14/01/2019 às 09h57min - Atualizada em 14/01/2019 às 09h57min

Uma conversa que pode mudar tudo

Campanha de melhora da saúde mental chega à 6ª edição; projeto começou em Uberlândia e hoje está em vários países

VINÍCIUS LEMOS
Ação de conscientização sobre o Janeiro Branco realizada em praça pública | Foto: Divulgação
“Numa ação que fizemos na praça Tubal Vilela em Uberlândia, uma das psicólogas voluntárias abordou um senhor que estava bravo e dizia que iria para casa e mataria a mulher. Ela pegou no braço dele, conversou e disse que era para ele se acalmar, para sentar-se e conversar. Ao lado da praça havia um homem tocando músicas e a psicóloga disse a ele que ouvisse o som, sendo a maior parte regional do Nordeste, que era de onde o homem vinha. Ele se acalmou. Minutos depois a psicóloga o viu pedindo músicas do Luiz Gonzaga”.

O relato é do também psicólogo Leonardo Abrahão e dá conta de apenas uma das várias ações feitas por meio do projeto Janeiro Branco, que em 2019 chega à 6ª edição e visa a melhora da saúde mental brasileira. Uma ação que hoje já se estendeu a outros países. O detalhe é que o projeto nasceu em Uberlândia, por meio de ações que Abrahão passou a coordenar junto a colegas de profissão. O que chama mais a atenção é que uma conversa rápida e o incentivo para que sejam revistos hábitos para melhorar a saúde mental sejam, de maneira absolutamente simples, a grande sacada do projeto.

Dados do Corpo de Bombeiros de Uberlândia mostram que no ano passado 255 casos de suicídios tentados e consumados foram atendidos pela corporação. Dezembro foi o mês com a maior parte dos registros, sendo 35 ao todo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados pela coordenação do Janeiro Branco, apontam o Brasil como um dos países com maior taxa de pessoas com ansiedade no mundo, ao mesmo tempo em que figura entre os cinco países mais deprimidos do planeta.

Por conta dessa situação, Abrahão conta que em novembro de 2013 buscou ajuda de colegas para que pudesse fazer algo na promoção da saúde mental. A ideia se consolidou posteriormente no início de 2014, com a realização da primeira edição do Janeiro Branco. “A proposta era de palestras rápidas, de 5 a 10 minutos, em filas ou em empresas, e promover conversas. O objetivo era mostrar que a vida não é só trabalhar e pagar contas e que excessos podem fazer mal de diversas formas. Pensamos em cuidar do corpo, mas não da nossa mente”, afirmou Abrahão.

Nesse tipo de ação promovida pela campanha, o estímulo a uma reflexão sobre como está a vida no trabalho e nas relações interpessoais não passa necessariamente pela presença de um psicólogo ou qualquer outro profissional da área da saúde. Segundo explicou o precursor do projeto, o objetivo é incentivar a conversa, e não fazer uma consulta, mas isso não exclui a possibilidade de que um profissional seja procurado posteriormente para um tratamento, ou mesmo a possibilidade de diagnóstico de que há algum problema a ser tratado.
 
DESEQUILÍBRIO E MELHORA
 
Na visão de Leonardo Abrahão, o Brasil tem histórico violento ligado à exploração humana, como é o caso, por exemplo, do uso de mão de obra escrava por mais tempo que vários outros países. Ele, inclusive, lembra que uma das heranças disso é a banalização dos assassinatos atualmente. “[Isto é] Sintoma de nosso desequilíbrio, a violência de diversas formas. Apesar do Carnaval, do país da cerveja e da alegria brasileira”, cita.

A medida mais simples para tentar mudar essa situação é melhorar as relações consigo mesmo e com o outro. Abrahão defende que é necessário ter mais afetividade e chama a atenção para a abordagem descrita no início da reportagem, quando a psicóloga conversou com o homem na praça. Ou seja, o fato de a mulher buscar entender o que se passava com o homem e poder encostar em seu braço para que tivesse maior aproximação e atenção. Além da afetividade, o psicólogo acredita que é preciso ter maior presença nas relações familiares e atenção para o próprio ritmo. Ele cita como exemplos a comunicação mais simples e direta dos pais com os filhos e também tirar um tempo para si, o que pode, inclusive, melhorar a aproximação com a família e amigos. “Enchemos nosso dia e tempo de metas, mas não temos tempo uns para os outros”, disse.
 
CRESCIMENTO
Campanha foi parar do outro lado do planeta
 
Em 2016, o Janeiro Branco, a exemplo de ações como Outubro Rosa e Novembro Azul, que buscam prevenir o câncer em mulheres e homens, respectivamente, fez parte do calendário oficial de mais de 20 municípios e estados. Em Uberlândia, a Lei foi sancionada em 2016, tendo janeiro como mês da conscientização à saúde mental. Logo de início o projeto foi abraçado por pessoas em cidades vizinhas, como Prata e Tupaciguara, e posteriormente foi sendo aplicado em outras localidades fora de Minas Gerais. Hoje, já alcançou países como Estados Unidos, Espanha, Colômbia, Angola e Japão.

E foi do outro lado do mundo que surgiu uma das primeiras iniciativas de alavancar o projeto. Ketelen Machado Tanaka contou ao Diário que teve contato com a campanha ainda em 2017 por meio de uma palestra idealizada por Silvia Minami, realizada na cidade japonesa de Hamamatsu, para a comunidade local. “Eu já estava atuando profissionalmente com a comunidade brasileira e pensei na possibilidade de também contribuir para a expansão do Janeiro Branco. Foi aí que tive a oportunidade de ter contato com o Leonardo (Abrahão), em novembro de 2017, quando o convidei para fazer uma transmissão ao vivo, num canal de comunicação local - Portal Mie - e claro que, prontamente o Léo aceitou e fez a divulgação da campanha para a comunidade brasileira no Japão”, explicou.
Ainda de acordo com Ketelen Tanaka, em 2018 as ações envolvidas compreenderam também divulgações em redes sociais, transmissão ao vivo para grupo fechado local e divulgação de matéria via internet. A divulgação está abrangendo grupos menores com maior contato pessoal, segundo explicou Tanaka, contudo, permanece durante todo o ano. “As mídias sociais são as minhas maiores aliadas para atingir toda a comunidade brasileira no Japão”, afirmou.

LUANDA

Também por meio de um colega de profissão, o psicólogo Osvaldo Cabida teve contato com a campanha em 2016, durante um curso em Angola. À reportagem, ele contou que tempos depois entrou em contato com Leonardo Abrahão, que o convidou para ser o representante do Janeiro Branco no país. A campanha ganhou as ruas de Luanda depois da divulgação entre colegas da área da psicologia, além de universidades. “Realizamos uma caminhada em Luanda e foi muito bem recebido. Neste ano temos mais psicólogos e já organizamos em outros municípios e províncias. Temos tido uma receptividade que eu não esperava. Tem sido maravilhoso e nesse ano aumentamos o leque de profissionais compromissados com a mesma causa”, explicou.
 
RELATO
Assédio moral levou à situação de alta ansiedade
 
Foram cerca de quatro meses de trabalho como designer em uma empresa que levaram Lessayne Fonseca a uma situação que nem ela imaginava para si. “Me sentia mal toda vez que eu tinha que pegar o ônibus e saber que tinha que ir para lá [na empresa]. Muitas vezes eu ficava estressada com nada, coisa simples. Chorava às 7h da manhã ao ter que entrar na gráfica, quase todos os dias”, relatou. Segundo ela, o motivo real era a cobrança excessiva de sua chefia e a falta de percepção do que ocorria.

“A gerente se via dona de tudo ali, nada estava bom pra ela. Era grosseria atrás de grosseria, brincadeiras preconceituosas. Fora as vezes que chamava a atenção desnecessária na frente de cliente. Meus amigos perceberam meu estado e também meus pais. Conversaram com outros funcionários e viram que foi assédio moral”, relata. Por conta disso, mesmo após sua saída da empresa, ela precisou de ajuda profissional. Diagnosticada com alta ansiedade, Lessayne Fonseca ainda demorou um ano para se recuperar por completo. De acordo com ela, foram as conversas com o psicólogo e o alerta de pessoas mais próximas que fizeram com que ela abrisse os olhos para o problema pelo qual passou.
 
Como o Janeiro Branco pode ajudar as pessoas?
 
1 – Colocando os temas da Saúde Mental e da Saúde Emocional em máxima evidência na sociedade;
 
2 – Construindo, fortalecendo e disseminando uma “cultura da Saúde Mental” na humanidade;
 
3 – Contribuindo para a valorização da subjetividade humana e o combate ao adoecimento emocional das pessoas;
 
4 – Contribuindo para o desenvolvimento e a disseminação do conceito de ‘psicoeducação’ entre as pessoas e as instituições sociais;
 
5 – Contribuindo para o desenvolvimento e a valorização de políticas públicas relativas aos universos da Saúde Mental em todo o mundo.
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