20/08/2018 às 08h24min - Atualizada em 20/08/2018 às 08h24min

Reitor fala dos desafios frente à UFU

Ao Diário, Valder Steffen Júnior detalha sobre as dívidas e a importância do HC para a região, obras paradas, Ebserh, Samu e pesquisa

NÚBIA MOTA | REPÓRTER
Mllton Santos/Divulgação
 Há um ano e oito meses à frente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) pela primeira vez como reitor, a história de Valder Steffen Júnior dentro da instituição começou em maio de 1976. Nesses mais de 42 anos, ele viu os principais avanços, desde a federalização em 1978, a conquista do primeiro mestrado em engenharia mecânica e elétrica, em 1985, até chegar hoje, em pleno cenário de crise financeira no País, com a ameaça de cortes nas pesquisas para o próximo ano, obras paradas e atrasos e defasagem de verbas por parte dos governos Federal e Estadual.
Valder Steffen recebeu a reportagem do Diário de Uberlândia na última semana e, com exclusividade, falou sobre a situação da universidade, do Hospital de Clínicas e as expectativas para o futuro com o novo governo eleito daqui a 2 meses.    
 
Diário: Quais os maiores desafios do senhor hoje na universidade?
Valder Steffen: São muitos desafios. Garantir o funcionamento da universidade com qualidade, mesmo em um contexto de recursos limitados. Isso envolve não só a área acadêmica, mas também a área administrativa, a pesquisa, os hospitais, os campi fora de sede, as obras paradas que são várias e precisamos reativá-las, mas não temos recursos por enquanto.
 
As obras do campus de Patos de Minas vão ser retomadas agora. Já é um passo?
Patos é o único campus da UFU que não tem nenhum prédio pronto. Temos um apenas no início e que precisa de muitos recursos ainda. As obras do primeiro bloco vão ficar em torno de R$ 17 milhões. Já investimos certa quantia e vamos investir mais R$ 4 milhões agora, mas não é suficiente para acabar. É suficiente para avançar e mostrar para as autoridades em Brasília que esta obra está em andamento e precisa ser concluída, para que possamos pleitear mais recursos.
 
E os outros dois campi?
Existem necessidades. Mas o de Monte Carmelo hoje é um campus consolidado. O prédio está pronto. Com a ajuda da prefeitura vai ser feito o asfaltamento de um pequeno trecho que dá  acesso ao campus.  Em Ituiutuba, já temos um campus com mais de 10 anos, com muitos blocos, mas também com muitas necessidades. Lá, temos um bloco 60% concluído, mas é preciso recursos.
 
Alguma novidade sobre as obras de expansão do Hospital de Clínicas?
Estamos fazendo todo o necessário, mas está judicializado no foro do Rio de Janeiro e para atuarmos, fica mais difícil ainda, porque precisamos contar com a AGU (Advocacia-Geral da União) de lá para defender os interesses da universidade. Agora, estamos trabalhando muito de perto com o Ministério Público Federal para tentar encontrar o melhor caminho. Nesse momento, estamos fazendo um documento que será apresentado à empresa (construtora) para conseguirmos retomar essa obra nos próximos meses. Temos um recurso empenhado, mas como a empresa está em recuperação judicial, a universidade fica tolhida em suas ações. Tentamos algumas medidas jurídicas, mas não tivemos sucesso e, por isso, temos que nos acomodar a essa situação e, mesmo assim, encontrar um caminho. É um grande problema.
 
Mas o HC de modo geral deve ser uma das maiores dores de cabeça do senhor, não é verdade?
Sim. Por causa mesmo do contexto da saúde em Uberlândia, onde operamos em rede. O HC tem um papel muito representativo, porque não temos aqui, em Uberlândia, um hospital regional, um hospital estadual, ou outros hospitais públicos, além do HC e do Hospital Municipal, que prestam o serviço de saúde no ambiente SUS. Então, quando tem um problema nesses dois hospitais, toda a rede padece, não só Uberlândia, mas todos os municípios da região. O nosso universo é de até 3 milhões de pessoas.
 
Como está a situação financeira do hospital hoje?
A saúde é historicamente subfinanciada. A tabela do SUS não é ajustada há anos. Então há uma defasagem entre os recursos que recebemos e de quanto esses serviços custam de fato. A cada dia que passa, esse endividamento da Faepu, responsável pelos serviços lá realizados e pelo pessoal, cresce um pouco mais.
 
O diretor-geral do HC, Eduardo Crosara, disse que, por mês, a unidade tem um déficit de cerca de R$ 2 milhões. Como é possível manter a instituição assim?
A gente custa por volta de R$ 13 milhões e recebe cerca de R$ 10,6 milhões. Significa que a cada mês que passa, ficamos endividados R$ 2,4 milhões. Se fosse uma empresa privada, não poderia continuar. É muito cruel com a Faepu, porque a fundação tem um patrimônio que foi doado pela sociedade uberlandense ao longo dos anos e esse patrimônio é que garante, de certa maneira, esse endividamento. Mas esse problema precisa ser resolvido e, por isso, optamos por aderir à Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), que cuida da gestão de 39 hospitais universitários. Seremos o 40º.
 
Como está essa adesão à Ebserh?
Bastante lenta. Estamos finalizando alguns anexos do contrato. São documentos de apoio que envolvem, por exemplo, o diagnóstico do hospital, o patrimônio, a questão do pessoal vinculado, menos os docentes. Recurso mesmo deve vir só a partir de 2019. Talvez, antes do fim deste ano, pelo menos os gestores já serão pagos pela Ebserh. Vai ser um processo. A adesão não é feita num estalar de dedos. Se usarmos de referência os hospitais vinculados em um primeiro momento, em 2012, agora que estão começando a ter uma adesão plena. E olha que naquela época tinham recursos. Hoje, estamos vivendo uma época com recursos muito limitados. Imagino que isso esteja dificultando o processo.
 
Quando o senhor se candidatou ao cargo de reitor, se dizia contra a Ebserh. Agora mudou de ideia?
Não. Eu disse que era contra aquele formato anterior. Eles queriam, por exemplo, que a Faepu fizesse a doação do patrimônio para a Ebserh. Isso não é possível, porque a Faepu é uma fundação privada e parte do patrimônio está até judicializado para garantir um eventual passivo trabalhista. Hoje, o formato é bem diferente daquele momento. Mas se nós tivéssemos um pagamento adequado pelo serviço de saúde que prestamos, se os valores do SUS fossem atualizados, se nós tivéssemos regularidade nos repasses, porque o Governo do Estado está nos devendo e existe atraso nos repasses do Ministério da Saúde, não precisaríamos da Ebserh.
 
Saiu o primeiro balanço do Samu e a demanda foi baixa para o Hospital de Clínicas. O senhor vê uma possibilidade do Município ainda aderir ao serviço?
Eu tinha muita preocupação, mesmo Uberlândia não estando incluída nesse primeiro momento, porque o Samu é de transporte hospitalar e não significa leitos nos hospitais. Mas eu tenho que reconhecer que os primeiros números são confortantes. Mas é uma preocupação justa do Município, porque o Hospital Santa Catarina fechou e tem um déficit de no mínimo 800 leitos na cidade.
 
Mas com a conclusão das obras do HC esse déficit diminuiria.
Lá sim. Quando a gente concluir a obra, vai ser bom para universidade, mas ainda melhor para região. Vão ser 270 leitos a mais. Mas quando a gente inaugura um hospital, além dos gastos com a obra, vamos gastar um valor significativo para equipá-lo e um valor parecido, todo mês, com pessoal para seguir funcionando.
 
Em outubro tem eleições. O senhor está com boas expectativas de que esse quadro de falta e atraso de repasses possa mudar?
Eu estou preocupado em função de algumas sinalizações que temos observado. As áreas de educação, ciências, tecnologia, inovação, cultura e artes têm sofrido muito nos últimos anos. Todo ambiente das universidades é de preocupação. Mas pelos menos, a partir de outubro, vamos ter um governo eleito.
 
O que o senhor espera dos novos dirigentes?
É difícil fazer prognóstico, não sou nem habilitado para isso, mas espero que tenhamos um governo, seja ele qual for, que tenha sensibilidade pelas causas sociais. Que tenha um olhar importante para educação, não só para a educação superior, mas o ensino fundamental, o ensino médio. Aquela Emenda Constitucional 95, que limita os gastos públicos, precisa ser revogada, porque todo o esforço social do país ficará comprometido. O Governo eleito precisa cuidar dessa questão, senão vamos matar os sonhos dos nossos jovens.
 
Qual a opinião do senhor sobre as cotas dentro das universidades?
É muito cruel. Porque a família que tem uma condição social melhor pode pagar um ensino de línguas, pagar o esporte, alguma coisa na área de arte, música ou dança, e aquele que é vulnerável socialmente fica prejudicado. Por isso que as universidades públicas têm esse mecanismo de cotas, exatamente para poder resgatar uma pequena parcela, perto da enorme desigualdade social que assistimos em nosso país há décadas. Quando olhamos o número de jovens que faz o ensino fundamental e médio e o número de vagas nas universidades públicas, a discrepância é ainda muito grande.
 
Em uma entrevista para na TV Universitária, o senhor disse da preocupação em relação à ameaça de cortes de gastos para pesquisa em 2019. A população leiga ainda não se deu conta do tamanho desse problema?
Quando a gente pensa na febre chikungunya e zika, o Brasil só foi capaz de dar uma resposta rápida àquela situação por causa dos investimentos em ciência e tecnologia nos nossos laboratórios científicos. Para que o trabalhador rural trabalhe com segurança, ele precisa de previsão das variações climáticas. De que forma isso é feito? São nossos satélites que mandam informações 24h para as nossas universidades e que fornecem esses dados para todos os produtores agrícolas. Só temos alguma tecnologia brasileira graças às pesquisas nas universidades. Eu estou falando do pré-sal, da tecnologia aeronáutica, da média indústria que faz máquinas e implementos agrícolas. Isso é indispensável para a sustentabilidade da economia do país.
 
Alguma consideração?
É preciso que a sociedade saiba que o ensino de qualidade é feito majoritariamente nas universidades públicas. Apesar das dificuldades, estamos enfrentando esses desafios, tanto que os vestibulares têm alta procura, o Enem tem alta procura. Mais de 50% da pesquisa feita no Brasil acontece nos laboratórios das universidades federais. As universidades públicas são um patrimônio da sociedade brasileira e a sociedade deve defendê-la.
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