09/09/2018 às 07h01min - Atualizada em 09/09/2018 às 07h01min

Jovens querem renovação na política

Grupo de alunos de 17 anos ouvido pelo Diário de Uberlândia aponta falta de representatividade e de atratividade

VINÍCIUS LEMOS
Adolescentes disseram que manter a política como está não é de interesse deles | Foto: Vinícius Lemos
Mudança na política. O discurso não é novo entre candidatos aos cargos públicos desde que o brasileiro passou a eleger novamente seus representantes pelo voto direto no pós-ditadura. Mas o pedido do eleitor para uma guinada parece mais aflorado agora do que em eleições anteriores, seja nos maiores grupos, seja nos menos numerosos. 

É o caso dos jovens de até 20 anos, que mesmo representando pouco mais 6% do total dos eleitores em Uberlândia, puxam a fila da própria renovação do eleitorado brasileiro. O Diário conversou com adolescentes sobre isso e comprovou que manter a política como está, não é de interesse deles. Ao mesmo tempo, o círculo se fecha quando a candidata mais jovem a um cargo eletivo da região diz se sentir “inconformada com o cenário político atual”. A convergência parece ser perfeita, falta a roda se movimentar numa direção diferente.

Mas, como isso pode acontecer foi um dos vários questionamentos feitos a quatro jovens estudantes do ensino médio, de 17 anos, ouvidos pela reportagem. De visões políticas que, como eles mesmos se definem, vão da esquerda dos movimentos sociais à direita liberal, passando por aquele momento de definição de representatividade no espectro político, os jovens concordam apenas na vontade de algo diferente da atual realidade nos diversos escalões da vida pública.

Jeane Carla Tavares contou que já tem seu candidato à Presidência e o que a levou a essa escolha se deveu justamente às propostas em oposição ao que hoje é empregado no atual governo. “É para tentar mudar o nosso cenário político”, disse.

Paralelamente, os jovens relatam um desânimo com a política construído a partir de dois pilares. O primeiro é a falta de representatividade por parte de quem está no poder ou de quem se mostra como opção. “Tenho medo de quem pode ser eleito. Há muitas pessoas que não me representam”, afirmou Ilayne Cristiny Souto Batista, também secundarista. “A gente estuda e vê que a democracia brasileira sempre foi instável, desde o fim do Regime Militar, com dois presidentes ‘impeachmados’ e a gente nunca sabe o que vem pela frente”, explicou o estudante Leonardo Porto Carvalho.

O outro pilar da descrença em relação ao voto é a falta de atratividade da própria política, o que levou o aluno de Ensino Médio Matheus Gonçalves Cabeceira a um processo diferente dos demais colegas. Ele contou que até bem pouco tempo não tinha qualquer vontade de estudar sobre voto, governo ou eleição por se tratar de um assunto considerado chato. Entretanto, mais recentemente ele percebeu que havia importância muito grande no tema que o tornava obrigatório. Só que ao invés de tomar um lado em discussões cada vez mais acirradas em redes sociais, ele preferiu questionar que muito se debate, mas pouco se estuda sobre o assunto. "Comecei me interessar por agora, ler clássicos, intelectuais da direita e da esquerda, saber melhor a história. Quando criança não queria nem votar um dia. Eu vejo de maneira diferente hoje, porque fui adquirir conhecimento. Mas ainda estou numa fase ‘só sei que nada sei’, porque é um assunto muito profundo”.
 
Título
 
As consequências diretas dessas visões sobre a política, entretanto, não foram as mesmas. No caso das meninas, mesmo sem serem obrigadas a votar, tiraram o título para que pudessem participar do primeiro pleito de suas vidas. “Sempre quis votar”, conta Jeane Carla. Enquanto os rapazes preferiram, cada um a seu motivo, não buscarem a Justiça Eleitoral para terem seus títulos de eleitor e, portanto, vão esperar por mais dois anos. “Não tinha interesse e iria viajar para intercâmbio. Mas hoje teria tirado”, explicou, arrependido, Leonardo Porto.

Arrependimento que qualquer um dos quatro poderá experimentar posteriormente, caso escolha um candidato que venha a governar de maneira que os desagrade. A questão, então, é estudar e entender que frustração faz parte das escolhas em si. Pelo menos foi a conclusão que eles trouxeram ao serem questionados. “Vejo muito o que o candidato está apoiando e propondo, e não onde ele se encaixa no espectro dele da política. Quero alguém para tentar melhorar”, afirmou Ilayne Cristiny.
 
Jovens no pleito
 
Jovens como Ilayne, Matheus, Jeane e Leonardo em Uberlândia que estão aptos a votar somam 29.127 eleitores com idades entre 16 a 20 anos. Esse montante representa 6,26% do total de 465.767 pessoas aptas a votarem na cidade. Na faixa dos 16 e 17 anos – à qual o voto não é obrigatório – são 3.483 eleitores. Outros 25.644 eleitores estão na faixa entre 18 e 20 anos. A maior faixa etária do eleitorado uberlandense é aquela com idade entre 45 e 59 anos, com 25,45%.

Em 2014, pessoas de 16 a 20 anos representavam 6% do eleitorado, com 27.928 jovens. Ao todo, o eleitorado de Uberlândia naquele pleito era formado de 462.813 pessoas.
 
LEGISLATIVO
Candidata mais jovem da cidade tem 30 anos
 
Lívia Flávia é a candidata mais jovem a disputar um cargo na região de Uberlândia na eleição deste ano. Ela tem 30 anos e concorre pelo MDB ao cargo de deputada estadual. Ela conta que desde os 16 anos está ligada à política e durante a entrevista ao Diário afirmou que a mudança que pretende trazer à política é justamente por não se sentir representada pelos candidatos que se apresentavam. Ou seja, um discurso parecido com que jovens eleitores já haviam dito.

Justamente o público mais jovem é aquele que ela quer atingir. Perguntada como ela fará isso, respondeu que já conversa com esse grupo desde os 16 anos, quando se juntou a uma série de atividades descritas por ela como de militância e de trabalho nos bastidores da política. “Faço parte da juventude nacional do MDB. Desenvolvo projetos com alunos do ensino médio no Triângulo Mineiro, através de curso de oratória e dicção e ajuda na inserção no mercado de trabalho”, diz a candidata, que já trabalhou em cargo público em nível estadual e municipal.

Questionada sobre o fato de estar em um partido que tem recebido uma série de críticas justamente por ter ligação com vários governos de diferentes ideologias, o que dá margem para a chamada “velha política”, Lívia prefere não fazer críticas diretas ao MDB, mas quer demonstrar que tem atitude própria. “A escolha (pelo MDB) é para quebrar a barreira do impossível, do tipo ‘você não pode se candidatar por um partido grande e você é jovem’. É um partido histórico”, afirmou.

A questão da idade e o fato de ser sua primeira disputa são barreiras que ela diz ter vencido em partes e que ainda luta para ter o reconhecimento. “A dificuldade é a entrada e apoio das atuais lideranças, por elas não apostarem no novo. A gente tem capacidade de sair candidata sem apadrinhamento, é uma possibilidade real”, afirmou Lívia Flávia.
 
Jovens candidatos
 
Para as eleições deste ano foram registrados 2.352 pedidos de registros de candidaturas em Minas Gerais. Destes, o mais jovem no Estado tem 19 anos e o mais velho tem mais de 90 anos. Até 34 anos de idade, que abrange a faixa da candidata entrevistada pelo Diário, há 306 pessoas que pleiteiam um cargo nas diversas esferas deste pleito. Isso representa 6% do total dos candidatos.
 
DESAFIO
Como deixar a política interessante aos jovens?

A pergunta foi feita aos quatro jovens estudantes ouvidos pela reportagem e o consenso girou entre três pontos. Um deles é que o tema deve ser abordado diretamente em sala de aula, mas levando em consideração método. Outro ponto é que deve ser menos ‘quadrado’ e envolver as diversas disciplinas que a política tem ligação direta ou indireta. O terceiro ponto é a mudança da própria resistência do jovem quando o assunto é política. “Eu estudo, leio, sou leigo, mas continuo naquela de ‘Só sei que nada sei’, porém eu ‘tô’ me preparando melhor e um dia se você voltar a fazer uma entrevista comigo eu vou te dar mais respostas”, disse Matheus Cabeceira.





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