31/01/2019 às 08h02min - Atualizada em 31/01/2019 às 08h02min

Moradores denunciam atividade irregular

FOLHAPRESS
Foto: Vinicius Mendonça/Ibama
Moradores do entorno de Brumadinho têm procurado uma entidade ambiental local para relatar o que entendem ser atividades irregulares na barragem do Córrego do Feijão, avistadas antes da emissão da licença para ampliação do complexo, em dezembro do ano passado. De acordo com a moradora do bairro Jangada Carolina Moura, que preside a associação do bairro e lidera movimento ambiental na região, houve aumento da movimentação de caminhões e caminhonetes na barragem a partir de setembro do ano passado. "Via os veículos carregados com rejeitos todos os dias durante as minhas caminhadas matinais bem antes de a licença sair", diz Carolina.

Esse aumento da movimentação que Carolina cita começou, segundo ela, três meses antes de a Vale obter a licença para ampliar o complexo de mineração, no início de dezembro de 2018. Segundo integrantes do Movimento pelas Serras e Águas de Minas, moradores de Casa Branca, distrito de Brumadinho, têm procurado a entidade com relatos parecidos ao de Carolina. O bairro fica próximo da barragem que cedeu na última sexta-feira (25) deixando, até o fechamento desta edição, 99 mortos confirmados e 259 desaparecidos. A entidade informou que tem coletado as informações para apresentar a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais.

A licença ambiental para a ampliação do complexo do qual faz parte da barragem foi aprovada pela Câmara de Atividades Minerárias do governo estadual de Minas Gerais a toque de caixa. Na ata da reunião realizada em 11 de dezembro, quando as licenças foram aprovadas, a conselheira Maria Teresa Corujo, integrante do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc), registrou indignação diante do órgão ter agendado a reunião extraordinária que tratou da licença da Vale quatro dias úteis após os conselheiros terem tido acesso ao processo. Ritos normais, nesses casos, duram, em média, três meses.

O voto de Maria Teresa foi o único contrário à liberação da licença, diante de oito votos favoráveis de demais integrantes da Câmara com poder de deliberação em processos de licenciamento requisitados por mineradoras em Minas Gerais. As três licenças necessárias para a ampliação do complexo do qual faz parte a mina do Córrego do Feijão, com previsão de ampliação da produção em 88% até 2032, foram publicadas no Diário Oficial de Minas Gerais no dia seguinte da reunião.
Se comprovadas, as atividades irregulares para a extração de minérios na barragem, que estava inativa desde 2015, podem ter contribuído para seu rompimento na última sexta-feira (25), de acordo com Maria Teresa, integrante do Fonasc e conselheira da Câmara de Atividades Minerárias de Minas Gerais. "É preciso, por exemplo, drenar os rejeitos para fazer a extração fina dos minérios, o que pode ter desestabilizado a barragem", diz.

Segundo o relatório de impacto ambiental elaborado por empresa terceirizada contratada pela Vale, as barragens do Córrego do Feijão "possuem um volume significativo de minério em seu rejeito" e que, para extraí-lo, é preciso fazer a dragagem. A técnica se resume a instalação de bombas hidráulicas na montanha de rejeito.

A Vale afirmou que a barragem estava inativa desde 2015, mas vinha passando por projeto de descomissionamento, quando os rejeitos são tratados para obter os resquícios de minérios de ferro, que recebe o nome técnico recuperação de finos. A companhia afirmou que "não existia nenhum outro tipo de atividade operacional em andamento" e que estava esperando o fim do período de chuvas para iniciar as novas atividades na barragem.

O projeto de ampliação da Vale para as barragens do Córrego do Feijão e da Jangada inclui também a implantação de um dique para receber os rejeitos hídricos, mudança de trajeto de uma estrada municipal, entre outras medidas. A fiscalização de barragens no Brasil é feita pela Agência Nacional de Mineração. Cabe, porém, às mineradoras a função de alimentar o sistema de monitoramento da agência com laudos informativos a respeito de detalhes da operação, como o atestado de estabilidade.

De acordo com a Agência Nacional de Mineração, a última inspeção realizada pelo órgão na barragem que cedeu em Brumadinho foi em 2016. O último laudo fornecido pela Vale a partir de inspeção feita pela consultoria terceirizada TUV SUD do Brasil foi apresentado ao órgão três dias antes do acidente. 
Segundo a Vale, as inspeções não indicaram nenhuma alteração no estado de conservação da barragem.
 
RECLAMAÇÃO
Fake News têm atrapalhado buscas, dizem bombeiros

 
Em entrevista coletiva sobre a atualização das buscas e atividades em Brumadinho, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais alertou para os problemas decorrentes da disseminação de notícias falsas, conhecidas também como fake news, sobre a tragédia e a atuação das autoridades na região. Mensagens vêm sendo divulgadas em redes sociais apontando um conjunto de fatos e problemas que não condizem com a realidade, segundo o porta-voz da corporação, tenente Pedro Aihara.

“O serviço das forças de segurança tem sido bastante prejudicado com fake news, notícias falsas. Toda a veiculação desse tipo de notícia, quando é falsa, ela prejudica, e muito, e atrasa o importante trabalho que a gente está fazendo em relação à recuperação desses corpos”, destacou o porta-voz em entrevistas a jornalistas.

O tenente do CBMG citou como exemplo conteúdos indicando a existência de sobreviventes que estariam em algum lugar da região. Quando são acionados por questionamentos ou pistas desse tipo, continuou, os bombeiros têm de ir atrás e conferir se no determinado local sugerido haveria ou não alguma pessoa que resistiu à tragédia.

Outro caso foi a divulgação de notícias segundos as quais os militares nas buscas estariam “intoxicados com a lama”. Aihara registrou que o Corpo de Bombeiros se baseia em laudos atestando o caráter não tóxico da lama, mas que ainda assim há procedimentos para evitar eventuais doenças nos oficiais. “Como nossos militares ficam durante longos períodos expostos a essa água, a gente ministra um antibiótico, principalmente para prevenir o contágio de leptospirose, mas específico para a atuação de bombeiro. A população em geral não precisa se preocupar com isso. Esse antibiótico só deve ser administrado na população em geral se ela apresentar sintomas”, explicou.

Além disso, o porta-voz informou que estão sendo coletadas amostras de lama em diversos pontos da região para análises próprias, de modo a confirmar se há ou não riscos a quem está trabalhando na área.

DOUTORA SIRLEI
Desastre matou professora crítica à Vale

 
Na manhã da sexta-feira (25), o bombeiro hidráulico Ernando Luiz de Almeida, 45, foi verificar a falta d'água na ampla casa de oito quartos que sua amiga, a professora universitária e secretária municipal de ação social Sirlei Ribeiro, 48, tinha num sítio cercado de mata a poucos metros do pátio de operações da Vale na Mina do Feijão, em Brumadinho. Ele parou sua moto e foi em direção a Sirlei, que saiu da casa já comentando que havia um barulho estranho no ar. "Que bagunça é essa, que zoeira é essa?", indagou Sirlei, segundo a memória de Almeida. Ele então reparou no barulho e sugeriu que podia ser um caminhão.

Almeida disse que então olhou para a direita e viu o muro balançar, "todo mudado, andando". Em instantes, o céu ficou coberto por uma nuvem de poeira. "O céu tudo escuro, escuro. Só deu tempo para eu gritar 'Sai, Sirlei, sai, corre, corre'", disse Almeida, que virou à esquerda e correu. Uma empregada na casa de Sirlei, Lita, foi junto. Quando chegou a uma pequena elevação, Almeida olhou para trás.

"Eu vi, posso ter tido uma ilusão de ótica, mas acho que vi a Sirlei no mesmo lugar [parada]. Eu vi que [a lama] pegou a casa, jogou para cima e caiu. Até então eu não tinha noção que era a barragem", disse Almeida. Após correr uns 500 metros, Almeida e a acompanhante encontraram na estrada um desconhecido num Fiat Uno e saíram em disparada com o carro. Passaram por baixo de um viaduto que desabou instantes depois. "Quando olhei para trás, o viaduto abriu as pernas. Nós fomos as últimas pessoas a passar pelo viaduto."

Almeida é a imagem da desolação pela perda de Sirlei, cujo corpo foi velado em Brumadinho, ontem. "Nós não perdemos uma amiga, a comunidade perdeu uma mãe", disse o morador do Córrego do Feijão, um bairro rural com cerca de 400 moradores.

Ele lembra que Sirlei era uma crítica costumeira da Vale e dizia temer pela segurança da barragem da mina do Feijão. "Lembro de uma reunião em que ela peitou o pessoal da Vale aqui no centro comunitário. Ela não tinha medo, não. Se ela estivesse aqui hoje, já tinha incendiado esse povo para resolver as coisas", disse Almeida.

Sirlei era nascida no Córrego e uma defensora ferrenha dos seus moradores, segundo vários relatos coletados pela Folha no bairro, que a chamam de "doutora Sirlei".  
 
NOVO ROMPIMENTO
Defesa Civil descarta risco na barragem 6

 
A Defesa Civil de Minas Gerais afirmou que a barragem 6 da Vale em Brumadinho não corre risco de se romper no momento. Em nota, o órgão disse que a estrutura está sendo monitorada 24 horas por dia e que está estável. Contudo, segundo o Governo de Minas, caso haja alterações na situação do reservatório, o aviso sonoro será ativado e a população em áreas de risco deve deixar imediatamente o local e se dirigir a um dos pontos de acolhimento.

No domingo (27), moradores de áreas próximas à barragem foram evacuados após alerta sonoro indicando possível risco de rompimento. Os trabalhos dos bombeiros também foram suspensos. No fim do dia, contudo, a situação do reservatório se normalizou e as buscas recomeçaram. O governo mineiro informou ainda que Brumadinho recebeu o reforço de 400 policiais, que se distribuem em 16 pontos de patrulhamento.
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