31/08/2018 às 06h32min - Atualizada em 31/08/2018 às 06h32min

Os desafios para preservar a memória da cidade

Diário visita o local com um arquiteto e uma artista plástica para saber como torná-lo mais acolhedor

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
“A partir do momento em que entra aqui, o papel ganha vida.” Com essa frase, a secretária de Cultura de Uberlândia, Mônica Debs, resume bem o papel do Arquivo Público Municipal, inaugurado em 1986. Mais do que um depósito de caixas, o lugar merece um olhar mais cuidadoso. Afinal, ali se encontra uma boa parte da história da cidade e, consequentemente, da história de cada um de nós. 

O acervo gigantesco ganhou um novo endereço em junho deste ano. O espaço tem 1,3 mil metros quadrados e fica onde funcionava uma antiga beneficiadora de arroz no bairro Custódio Pereira. A equipe recebe a todos de forma acolhedora e eficiente. Ali, o que você procura vai achar, seja um documento para dar andamento a um processo de aposentadoria, uma reportagem de jornal necessária para alguma ação judicial ou uma foto antiga do seu bairro.

O Diário de Uberlândia visitou o prédio junto com a artista plástica Lilian Tibery e o arquiteto Alessandro Rende. Logo na entrada, eles param diante de uma das fotos fixadas do local. “A primeira farmácia de Uberlândia foi do meu avô, que era farmacêutico, ali onde hoje é a praça Tubal Vilela. Aqui na foto dá para ver até a janela do quarto do meu pai”, disse Lilian. O local há muito não abriga mais a farmácia, a rua Luzitânia virou Olegário Maciel, a memória afetiva é trazida instantaneamente mediante aquela imagem.

Por essas e outras é que este prédio precisa ganhar um ar mais acolhedor. O clima é quente na tarde da visita e a telha de zinco faz a temperatura aumentar mais. Outro fator preocupante no espaço é a poeira. “Calor e poeira prejudicam a conservação do material. Você percebe que o espaço é grande, porém, com muitas áreas ociosas”, disse Alessandro.

No momento uma funcionária limpava as prateleiras com as caixas que guardam milhares de documentos permanentes da Prefeitura de Uberlândia, da Câmara Municipal e de outras doações. Mas o trabalho dela, ao chegar na última prateleira, logo terá que ser refeito. “Quanto menos manusear essas caixas melhor, por isso é algo que pode ser revisto em uma próxima etapa de melhorias”, comentou.

Apesar de só ter sido reinaugurado oficialmente em junho, a equipe do Arquivo Público ocupou o lugar em meados de 2017. Há pouco tempo foi feita a instalação de um armário deslizante que já guarda os jornais e otimiza espaço, sem contar que a estrutura impede a entrada de poeira. A peça, que funciona de forma eletrônica, estava no manual no dia da visita, por um problema técnico.

Para Alexandre, peças como essa seriam uma saída para o melhor arquivamento de outros documentos além dos jornais. “O espaço nem precisa ser tão amplo. O arquivo deslizante é compacto mas é preciso estar atento a fatores como o condicionamento adequado e a temperatura adequada. Aqui tem espaço ocioso, que com o tempo deve ser preenchido, e o armazenamento não é o mais adequado”, disse.

Ele tem uma sugestão para o prédio ganhar mais vida e com isso ser mais valorizado. “Espaços expositivos mais trabalhados são muito importantes. Poderiam ser colocados boxes internos com situações separadas e, no meio, fazer uma praça. Seriam condicionados somente os boxes. É uma forma de proteger a documentação que, se manuseada diariamente para limpeza, vai se degradar mais rápido”, comentou Alexandre.

Para Lilian, a galeria na entrada do prédio – atualmente com desenhos de Geraldo Queiroz, um dos principais artistas plásticos de Uberlândia do século 20 – é uma boa iniciativa, mas pode ser melhorada. A coordenadora do espaço, Carla de Oliveira Rezende Abreu, funcionária no Arquivo há 17 anos, afirma que a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) também já percebeu essa necessidade e já escalou uma pessoa para fazer um novo layout.

Tanto Alessandro quanto Lilian fazem questão de ressaltar que, em termos de organização, o espaço está de parabéns. “Percebemos que, apesar do volume gigantesco de material, está tudo muito bem organizado e as pessoas que estão aqui estão fazendo um bom trabalho. Não queremos criticar, e sim colaborar”, afirmam.

O prédio, com espaço para receber material por pelo menos mais 20 anos, é alugado e todos concordam que um espaço permanente deve ser pensado para o futuro. “Mais quatro armários deslizantes seriam suficientes para substituir todas as caixas aqui hoje. Faria diferença na conservação do material. O armário deslizante é lacrado, seguro, praticamente um cofre. Mas sabemos que é difícil conseguir verba, a situação econômica do País não ajuda. Entendemos a dificuldade em se colocar uma cobertura sanduíche, por exemplo, que tem isolamento acústico e térmico, em um prédio alugado”, disse Alessandro.


Lilian Tibery e Alexandre Rende visitaram o local junto com a reportagem do Diário | Foto: Celso Ribeiro

SAIBA MAIS
O Arquivo Público Municipal armazena e cuida da memória da cidade e dentro dele há um laboratório, sala de restauro, espaço para higienização do material e ambiente para pesquisadores. Um totem com vídeos da história de Uberlândia pode ser facilmente manuseado por qualquer pessoa.

Criado em 1986, o Arquivo armazena e preserva a documentação pública produzida pela Prefeitura e Câmara de Uberlândia. Também mantém sob custódia documentos iconográficos, cartográficos, manuscritos, jornais, fotografias e revistas sobre a cidade. Como resultado do projeto “Depoimentos”, dispõe aos pesquisadores entrevistas gravadas e transcritas feitas com pessoas de diversos segmentos da comunidade, além de uma Biblioteca de Apoio, com publicações e trabalhos científicos resultantes de pesquisas realizadas na instituição.

VISITANTES
Espaço aberto para pesquisadores, estudantes e curiosos

Se na área mais ampla o calor espanta os visitantes, a sala de pesquisa do Arquivo Municipal de Uberlândia é como um oásis no deserto. Já coberta e climatizada, recebe pesquisadores, historiadores, estudantes, curiosos e pessoas ávidas por conhecimento sobre a história da cidade, que amanhã completa 130 anos.

“Temos aqui frequentadores que vêm todos os dias, como um pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, assim como outros esporádicos”, disse José Carlos Batista, funcionário do Arquivo há 18 anos.

José Carlos me apresenta a Marco Paulo Peres de Oliveira, que, no momento da visita do Diário ao Arquivo Público, se debruçava sobre uma edição dos anos 90 de um jornal que a cidade já teve. Ele tem um site há um ano (conhecauberlandia.com.br) como um hobby e por lá posta curiosidades. A maioria delas garimpadas em pesquisas no Arquivo.

“Desta vez estou levantando a história do Campeonato Rural de futebol. Tenho alguns amigos que participam. Em 1993 o pai de um deles, já falecido, estava no time que conquistou o título e, a pedido dele, estou tentando levantar essas informações a respeito”, afirmou.

O difícil é ir embora. “A gente percebe as mudanças na linguagem jornalística, na ortografia, na geografia da cidade por meio das fotos. Você vem pesquisar um assunto e, quando percebe, já engatilhou outros. O tempo passa voando aqui”, comentou.

Marco Paulo chegou a frequentar o prédio anterior do Arquivo, na rua Natal e percebeu melhorias no prédio atual, mas para ele o que mais faz diferença é a forma como os funcionários sempre o receberam. “Eles são muito prestativos”, disse o uberabense, que veio para Uberlândia aos 4 anos de idade.

Para ele, essa proposta do prédio mais acolhedor ajuda e também deve ser feita uma maior divulgação do espaço pela riqueza memorial que ele guarda. Outro ponto levantado por ele é a necessidade da digitalização total do arquivo. “Eu acompanho boa parte de muitos arquivos, como do jornal ‘Lavoura e Comércio’, de Uberaba, pela internet. Fiz muitas pesquisas de casa”, comentou. Caberia aí uma parceria com outra secretaria, como a de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Turismo, que poderia ajudar nessa área, de levar o arquivo para várias plataformas digitais.

Segundo José Carlos Batista, o processo de digitalização já foi mais demorado. Recentemente eles ganharam dois computadores por meio de doação, mas, mesmo assim, não é o melhor equipamento. Ele cuida mais da digitalização das fotos, já na casa das 20 mil. Com um equipamento mais moderno, o processo seria mais rápido.

DESAFIOS DA RESTAURAÇÃO
Juliana Pavesi é graduada em licenciatura e bacharelado em Artes Plásticas pela Unicamp, com curso de Preservação, Conservação e Restauração em Documentação em Papel pela Aber/Senai (SP) e um master em Conservação e Restauro de Bens Culturais e Artísticos no Palazzo Spinelli em Florença (ITA). Desde 2010 ela é a responsável pelo trabalho de preservação, conservação e restauro dos documentos no Arquivo Público Municipal.

Entre os trabalhos mais desafiadores que teve está a restauração de uma ata da Câmara Municipal de Uberlândia, datada de 1919. A peça havia passado por intervenções anteriores com materiais sem qualidade arquivística que comprometem a legibilidade. “Além disso, ela havia sido reencadernada e praticamente não fechava, tamanho os danos que havia sofrido. Levei muito tempo para remover toda a cola e o papel que nela haviam sido aplicados antes de poder iniciar o tratamento”, recordou Juliana.

Ela explica que um documento que já passou por alguma intervenção anterior que, por qualquer motivo que seja, necessita de um novo tratamento, sempre será mais trabalhoso para o conservador-restaurador do que um documento em que o tratamento será iniciado "do zero", pois não será necessário remover o que foi feito para iniciar os novos procedimentos de tratamento.

SERVIÇO
Arquivo Público Municipal
Rua Ceará, 3.105, bairro Custódio Pereira
Aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h
Informações: 3232-4744
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