02/09/2018 às 07h12min - Atualizada em 02/09/2018 às 07h12min

Telemarketing é porta de entrada para o mercado

Micro e pequenas empresas também estão entre as oportunidades para os jovens

CAROLINA PORTILHO
Dos 5.000 atendentes da Callink, 21% deles estão na categoria de primeiro emprego | Foto: Callink/Divulgação
Bruno de Souza Pereira, 23 anos, não está mais entre os muitos jovens que buscam o primeiro emprego, mas passou por esse processo há três anos e três meses, antes de ser contratado pela Callink, que atua no ramo de telemarketing em Uberlândia. O estudante de Letras da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) disse que quando começou a procurar por oportunidades de trabalho, optou por empresas com foco no público jovem e que não exigiam experiência profissional.

“Achei a Callink em rede social, me candidatei a uma vaga de operador de telemarketing e fui selecionado. Ainda é o meu primeiro emprego e inicialmente não era um desejo trabalhar nessa área. Meu foco era entrar para o mercado de trabalho, mas no decorrer do tempo percebi as oportunidades e agora estou em busca do cargo de supervisão. Essa fase de inserção no mercado é delicada, mas há oportunidades”, disse.


Há mais de três anos, Bruno conquistou seu primeiro emprego na área de contact center
Foto: Carolina Portilho


Apesar da falta de experiência ser uma das barreiras encontradas por jovens que estão em busca do primeiro emprego, a área de telemarketing é uma das principais portas de entrada para o mercado de trabalho, justamente por não exigir qualificação profissional.

Em 2017, o Sistema Nacional de Emprego (Sine) em Uberlândia encaminhou para o mercado de trabalho 2.722 pessoas para vagas de operador de telemarketing ativo e receptivo. Neste ano, até dia 24 de agosto, foram 1.040 contratações, e das 235 vagas disponíveis atualmente no Sine, 200 são para a área de contact center. As demais são para oportunidades que exigem alguma qualificação técnica, por exemplo.

“Essas ofertas de atendimento são maiores para quem realmente não tem experiência e não exigem graduação, o que acaba atraindo os candidatos. A jornada reduzida de trabalho também é fator avaliado pelo jovem, que pode dividir seu tempo com os estudos, com a família”, disse o diretor de Atendimento ao Trabalhador do Sine, Marcel Cardoso Ferreira de Souza.

A empresa que contratou o Bruno conta com 6.090 colaboradores, sendo 5 mil atendentes. De acordo com a gerente de RH da Callink, Marcela Pimenta, desse total, 21% estão na categoria de primeiro emprego, e 92% são da geração Y, jovens que nasceram após o ano 2000. 

“As portas da empresa estão abertas para quem não tem experiência alguma ou formação técnica para o cargo de atendente. Buscamos caraterísticas como iniciativa, proatividade, comunicação e iniciativa. Tem gente que é graduada e não tem essas características e não se encaixa nos requisitos da vaga. O conhecimento profissional vai ser adquirido dentro da empresa, pois o funcionário recebe treinamento para iniciar suas atividades e, no decorrer, também são oferecidas alternativas para que sua curva de aprendizagem cresça”, disse Marcela.

ADAPTAÇÃO
A gerente de RH reforça que, por conta da maioria dos profissionais ser jovem, a empresa precisou se adaptar para se tornar atrativa. A Callink ampliou seus canais de atendimento dando foco aos meios digitais, como WhatsApp e redes sociais, além de simplificar o modelo de cadastro de currículo. 

“Estamos mais tecnológicos. Se não exigimos experiência do candidato para o cargo de atendente, não temos que pedir essa informação quando ele for preencher os dados. Hoje o processo é cadastral: pedimos nome, CPF, telefone de contato, e escolaridade. São dados suficientes, pois será durante as entrevistas que vamos descobrir mais sobre o candidato, que não quer perder tempo em cadastros. Simplificamos para falar a linguagem deles.”

VANTAGEM
Se por um lado, a experiência profissional não é exigida para os jovens que estão em busca do primeiro emprego, por outro, durante a entrevista, é importante destacar experiências vividas. “Ajudar os pais a cuidar de uma criança, fazer algum trabalho voluntário ajudando o próximo, realizar alguma atividade na escola, são exemplos valiosos durante um processo seletivo. Falar sobre isso conta muito ponto e pode ser usado a favor do candidato durante o processo”, disse Marcela.

A partir do momento em que o jovem passa a fazer parte do quadro de funcionários da empresa, o próximo passo é criar mecanismos para mantê-lo. “Esse também é um grande desafio, pois, ao entrar, o funcionário está vislumbrado com o mundo novo e sente-se motivado, mas com o passar do tempo ele passa a exigir crescimento dentro da empresa. Temos programas de carreira e de formação, feiras de profissões e canais internos com dicas que ajudam nesse processo de evolução. O atendente também precisa entender que ele precisa buscar aperfeiçoamento. Crescer exige dedicação e construir um currículo depende muito da iniciativa de cada um”, conclui a gerente da Callink.

ALGAR TECH
Empresa se estruturou para receber jovens


Dos 6.500 atendentes da Algar Tech, 20% são iniciantes na carreira profissional
Foto: Beto Oliveira/Divulgação


“O telemarketing é porta de entrada para os jovens no mercado de trabalho e, cientes disso, nos estruturamos para atender a esse público. Transferimos essa questão de experiência para nós. Fazemos essa capacitação com o objetivo de desenvolvê-los e assim deixa-los aptos para as atividades.” 

Essa foi a reposta do diretor-executivo da Algar Tech, Julio Emmert, ao ser questionado pela reportagem do Diário de Uberlândia sobre a realidade vivida pela empresa quando o assunto é o primeiro emprego.

Segundo ele, se estruturar para atender os jovens englobou desde a forma de se comunicar com esse público, até a oferta de atrativos. Julio disse que essas vagas são cobiçadas, por exemplo, devido à flexibilidade de horário e a não exigência de experiência profissional. São justamente esses quesitos, entre outros, que fazem a empresa ter em seu quadro de funcionário 6,5 mil atendentes, sendo 20% deles iniciantes na carreira. 

“Nosso foco começa com a chegada desse jovem na empresa. Explicamos sobre o importante papel que ele executará e o mercado de uma maneira geral. Ele passa por um treinamento de 15 dias em que mostramos tudo sobre formas de se comunicar, de zelar pelo cliente e, com isso, ser nosso porta-voz. Acreditamos que essas frentes são diferenciais da Algar Tech, que vem ofertando cada vez mais oportunidades no mercado, saltando de 340 para 820 vagas nos três primeiros meses entre 2017 e 2018, respectivamente”.

Como forma de fidelizar o associado, como são chamados os funcionários da empresa, Emmert disse que existe uma cultura forte de valorização. “Nosso foco é formar pessoas. Temos diretores que começaram como atendentes e cabe a nós motivar esses profissionais para que fiquem com a gente.”

NO PAÍS
Pequenas empresas dão mais oportunidades


Uma pesquisa do Sebrae aponta que 55% das pessoas que conseguiram seu primeiro emprego em 2017 no Brasil foram contratadas por meio de micro e pequenas empresas (MPE). Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), esse dado equivale a 775 mil pessoas em todo o País. Ainda segundo a pesquisa, 69,5% eram jovens com até 24 anos de idade. 

O consultor do Sebrae em Uberlândia, Edson Menhô, explica que, assim como no telemarketing, as micro e pequenas empresas são menos exigentes quanto ao currículo profissional do que empresas de médio e grande porte.

“As MPE não exigem tanta experiência e isso atrai o candidato. Apesar desse quesito não ser tão cobrado, o empresário precisa dedicar um tempo maior treinando seu novo funcionário. Por ele estar mais envolvido no dia a dia dos negócios, ele tem essa chance de capacitar o jovem do seu modo.”

Apesar do jovem não ter na bagagem vivência em outras empresas, Edson sugere que, mesmo assim, o candidato seja estimulado pelo empresário a buscar oportunidades de capacitação, como cursos online gratuitos em áreas que têm relação com o desempenho da atividade.

TODAS AS EMPRESAS
Lei prevê programa de aprendizagem para jovens


A lei é clara e diz que empresas de médio e grande porte devem contratar jovens com idade entre 14 e 24 anos como aprendizes. O contrato de trabalho pode durar até dois anos e, durante esse período, o jovem é capacitado na instituição formadora e na empresa, combinando formação teórica e prática.

A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Uberlândia é parceria, desde 2009, de diversas empresas no processo de formação desse público, tendo como foco duas frentes: Administrativa e Bancária. Atualmente, 300 jovens estão em atendimento pela entidade.

“A maioria desses jovens se enquadram em primeiro emprego. São oito turmas em andamento e mais de 150 empresas parceiras do programa. Eles ficam quatro dias na empresa e um no processo de capacitação. O resultado desse trabalho é valioso para todas as partes, uma vez que cerca de 8% dessas pessoas são efetivadas pelas empresas após o término do contrato do Aprendiz Legal”, disse a gerente Executiva da Fundação CDL, Bânia Vieira Poli.

O órgão que fiscaliza o cumprimento dessa lei é o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em Minas Gerais, até o dia 31 de junho deste ano, eram 38.997 jovens com vínculo ao Aprendiz Legal. Esses números já são superiores a todo 2017, em que foram registrados 37.685.

DICAS
5 passos para fazer o seu primeiro currículo


Veja as dicas da Vagas.com, líder no mercado de e-recruitment no Brasil, de como preencher o currículo para quem ainda não tem experiência profissional.

1. Faça uma autorreflexão
Se eu fosse abrir uma empresa hoje e te convidasse para fazer parte da minha equipe, como você poderia me ajudar? Quais as suas habilidades e o que gosta de fazer? As respostas dessas perguntas serão fundamentais para a elaboração do seu primeiro currículo e também irão te guiar na busca pelo emprego.

2. Pesquise as oportunidades disponíveis
Dê uma olhada em alguns sites de emprego e comece pesquisando algumas habilidades que você possui, como, por exemplo, conhecimento em informática. Leia com atenção os anúncios de vagas e verifique se você tem alguns ou todos os requisitos mínimos.

3. Faça seu currículo
O formato seguirá a estrutura básica de um currículo com experiência. A única diferença é que, no seu caso, você terá que dar mais destaque em suas habilidades, conhecimentos acadêmicos e perfil pessoal.

Dica: explore experiências como: empresa júnior, trabalho voluntário, representante de sala ou até mesmo aquela ajuda na loja de doces do seu tio que você deu nas férias.

4. Não “encha linguiça”
Se está faltando conteúdo para o seu primeiro currículo, é sinal que você precisa fazer mais. Feche as mídias sociais por algumas horas e invista tempo participando de palestras e cursos relacionados à área que você almeja trabalhar. Afinal, a internet está aí para todos e a desculpa da “falta de grana” não é mais aceita pelos recrutadores. Dica: pesquise por “cursos profissionalizantes gratuitos” e se surpreenda com o resultado.

5. Tente, tente e tente mais uma vez
Quanto menor o número de requisitos para a posição, maior a quantidade de ofertas de vagas abertas e, consequentemente, maior a quantidade de candidatos concorrendo com você. Por isso, não se abale se você enviar algum currículo e não for chamado. Oportunidades não faltam, basta pesquisar e tentar.
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