24/10/2018 às 07h40min - Atualizada em 24/10/2018 às 07h40min

Novo golpe de compra e venda de carro é aplicado na cidade

Vítimas jovens e esclarecidas têm caído na lábia de criminosos com alto poder de persuasão

NÚBIA MOTA
Vítima tentou vender o veículo pela internet e ficou sem o carro e sem o dinheiro | Foto: Da redação
“É dinheiro para um lado e bem para o outro”. É essa a principal dica que o delegado regional da Polícia Civil (PC) Luciano Alves dos Santos dá para o cidadão ficar livre de um novo golpe aplicado pela internet. O caso mais comum visto em Uberlândia e que anda lesando pessoas jovens e esclarecidas são as transações de compra e venda de veículos usados por meio de sites especializados. No fim das negociações, o comprador ou o vendedor acaba ficando no prejuízo.

Uma vítima contou ao Diário de Uberlândia como perdeu um carro Celta ano 2007 na última sexta-feira (19) e só descobriu o golpe depois de transferir o veículo para um advogado de Montes Claros (MG), que também não sabia do crime. O golpe ocorreu da seguinte maneira: o assistente comercial de 22 anos, que preferiu não ter o nome divulgado, colocou o carro à venda em um dos maiores aplicativos de negociação do País.

O carro estava sendo anunciado por R$ 14 mil no aplicativo. O estelionatário fez uma cópia do anúncio postado pelo verdadeiro vendedor, alterou algumas informações e passou a anunciar na web por R$ 10 mil. A pessoa que falsificou o anúncio então fez o contato com o proprietário do veículo. O estelionatário entrou em contato via WhatsApp e disse estar interessado em negociar em nome de um cunhado, que também iria procurar o vendedor. 
“Esse intermediário se identificou como Walter e disse para eu não comentar nada de valor com o cunhado dele, porque eles estavam brigados e ele estava devendo um dinheiro para esse cunhado. Por isso ia comprar o carro para quitar a dívida”, disse a vítima. Neste momento, o estelionatário já ludibriava tanto o comprador, quanto o vendedor. 

O comprador, que era de fora da cidade, pediu a um amigo em Uberlândia para procurar a vítima e ver o carro. Com a aferição do veículo, o comprador então aceitou fechar negócio. Porém, a negociação ocorria por meio da lábia do estelionatário. Tanto vendedor, quanto comprador haviam sido orientados a não aprofundarem sobre preços e condições da negociação, pois confiavam que Walter seria representante de ambas as partes. 

A história parece confusa e ao mesmo tempo soa incoerente. Mas assim são os golpes: há sempre um bandido com alto poder de persuasão iludindo as vítimas. 
Após o acerto de valores, e ao invés de pagar ao dono do carro, o comprador enviou o dinheiro ao intermediário por meio de uma conta aberta em Cuiabá (MT). Ou seja, o comprador confiava que o dinheiro seria transferido ao vendedor, porém, o dinheiro foi parar na conta de Walter, que articulou toda transação, mesmo sem conhecer nenhum dos envolvidos. 

Um comprovante falso dando a entender que o depósito havia sido feito foi enviado ao vendedor. Assim, houve a transferência do veículo ao advogado que comprou o carro. Porém, o dinheiro que aparecia em extrato, não estava realmente na conta do vendedor, que só descobriu a falcatrua após consultar o recibo diretamente no banco. 

O advogado que viajou mais de 600 km entre Montes Claros e Uberlândia chegou a desconfiar do vendedor, achando que era ele o estelionatário. Afinal, ele fez o depósito de R$ 10.500 ao estelionatário, sem saber que Walter não representava o vendedor. Como o carro foi transferido, o advogado acabou levando o Celta e deixou o prejuízo para trás.

“Ele [estelionatário] tinha muita lábia e disse que ia transferir o dinheiro para mim e eu acreditei. Eu estava com pressa, precisando muito do dinheiro, porque vou casar daqui dois meses e ia pagar umas coisas que faltam. Isso tudo abalou até meu relacionamento com minha noiva”, disse o assistente comercial.
Segundo o advogado Marco Túlio Bosque, esse tipo de crime vem acontecendo com certa reincidência e por ser novo, tem feito vítimas pessoas mais jovens, que geralmente não cairiam em outros golpes, como do falso sequestro, por exemplo. “A conversa é sempre a mesma. Eles dizem ‘Estou interessado no seu carro, meu primo vai te procurar’ e ‘Não estou na cidade, mas vou fazer um depósito’. Depois eles fazem um depósito com o envelope vazio e mandam a foto do comprovante para o dono do carro”, afirmou o especialista. 

Ainda segundo Marco Túlio, geralmente esses criminosos deixam rastro, seja pelo telefone ou conta bancária utilizada, mas o inquérito policial é muito lento e o caso demora a ser resolvido. “Dependendo do número de pessoas que estiverem envolvidas, ainda pode configurar como organização criminosa. O crime de estelionato tem pena de 1 a 5 anos, mas se aplicado sobre o idoso a pena dobra”, afirmou. 

CUIDADOS
Se o carro não estiver em nome do dono, corra

Para o delegado regional da PC, Luciano Alves dos Santos, a internet serve como veículo para aproximar as pessoas, mas não para celebrar um negócio. O primeiro cuidado que o comprador precisa ter é saber se o carro está no nome da pessoa que está fazendo a negociação. “Se não for dele, corre. O dinheiro tem que ser depositado na conta do proprietário do veículo. O ideal é transferir o dinheiro, sair para o cartório, os dois preenchem o recibo e assinam. Qualquer procedimento que fugir disso, pode desconfiar. Já o vendedor, precisa desconfiar caso o comprador não pedir um desconto, porque todo mundo dá uma pechinchada”, disse o delegado.

Luciano ainda sugere que o comprador procure por empresas especializadas em vistoria credenciadas à Superintendência de Seguros Privados (Susep), para fazer o check list do carro e da documentação. “Para não ter dor de cabeça, tem de comprar do comerciante, que tem responsabilidade no Código de Defesa do Consumidor, ou de uma pessoa conhecida. Se for comprar de um desconhecido, é preciso pesquisar a vida dele na internet. Olhar no site do Tribunal Regional do Trabalho, do Tribunal de Justiça, no Tribunal Regional Federal, para ver se a pessoa não tem ação na justiça, se o bem não é penhorado. A pessoa tem que perder um tempinho. Pegar o número de documento, Renavan, placa e chassis”, afirmou Luciano. 

Mesmo com a negociação feita, e o dinheiro ou carro garantido, ambas as partes precisam ainda ficar atentas à transferência do veículo. “O recibo precisa estar em branco, não pode estar com o nome de outro, senão nunca vai conseguir transferir o carro. Só o dono do carro, que está na base de dados do Settran, pode pedir a segunda via do recibo. E precisa comunicar no Detran essa transferência. Tem casos demais de pessoas que não desvinculam do carro, e acabam recebendo multa, ou vão vender um imóvel e não conseguem,  porque esse carro ainda está no nome dele e gerou um débito e uma autuação por IPVA”, disse o delegado regional. 


Delegado Luciano Alves diz que a internet serve como veículo para
proximar as pessoas, mas não para celebrar um negócio
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