23/09/2018 às 07h21min - Atualizada em 23/09/2018 às 07h21min

Universidade pública é prioridade

No sonho de um futuro bem-sucedido, estudantes focam na primeira opção, mesmo que aprovação no vestibular leve mais tempo

MARIELY DALMÔNICA
Priscila: “nunca tive uma segunda opção, ou era a Veterinária, ou não era nada” | Foto: Divulgação
Ser aprovado em um curso superior logo após concluir o ensino médio não é algo incomum, mas de acordo com dados da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), apenas uma minoria dos candidatos foi aprovada de primeira nos cinco cursos mais concorridos no último vestibular da instituição. Apenas 18,9% dos alunos de Medicina, 35,8% de Direito, 23,6% de Medicina Veterinária, 40,5% de Odontologia e 48,7% de Psicologia que ingressaram no meio deste ano na UFU, terminaram o ensino médio em 2017 ou 2018.

Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), Uberlândia conta com 10 faculdades particulares, que têm entre dois e 44 cursos superiores, além da UFU, que tem 81 cursos só na cidade. Mesmo com tantas opções, a maioria dos vestibulandos da cidade deseja entrar na federal de Uberlândia ou em outra universidade pública do País.

Esse é o caso de Anna Giulia Gratão, de 18 anos, que se matriculou em um cursinho pré-vestibular em janeiro deste ano para se preparar para o curso superior que decidiu cursar há 10 anos. “Sempre quis cursar Veterinária, com oito anos, já tinha certeza. Eu vou para o cursinho às 8h e fico até as 13h, almoço e estudo em casa até à noite todos os dias, de segunda a segunda. Estou aberta para me mudar, onde eu conseguir passar, eu vou, não posso perder uma oportunidade dessas”, contou a estudante. 

A estudante de Medicina Veterinária Priscila de Castro, de 24 anos, ingressou com 17 anos na UFU e não precisou sair da cidade natal para realizar o sonho de infância. “Eu nunca tive uma segunda opção, ou era a Veterinária, ou não era nada. A vida toda estudei em escola pública e não fiz curso preparatório, mas ainda assim eu consegui ingressar, fui aprovada pelo Paaes [Programa de Ação Afirmativa de Ingresso no Ensino Superior, que foi extinto em 2012]. Tive muita dificuldade ao longo do curso e meu tempo total de graduação será de sete anos e meio. Precisei trabalhar e não soube conciliar os estudos, isso prejudicou meu rendimento e eu precisei definir o que era prioridade, e claro, escolhi os estudos”, contou a estudante. 

Hoje, Priscila se dedica exclusivamente aos estudos e ao estágio, na área em que ela deseja continuar atuando quando se formar. “Descobri ao longo do curso muitas áreas em que eu poderia trabalhar. Nos últimos três anos, percebi que avicultura é a minha verdadeira paixão e o que eu mais quero é poder me sentir realizada trabalhando nesse ramo”, afirmou.

O MAIS CONCORRIDO 

De acordo com informações da UFU, o curso de Medicina foi responsável por mais da metade dos inscritos no último vestibular. Foram 14.086 candidatos para apenas 60 vagas disponíveis. Na ampla concorrência, a relação candidato-vaga foi de 351,7, ou seja, 30 vagas e 10.552 candidatos. Os outros quatro cursos mais concorridos passam longe: Direito teve 1.901 inscritos; Psicologia, 1.027; Odontologia, 989; e Medicina Veterinária, 912.

Mauro Almeida, diretor de pré-vestibular, trabalha há 25 anos com vestibulandos e conta que muitos almejam cursar Medicina. “Continua sendo o curso mais procurado, muitos querem seguir essa carreira, e é um curso caro em faculdades particulares. É um curso que produz uma demora de acesso, temos alunos se preparando por um tempo maior. Existe uma média de dois anos e meio a três anos para que o aluno possa ingressar. A maioria dos meus alunos tem entre 17 e 19 anos, mas também recebemos pessoas mais velhas em busca de uma segunda graduação”, disse o diretor. 

Depois de cinco anos estudando e prestando vestibulares em diferentes cidades do Brasil, Layla Paulino, que chegou a morar a 1 mil km de casa, há dois anos foi aprovada no curso superior que sempre sonhou em uma das universidades que mais desejava estudar. Agora, a estudante de 26 anos está cursando o quinto período de Medicina e contando os dias para se tornar o que sempre quis. 

“Venho de uma família onde poucos tiveram a oportunidade de fazer uma graduação. Minha mãe não tinha muitos recursos financeiros, no entanto, nós duas tínhamos muita fé, determinação e um sonho para ser realizado. Muitas pessoas diziam: "troca de curso" ou "Medicina é para rico", mas eu não tinha um plano B e não pretendia trocar depois de tanto tempo tentando e do investimento da minha mãe, que me matriculou em um cursinho. Nesse tempo, tive que trabalhar para manter meu cursinho e isso não atrapalhou meu desempenho, foi o período em que eu mais aprendi, pois tinha que organizar bem meus horários de estudo, cursinho e trabalho”, contou Layla. 

Em 2015, a estudante foi finalmente aprovada em Medicina, na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. “Coloquei meu sonho na bagagem e fui. Fiz quase dois períodos quando abriu o Sisu [Sistema de Seleção Unificada]. Eu sabia que minha nota dava para voltar para perto de casa, então, em 2016 eu me mudei de Cuiabá para Uberaba e recomecei o curso de Medicina na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a 96 km de casa. Deus é tão perfeito em cumprir suas promessas, a UFTM estava nos meus sonhos e sempre esteve entre as minhas escolhas”, disse Layla. 

Para Layla, desistir nunca foi uma opção, e futuramente a estudante deseja se especializar em Medicina de Família e Comunidade e depois em Cardiologia. “Eu tinha uma frase clichê que eu repetia quando desanimava: ‘Nunca desista de um sonho só por causa do tempo que você vai levar para realizá-lo’, e até hoje essa frase me ajuda muito. Algumas pessoas vão passar direto do 3° ano ou com um ano de cursinho, mas cada pessoa tem uma bagagem e histórico de vida diferente.”

Gabriel Ribeiro, 23 anos, segue o exemplo de Layla e não se importa com o tempo que vai levar para conseguir ser aprovado em Medicina. Ele sempre teve o desejo de seguir esse caminho, mas o deixou de lado por um tempo. “Acabei adiando por achar que havia outras opções além de passar anos dentro de um cursinho estudando. No ano de 2014, fui aprovado no curso de Jornalismo da UFU e cursei até 2016. Foi uma experiência muito boa pra mim, mas percebi que não tinha perspectivas profissionais na área e resolvi buscar novos ares”, disse o estudante. 

Atualmente, Gabriel se dedica aos estudos diariamente para conseguir uma vaga em alguma universidade pública. “Hoje em dia eu costumo fazer mais exercícios do que estudar teoria, tem sido mais eficaz. Meu foco para esses próximos seis meses é a parte de biologia, física e química, que tem um peso maior no Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Não me arrependo em momento nenhum de ter cursado Jornalismo, sinto que foi importante para eu ter a maturidade de tentar a aprovação em Medicina”, afirmou. 

DEDICAÇÃO
Só o diploma não abre portas, diz especialista


Marta Ajej, psicóloga e coordenadora de cursos superiores, acredita que o ensino superior deve ser uma prioridade para os estudantes. “O mercado de trabalho não está com muitas vagas, e quem tem curso superior, sai na frente. Mas só o diploma não abre muitas portas, a pessoa também tem que escolher uma boa faculdade, fazer um bom curso, se dedicar e estudar outros materiais”, afirmou. 

Ainda segundo a psicóloga, o desempenho durante o curso depende de cada aluno. “Não existe isso de que federal é melhor, existem muitas coisas importantes, como o estágio. Ele ajuda a pessoa a se desenvolver e descobrir qual o seu perfil. É algo que eu sugiro até para os meus alunos, mesmo que eles estejam trabalhando, é melhor conseguir um estágio e ganhar um pouco menos, pois quando eles se formarem, será muito mais fácil arrumar um emprego.” 

Depois de prestar vestibular duas vezes e não ser aprovada, a estudante de Psicologia Náthila Rafaela decidiu se matricular em uma faculdade particular. “O acesso foi bem tranquilo, e o fato de ter o curso no período matutino me chamou mais atenção, porque sempre achei mais tranquilo estudar de manhã, e na UFU o curso é integral. O mercado está supersaturado, mas como diz uma professora que eu gosto muito: para um bom profissional sempre tem espaço”, contou a estudante. 

Náthila se forma em um ano começou a estagiar neste mês. “Sempre admirei a postura do psicólogo e isso me fez querer ser uma. Minhas expectativas são muito boas, porque meu estágio vai ser em uma das áreas que eu pretendo atuar, que é RH [Recursos Humanos]”, afirmou. 

Vestibular 2018-2 UFU
Relação candidato-vaga (ampla concorrência): 


Medicina - 30 vagas - 351,7 por vaga
Direito - 20 vagas - 39,5 por vaga
Psicologia - 20 vagas - 37,5 por vaga
Odontologia - 20 vagas - 34 por vaga
Medicina Veterinária - 20 vagas - 32,5 por vaga

Fonte: UFU
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