14/01/2019 às 07h54min - Atualizada em 14/01/2019 às 07h54min

A arte de ensinar arte

Dançarina há meio século, a professora de dança Fernanda Bevilaqua transmite o seu conhecimento há 40 anos

IGOR MARTINS*
Foto: Yuji Kodato/Divulgação
O que seria da vida sem a arte? Qual seria a graça de viver em um lugar sem cinema, teatro ou dança? Imagine você fazer um churrasco com amigos e não ter sequer uma música para cantarolar. É por meio deste ofício que nos emocionamos, dançamos, gritamos, cantamos, rimos e choramos. Para Fernanda Bevilaqua, dançarina mineira de 54 anos, o saber artístico se dá por diferentes formas e formatos, e todo o conhecimento cultural deve ser transmitido e de geração para geração. Ela descobriu que melhor do que criar arte, é ensiná-la.

Fernanda Bevilaqua é natural de Uberlândia, mas passou toda a sua infância e adolescência na cidade de Belo Horizonte. Foi por lá que ela descobriu duas de suas maiores paixões: a dança e a educação. Com apenas quatro anos de idade, a uberlandense foi matriculada pelos pais para fazer aulas de ballet clássico em sua escola regular. Desde então, a diretora artística do Uai Q Dança não parou mais de dançar e se orgulha de ter escolhido este caminho já tão jovem.
A bailarina que dança há meio século tem muita história para contar. Ela passou pela Escola de Belas Artes, dos 7 aos 10 anos, e pela Ballet Le Papillon, de 10 aos 17. A professora disse que a última escola foi fundamental para o seu desenvolvimento profissional, criativo e artístico. Além de ter aprofundado o seu conhecimento em ballet, ela também aprendeu a dançar jazz, sapateado, dança moderna e contemporânea. Além do mais, a instituição permitiu que a mineira desse os primeiros passos como educadora, aos 14 anos de idade. “Eu ficava o dia todo na escola. Terminava a minha aula, eu ia para outra só para ficar observando a professora e as bailarinas. As pessoas percebiam isto, e foi aí que consegui a oportunidade de estagiar dando aulas para adultos e crianças”, lembrou a uberlandense.

A paixão pelo palco e pelos diferentes estilos de dança fez com que Fernanda Bevilaqua construísse o seu caminho no meio artístico. A convivência com profissionais e professores permitiu que ela fizesse apresentações e aprendesse mais sobre a área cultural. Mesmo assim, ela conta que a sua ambição nunca foi ser uma bailarina profissional. “A minha grande paixão sempre foi a de dar aula, ser professora. Minha mãe diz que eu chegava em casa depois da aula, pegava as minhas bonecas e dava aulas para elas”, brinca. Hoje, ela conta com orgulho que o apoio dos pais foi fundamental para que ela se tornasse uma pessoa e profissional conhecida e respeita no meio em Minas Gerais.

A família Bevilaqua ficou em Belo Horizonte até os 20 anos de Fernanda, quando regressaram a Uberlândia. À época, a já mulher conciliava a vida de dançarina, aulas de dança e faculdade de Letras, que conseguiu transferir para a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Mesmo com um retorno complicado, a professora começou a dar aulas na Academia de Artes Música e na academia Forma.

O alto número de aulas deixou sua agenda complicada, o que levou a uberlandense trancar tanto a sua faculdade que acabou sendo jubilada do curso. Com um foco maior em suas turmas e buscando se profissionalizar cada vez mais, ela decidiu montar o seu espaço com o seu próprio grupo de dança.

UAI Q DANÇA

O grupo “Uai Q Dança” foi criado em 1990. A criadora brinca que no início, o nome não era esse conhecido hoje. Antes de chegar a ele, passou por “Uai De Dança” para “Uai Que Dança”, até chegar ao resultado atual. No começo, segundo Fernanda, a intenção era o Uai Q Dança ser um grupo de bailarinas ensinadas por ela para se apresentarem eventualmente. Junto com seu marido, Eduardo, eles alugavam espaços para que as aulas fossem lecionadas. O sucesso foi tamanho que após um ano, em 1991, o grupo virou uma escola no bairro Brasil.


A uberlandense, que é especializada em eutonia, prática corporal que busca equilibrar as tensões do corpo humano, afirma que seu companheiro foi muito importante para a consolidação e empreendimento da Uai Q Dança como escola. “O meu marido (Eduardo Bevilaqua) foi muito guerreiro. Ele fez uma especialização em administração de cultura na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo. Tenho muito a agradecer a ele”, disse Bevilaqua.
Seis meses depois da abertura da unidade no bairro Brasil, a escola passou para o Fundinho, na Rua Felisberto Carrejo, onde está localizada até hoje. No começo, Fernanda recorda que o colégio de dança tinha só uma sala. Hoje, ela se orgulha da ampliação do local, que conta com três salas, incluindo um espaço cultural, onde os alunos se apresentam para 92 pessoas. “É um espaço onde a gente pode criar nossos projetos da nossa maneira. Temos muito orgulho disso”, comentou a diretora artística do local.

A “Uai Q Dança” completa em 2019, 29 anos. A escola oferece aulas de dança infantil de 3 a 5 anos. Para pessoas com mais de 6, são oferecidos cursos de ballet, hip hop, sapateado, jazz, dança moderna e contemporânea. Para Fernanda, o principal diferencial de sua escola é a maneira com que os alunos são ensinados. Além de aprenderem a técnica, os estudantes aprendem sobre o corpo humano, como o sistema ósseo e articular. “Assim, o aluno começa a entender os motivos de limitação do nosso corpo, e começa a trabalhar no limite dele”, afirmou.

Segundo ela, o trabalho mais importante realizado pela instituição é a evolução do saber artístico dos alunos. “Na arte o que mais importa é o quanto você pode se sentir criador. Tivemos alunos que estudaram aqui 15, 20 anos, tiveram filhos. Os filhos destas pessoas hoje estudam aqui. É muito gratificante e temos muito orgulho de termos colaborado no desenvolvimento criativo e de ser humano das pessoas”, afirmou.

Descrente no governo atual, Fernanda Bevilaqua não espera que a classe artística receba qualquer tipo de incentivo cultural nos próximos quatro anos. “Eu não votei neste governo. Precisamos de políticas públicas que ajudem os artistas. Nós [artistas] precisamos ser fortes e nos unir. Temos que resistir e fazer oposição”, disse.

Mesmo assim, ela confia que a Uai Q Dança tem muito a contribuir culturalmente para Uberlândia. De acordo com ela, 2019 será um ano muito intenso e promete muitas apresentações para os cidadãos da região. Com vários projetos em mente, ela disse que a escola inicia o ano com o pensamento: “Evento é vento. Em 2019, queremos brisa contínua”. É dessa maneira que a bailarina continuará deixando o seu legado transmitindo a arte para as outras pessoas.
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