba, foi criado em Uberlândia e já desenhou três personagens da Marvel Comics

ADREANA OLIVEIRA

O desenhista Bruno Oliveira | Foto: Divulgação
Imagine a situação. Você acha que desenha bem e quer investir em um curso de Artes Plásticas. Se inscreve em três universidades: Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista (Unesp). Se prepara e vai fazer as provas de proficiência. Não é aprovado em nenhuma. Fazer o que? Desistir, partir para outra, insistir?

A situação descrita acima aconteceu com o desenhista mineiro Bruno Oliveira quando tinha 18 anos. E ele resolveu insistir. Natural de Uberaba, mudou-se para Uberlândia com seis anos de idade. Hoje, aos 33 anos, ele trabalha em sua primeira História em Quadrinhos (HQ) autoral e já desenhou para uma das maiores editoras de quadrinhos do mundo: a Marvel, para onde desenhou HQs do Deadpool, The Amazing Spider-Man e Gwenpool.

Atualmente Bruno mora em Campinas (SP), com a esposa, Débora, designer gráfico, com quem se casou em 2013, depois de alguns anos de relacionamento a distância. Bruno credita a ela ter atingido sua meta. Graças à internet, ele conseguiu trabalhos em editoras fora do Brasil. E um certo dia de 2011, leu no Twitter um post de um dos editores da Marvel. “Estou preso no trânsito, se tiver algo interessante me mande”. Bruno respondeu perguntando se podia mandar desenho, a resposta foi positiva.

“Continuamos a nos falar por dois ou três meses. No início ele pedia para melhorar algumas coisas e depois só elogiava, mas não me passava trabalho e isso me deixava meio apreensivo”, contou Bruno. O tempo passou em 2014, em uma convenção em Nova York, Débora sugeriu que ele colocasse uma mesa na na Comic Con Experience (SP), que teria a segunda edição em 2015. “Eu não achava que aquilo era para mim, não me sentia à altura da convecção. Mas ela insistiu e topei”.

Na véspera da abertura arrumava seu espaço quando um grupo de visitantes passou. Um homem se aproximou dele falando em inglês comentou que já se conheciam, eles se falavam pelo Twitter há alguns anos. “Eu não acreditei. Ele pediu para eu lembra-lo de falarmos sobre trabalho em duas semanas, quando estaria de volta aos Estados Unidos. “Por mim ele estava só sendo educado. Mandei o lembrete em duas semanas, depois ele disse que as edições estavam fechadas e pediu mais tempo. Achei que ia me enrolar. Mas logo ele me chamou para desenhar Deadpool”.

E AGORA?

Bruno Oliveira conta que “surtou” ao assistir uma transmissão a Comic Con de San Diego, uma das mais famosas do mundo, e ver seu nome aparecer no telão. Logo chegou a HQ enviada pela Marvel, com seu nome na capa. O desenhista segue como free lancer de várias editoras. Os trabalhos da Marvel estão entre os mais difíceis de conseguir, mas ele chegou lá. Daí, começou a se perguntar, “O que fazer agora?” e veio a ideia de “What now, Bruno?” (E agora, Bruno?”), sua primeira HQ autoral que conta os dramas cotidianos de um ilustrador “descobrindo a vida” já na fase adulta.

Depois de alcançar a meta a desenhar para a Marvel ele resolveu fazer sua própria declaração de amor aos quadrinhos. A reportagem conferiu e as 22 primeiras páginas instigam o leitor, deixam um gosto de quero mais (leia aqui).

Quem mora em Uberlândia deve reconhecer um cenário, a rua Salomão Abrahão no bairro Santa Mônica, onde Bruno morava ao testemunhar um suicídio. “Eu não fiz piada com a situação, foi algo que me abalou demais, porém, foi uma boa história para começar a revista”, contou o autor, que deve produzir uma série com seis volumes.

“Quem me conhece disse que renderiam boas histórias... o que para mim é trágico para os outros é engraçado. Eu desde que me entendo por gente estou imerso nesse mundo dos desenhos. E com a internet posso trabalhar de onde estiver, por isso, muitas vezes, demoro para conhecer a própria vizinhança”, contou.
Bruno usa um humor refinado e o leitor vai se perguntar, muitas vezes, se aquilo realmente aconteceu.


Deadpool por Bruno Oliveira para a Marvel 021 | Foto: Divulgação

O INÍCIO

Bruno Oliveira nasceu em Uberaba. Aos seis anos mudou-se para Uberlândia, após o divórcio dos pais. Tem uma irmã mais nova, Marina. No bairro Industrial passou parte da infância. Queria ser jogador de futebol ou desenhista. Os planos no futebol foram interrompidos por um problema de vista. “Até tentei um tempo com os óculos, mas não deu certo, tomava muita bolada e às vezes nem enxergava a bola”, brincou.

Estudou no colégio Anglo, onde a professora de português, Simone, foi sua principal incentivadora. “Ela me deixava desenhar na sala de aula, contanto que fizesse tudo que foi proposto antes. Os outros professores não”, comentou. Ele lembra ainda que os pais não tinham condições de bancar a mensalidade da escola. E por ironia do destino, Bruno foi escolhido para fazer um comercial para o colégio. Em troca, ao invés do cachê, a mãe pediu um desconto para todo o período em que ele estudasse lá.

Os pais sempre o apoiaram. Quando foi estudar na Quanta (SP) ajudaram com a mensalidade e depois deram o prazo de um ano para ele conseguir trabalho. “O curso durou um ano e meio, era HQ e Anatomia. Tive aula com grandes professores como o Ivan Reis, que na época já  trabalhava nos desenhos do Superman”, disse.

Em sua cabeça, nunca teve um plano B: era o desenho ou nada. “Já até cheguei a pensar que era dom, mas não é. Vejo meus primeiros desenhos e eram muito ruins, melhorei com muito treino e estudo, e sigo estudando. Quando recebi as negativas nas provas de proficiência das universidades fiquei muito bravo, não concordei com a prova e continuei acreditando no meu potencial”, disse.

SAIBA MAIS
“What Now, Bruno?” está à venda até 3 de março pelo site de financiamento coletivo Catarse. Com contribuições a partir de R$ 10 para a cópia digital e impressa (diretamente com o autor), a revista tem 60 páginas e capa colorida em papel couché. Mais informações em: https://www.catarse.me/whatnowbruno

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