01/10/2018 às 08h19min - Atualizada em 01/10/2018 às 08h19min

Mais de 70% dos brasileiros têm problemas com sono

Preocupação com trabalho e questões financeiras compromete; distúrbios mais comuns são insônia, ronco e apneia

MARIELY DALMÔNICA
Mariana e José Allison tiveram que mudar hábitos e usar medicação para regularem o sono | Foto: Divulgação
Dizem que os opostos se atraem. Os empresários Mariana Sabina e José Allison Izidro namoram há 2 anos e 10 meses e sabem bem o que é isso. Enquanto ela dormia durante os filmes que os dois tentavam assistir juntos, ele assistia a TV e ainda lia livros antes de pegar no sono. Atualmente, os dois mudaram alguns hábitos e estão fazendo uso de medicações para regularem o sono.

De acordo com um estudo feito no início deste ano pela Royal Philips – empresa voltada à saúde e bem-estar -, a maioria das pessoas da América Latina não tem um horário fixo para ir se deitar e dorme menos de 7 horas por dia. No Brasil, só 44% dos entrevistados têm um horário certo para dormir, e 59% deles se sentem mais culpados por não fazerem exercícios físicos, do que por não dormirem bem à noite.

Entre os entrevistados do País, 72% sofrem de condições que afetam o sono de forma negativa, como insônia, ronco, apneia obstrutiva do sono e narcolepsia. Grande parte dessas pessoas se preocupa demais com o trabalho (36%) ou com questões financeiras (45%).

Há dois anos, Mariana passou a ter muita sonolência durante o dia, mas só há quatro meses descobriu o real motivo, a depressão. “Eu fui diagnosticada assim que comecei meu tratamento, eu dormia muito para diminuir algum problema. O médico me disse para estabelecer a hora de dormir e de acordar, eu passei a tomar um antidepressivo e um remédio para dar disposição durante o dia, depois de dois meses já comecei a sentir diferença no meu dia, tenho mais disposição e o sono não me atrapalha tanto”, conta.

Atualmente, Mariana e o namorado assistem televisão juntos e conseguem dormir bem durante a noite. “Agora nós nos entendemos, sempre nos encontrávamos à noite, e eu dormia muito rápido. Hoje eu tenho mais disposição para fazer as coisas e me sinto mais viva”, afirmou.

O namorado de Mariana, José Allison, já tinha dificuldade para pegar no sono, mas neste ano a insônia passou a ser um problema. “Eu passei a não só ter dificuldade para dormir, mas também para fazer qualquer outra coisa à noite, como ver um filme ou ler algum livro, minha mente ficava a mil, e eu não conseguia me distrair com outra coisa. Foi quando procurei ajuda médica e passei a tomar remédios. Eles me ajudaram bastante, hoje durmo tranquilo e não sinto ‘ressaca’ dos medicamentos durante o dia. A insônia que tenho é consequência da ansiedade, e segundo o meu psiquiatra está associada à depressão”, disse.

Agora, Mariana passa mais tempo acordada e o namorado, dormindo. “Confesso que morria de inveja da facilidade que ela tinha para pegar no sono e também tinha medo da minha agitação acabar atrapalhando a noite de sono dela”, contou José Allison.

Além de tomar medicação, o casal faz atividades físicas prescritas pelos médicos. “Não vamos à academia, treinamos calistenia na praça, porque achamos que o ar puro vai nos ajudar mais. Está sendo muito bom para nossa saúde física e mental”, disse Mariana.
 
CONTANDO CARNEIRINHOS
 
De acordo com o neurologista Alberto Peregrino, os distúrbios mais comuns do sono são insônia, ronco e apneia. “Existem 90 causas para a insônia, as duas mais frequentes são a ansiedade e a depressão. Geralmente, quem tem ansiedade demora a dormir e quem tem depressão acorda durante a noite. Quem toma muita bebida estimulante, como café, ou tem algum trabalho muito estressante, também pode demorar a dormir. Tem pessoas que já nascem com a tendência de ter um sono leve. A maioria dos problemas de insônia podem ser resolvidos sem remédios, alguns podem ser resolvidos em pouco tempo e em outros casos é necessário o auxílio de um psicólogo”, afirmou o médico.

O ronco também é um problema conhecido, e segundo o neurologista, muitas pessoas que roncam também podem ter apneia, que são paradas respiratórias repetidas durante a noite. “Muitas vezes a apneia é descoberta durante o exame de polissonografia. Nele, o paciente dorme uma ou duas noites no laboratório de sono para ser analisado. Não existe remédio para ronco e apneia, pode ser usada uma máscara nasal ou um aparelho intra oral, ambos podem diminuir a sonolência durante o dia e o risco de doenças cardiovasculares, como infarto e hipertensão”, disse Alberto.

Crianças também podem ter apneia do sono, mas segundo o médico, a criança que ronca geralmente tem alguma obstrução e deve se consultar com algum otorrinolaringologista pediátrico.

Segundo o médico, depressão, hipertireoidismo e narcolepsia também podem causar sonolência. “Na narcolepsia, a pessoa tem ataques de sono incontroláveis, cochila durante uma conversa, em pé na fila de um banco”, disse o neurologista.
 
Mesmo trabalhando muito e ficando grande parte do dia fora de casa, a manicure Nelza Almeida tem raras noites boas de sono. “A insônia na minha vida é constante, eu atribuo ela à minha rotina cansativa e estressante. Tento ir para cama no máximo 22h30, durmo em 10 minutos, mas acordo 1h e pouco da manhã, fico umas 2 horas acordada e os pensamentos vêm fervilhando na mente, penso na cliente que vai chegar de manhã, na filha que mora longe, nos boletos para pagar”, diz.

Nelza nunca procurou um especialista para tratar a falta de sono, mas já buscou algumas alternativas. “Um reumatologista me passou o Rivotril, mas ele deixa muito ‘ressaca’ no dia seguinte, não quis continuar tomando. Também tomei Dramin para dormir, mas tento evitar. Hoje eu não uso mais celular antes de dormir, sempre me deito no quarto escuro e já tomei dezenas de chás. Antes eu trabalhava até às 20h, hoje quando dá 18h já não quero fazer mais nada, só ir para casa, tomar um banho e descansar”, afirmou.

Nelza Almeida atribui sua falta de sono à rotina cansativa e estressante | Foto: Divulgação

SMARTPHONE
Uso de tecnologia à noite dificulta o horário de sono

 
Para o educador físico e pesquisador em neurociência Eduardo Henrique Santos, o comportamento das pessoas na hora de dormir mudou ao longo dos anos. “A minha avaliação, baseada em levantamentos epidemiológicos feitos no Brasil, é que as pessoas estão dormindo cada vez menos e isso afeta a memória, a atenção e aumenta a sonolência diurna. Pode ser por ficar acordado até mais tarde ou por ter feito várias atividades. O grande problema da tecnologia é que o uso de computador e de smartphone próximo ao horário de dormir dificulta o horário de sono. Essa “luz azul” inibe a melatonina, hormônio do sono”, disse.
Algumas pessoas pensam que dormir é um luxo ou um desperdício de tempo, segundo Alberto Peregrino. “O sono é muito importante para nosso equilíbrio físico e mental. Dormir bem é mais importante do que comer. A privação de sono pode abrir portas para várias doenças. Durante o sono são produzidos vários hormônios, como o do crescimento”, afirmou.

Alberto Peregrino: “Muitas vezes a apneia é descoberta durante o exame de polissonografia” | Foto: Mariely Dalmônica
Para o neurologista, cochilar após o almoço faz bem e cada pessoa tem uma necessidade de horas de sono diferente. “Isso é genético. E algumas idades também se diferenciam, um bebê precisar dormir até 18 horas nos primeiros meses, e o adolescente precisa dormir 9 ou 10h por dia. Ele sofre, porque na maioria das vezes estuda de manhã, se ele tem tendência a dormir tarde, sempre vai para a aula com sono.”


Alberto Peregrino: “Muitas vezes a apneia é descoberta durante o
exame de polissonografia” | Foto: Mariely Dalmônica
 
HIGIENE DO SONO
 
Segundo Eduardo Henrique, muitos estudos mostram que atividades físicas trazem um benefício positivo para quem tem algum distúrbio de sono. “O exercício físico é um tratamento não farmacológico. Como não sou médico, digo para procurar dormir e acordar sempre no mesmo horário, fazer refeições distantes do horário de ir pra cama, evitar álcool e café próximo ao horário de dormir.”

Os dois especialistas indicam a “higiene do sono”, prática comportamental para conseguir dormir melhor.
Segundo Alberto, o ideal é acordar sem o despertador. “Mas muita gente não pode fazer isso. Outra dica é reservar 30 minutos por dia para descarregar os problemas, pode xingar e chorar. Na hora de dormir seu cérebro vai estar enxuto”, disse o neurologista.
 
Regras básicas da “Higiene do sono”
Estipular um horário para dormir
Dormir em um ambiente mais escuro possível
Não ligar a televisão, usar o celular ou o notebook 1h antes de dormir
Dormir em um ambiente silencioso
Só se deitar quando tiver sono
Usar a cama apenas para dormir e fazer sexo
Pode ler antes de dormir, mas só sentado e algo que não tenha a ver com trabalho ou estudo
Evitar bebidas como café, refrigerante, chá preto, chá mate e chá verde
Fazer exercícios aeróbicos de manhã ou até 3h antes de dormir

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