30/12/2018 às 08h00min - Atualizada em 30/12/2018 às 08h00min

Ser mãe após os 40 é cada vez mais comum

Número de gestantes com mais de quatro décadas de vida aumentou quase 50% desde os anos de 1990 no Brasil

MARIELY DALMÔNICA
A secretária Lindamar Ferreira ao lado da filha, Brenda, hoje com 14 anos | Foto: Digulgação
Há algum tempo, a ideia de que a mulher nasceu para casar jovem, ter filhos e trabalhar apenas cuidando da casa vem sendo deixada de lado e está dando lugar à realidade de mulheres que optam em focar primeiramente nos estudos e na carreira profissional para só depois constituir, ou não, uma família. Um dos reflexos dessa realidade pode ser sentido no aumento do número de mulheres que viram mães em idade mais avançada. 

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o número de gestantes com mais de 40 anos subiu 49,5% em 20 anos, saindo de 51.603, em 1995, para 77.138, em 2015. Desse total, 72.290 mulheres tinham entre 40 e 44 anos quando deram à luz, 4.475 tinham entre 45 e 49 anos, e 373 tinham mais de 50. 

Em Uberlândia, segundo a Secretaria de Saúde, dos 9.649 bebês nascidos até novembro de 2018, 14,9% eram filhos de mães com mais de 35 anos, número semelhante ao ano passado, quando 14,4% das gestantes se enquadravam neste grupo.

Rosana Rodrigues está entre as 1.444 mulheres de Uberlândia com mais de 35 anos que deram à luz em 2018. Ela se formou em arquitetura e design de interiores, se casou, e depois de algum tempo, viu que ainda faltava algo em sua vida. Com 41 anos, se tornou mãe do Matheus, que acabou de completar um mês de vida. 

“Sempre priorizei a minha vida profissional. Tinha várias metas e sonhos, e quando os 40 foram chegando, percebi que já era hora de ter um filho”, disse Rosana, que engravidou naturalmente e teve apenas um susto durante a gestão, a diabetes gestacional, o que fez com que Matheus nascesse algum tempo antes do esperado. 

Para a arquiteta, engravidar depois dos 40 foi uma boa escolha e uma experiência renovadora. “Vejo que estou mais madura e dou importância e valores a outras coisas. Viajei, aproveitei e hoje vejo que estou pronta para me dedicar a ele, mesmo não sendo uma missão fácil. Não comparo a minha idade com a dele, vivo um dia de cada vez”, disse.

A secretária Lindamar Ferreira é a mais velha de cinco irmãos e foi a última a ter um filho na família. Mesmo com o sonho de se tornar mãe, ela priorizou os estudos, se mudou do Brasil para trabalhar na Bélgica, e só bem longe da família descobriu a gravidez, aos 40 anos. “Eu sempre pensei muito [em ser mãe]. Eu não encontrava a pessoa que sonhava e era dedicada apenas ao trabalho. Não me programei para ser mãe com essa idade, mas foram as consequências da vida”, disse. 

Depois de levar um susto com a gravidez, Lindamar voltou para o Brasil e deu à luz a Brenda, hoje com 14 anos, em Uberlândia. Ela não teve nenhuma dificuldade durante a gravidez e Brenda veio cheia de saúde. 

Para Lindamar, a filha foi uma surpresa muito boa, que veio na hora certa. “Eu não casei com o pai dela, mas nada me desanimou, consegui oferecer uma vida boa para ela, me casei e meu marido tem ela como filha. Somos uma família muito feliz”, disse. 

MEDICINA

De acordo com a ginecologista Silvia Helena Caires, a medicina se adaptou bem, nestes últimos 20 anos, à realidade de mulheres que priorizaram a carreira e a profissão para depois formar uma família. “A obstetrícia foi se adaptando às necessidades e a reprodução assistida cresceu muito no Brasil.”

Segundo a ginecologista, o envelhecimento dos óvulos é mais evidente a partir dos 35 anos, o que pode dificultar a gravidez para algumas mulheres, mas sem impossibilitá-la. O ideal é que a mulher se programe caso deseje passar pela experiência da maternidade nesta idade. 

“O congelamento dos óvulos é uma maneira para dar segurança, mas é uma opção muito cara e uma escolha pessoal. Quando a mulher tem uma grande consciência da saúde, tem mais chances de ter uma gravidez de forma natural próximo aos 40 anos”, disse Silvia. 

Ainda de acordo com a ginecologista, o acompanhamento durante a gestação de mulheres com mais de 35 anos não é muito diferente do que efeito com grávidas em idades mais jovens. “Só fazemos alguns exames extras. Todo mês uma mulher saudável tem chance de engravidar; a diferença é que a partir dos 35 essa fertilidade vai diminuindo.” 

GRANDE FAMÍLIA

A cabeleireira Priscila Gatti tem 42 anos, é mãe da Jéssica, de 25 anos, do Pedro, de 15, da Valentina, de 11, e da Pietra, que nasceu há dois meses. “Sou extremamente fértil. Inclusive, estava evitando, mas tive um problema com o DIU [dispositivo intrauterino] e tive que ficar um tempo sem. Entendo que foi um presente de Deus na minha vida”, disse.

Priscila, que sempre sonhou em ter filhos, deu à luz a Pietra com 36 semanas de gravidez e precisou acompanhar a filha por 15 dias no hospital, mas disse que toda a experiência tem sido maravilhosa. “Sou uma cabeleireira experiente, mas falo que meu melhor papel é o de ser mãe. Essa doação, esse amor incondicional é algo maravilhoso”, afirmou a mãe.

Depois de tanto ajudar a mãe com a maternidade, Maria José deixou para ser mãe só após os 35 anos. “Eu me sentia cansada, mas sempre quis ter um filho, até por produção independente. Tive a primeira com 35 e a segunda com 39 anos”, afirmou. 

Ela é filha de Iraides Borges, 86, que teve sete filhos, todos de parto normal. O último, Júnior Eurípedes, nasceu quando ela tinha 44 anos. “Não tinha remédio para parar de criar, a dona da fazenda onde a gente morava pelejou comigo, mas eu não aceitava, queria ter muitos filhos”, disse Iraides.


Cabeleireira uberlandense Priscila Gatti tem 42 anos e deu à luz há dois meses a Pietra | Foto: Divulgação
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