09/08/2018 às 07h54min - Atualizada em 09/08/2018 às 07h54min

Uma fila que nunca termina

Mais de 35 mil pessoas em Uberlândia estão na lista de espera por cirurgias eletivas; outras 54 mil aguardam por exames

NÚBIA MOTA | REPÓRTER
Dra. Jussara disse que médicos se dispuseram a ajudar, só falta o Município se posicionar | Foto: Fernando Natálio/Divulgação
Mais de 35 mil pessoas em Uberlândia estão na fila da rede pública de saúde para fazer uma cirurgia eletiva, segundo dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, atendendo a um pedido de informação protocolado pela vereadora Dra. Jussara Matsuda (PSB). Os números foram fornecidos, ontem, ao Diário de Uberlândia, depois que a médica pediu providências ao Governo Municipal para dar celeridade aos atendimentos. A espera para alguns pacientes passa de dois anos, e entre os principais procedimentos aguardados estão cirurgias nas vias aéreas superiores e do pescoço, cirurgia vascular, no pâncreas, baço, fígado, vias biliares e na parede e cavidade abdominal.

As cirurgias eletivas, diferentemente das de emergência, são aquelas em que o profissional médico consegue escolher a melhor data para se realizar o procedimento. Geralmente, são realizadas após diversos exames, mas se proteladas, podem agravar o estado de saúde do paciente, segundo Dra. Jussara.

Já a fila por exames pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é ainda maior. Segundo a lista do Município, que aponta diversos tipos de exames, 54.757 pessoas adultas estão à espera de uma ultrassonografia. Tem mais 1.813 gestantes aguardando o mesmo exame e ainda 1.821 crianças. Para ultrassom de articulações, outras 10.990 pessoas esperam por atendimento.

Para Jussara Matsuda, que é médica oftalmologista, a solução para amenizar a espera dos pacientes seria promover mutirões de cirurgias e exames. Ela cita como exemplo o programa Corujão da Saúde, realizado no município de São Paulo e que compreende uma série de exames de diagnóstico no período da noite. “Precisamos criar um método, uma maneira de melhorar isso. Eu já conversei com colegas que se dispuseram a atender. Eu espero que o Executivo se posicione”, afirmou a vereadora, que tem adotado uma postura independente na Câmara.

O promotor de Justiça de Defesa da Saúde, Lúcio Flávio de Faria Silva, acredita que o número da lista de espera para cirurgias eletivas pode cair mais de um terço se forem avaliados caso a caso. Isso, segundo avalia, porque muitas pessoas acabam fazendo os procedimentos por meio de convênio particular, ou ainda há uma reavaliação e os procedimentos são cancelados, alguns pacientes mudam de cidade, morrem, entre outros motivos. “Às vezes, tem 1.000 na fila, mas quando vamos ver, quando a regulação liga para os pacientes, esse número cai para 300. É o que já aconteceu. Quando a fila está grande, conversamos com a Secretaria de Saúde e fazemos mutirões para as especialidades mais urgentes. De ortopedia, por exemplo, fizemos no ano passado e caiu muito a demanda. De exames, já tem algum tempo que não fazemos”, afirmou Lúcio Flávio.
 
SECRETARIA
O assessor técnico de urgência e emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Clauber Lourenço, disse que há várias medidas implantadas para a redução da fila de espera por cirurgias eletivas. Como exemplo, ele cita a de vesícula, uma das maiores filas de espera do município, e que está aumentando em 30% a demanda por conta do acréscimo no número de salas para a realização do procedimento. Clauber também destaca outros procedimentos realizados no Hospital Municipal, como o de cirurgias cardíacas que gradativamente pretende zerar a fila de espera.

Sobre os exames, Clauber disse que quatro novos equipamentos de Raio-x estão chegando e que todas as UAIs terão equipamentos novos, com tecnologia digital. Sobre o exame de ultrassonografia, também entre as maiores procuras, o assessor técnico disse que o cadastro de pacientes precisa ser analisado, pois há nomes em duplicidade e pessoas que já fizeram o exame e ainda estão na lista.

Em relação ao mutirão sugerido pela vereadora, afirmou que “toda sugestão é bem-vinda, mas tudo precisa ser analisado. O que mais encarece uma cirurgia é o gasto com material e não só o corpo clínico. Além disso, precisamos de estrutura para atender o paciente, como salas de cirurgias e de internações”.
 
CONVÊNIO
Hospital Municipal está fazendo procedimentos cardíacos

 
No último dia 27, depois de um acordo entre os Ministérios Públicos Federal e Estadual, o Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU) e a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), o Hospital Municipal realizou a primeira cirurgia no coração utilizando a estrutura do HC em horários alternados, quando a sala está ociosa. Ficou determinado ainda que pacientes na fila por cateterismo atendidos pelo município poderão fazer o procedimento cardíaco no HC, até que chegue a hemodinâmica para o Hospital Municipal.

“Estamos ainda fazendo cirurgias ortopédicas, com verba 100% do município, porque sabemos que o Hospital de Clínicas está enfrentando as mesmas dificuldades que a nossa”, disse na ocasião Clauber Lourenço, assessor técnico de urgência e emergência da Secretaria Municipal de Saúde.

Uma decisão da Justiça Federal publicada no último dia 20 determinou ainda que o Estado de Minas Gerais, o Município e a União construam e mantenham um hospital regional em Uberlândia, com o mínimo de 296 leitos. A sentença determina ainda que os custos da construção da unidade, que deverá priorizar atendimentos ambulatoriais aos moradores de Uberlândia, sejam arcados de forma compartilhada: 50% pela União, 25% para o Estado e 25% para o Município.
Ainda em julho, o diretor-geral do HC, Eduardo Crosara, disse que todos os meses há um atraso no repasse da cota de R$ 10 milhões do Ministério da Saúde para o pagamento das despesas que chegam a R$ 12 milhões, além de uma dívida de R$ 20,755 milhões do Governo Estadual. No dia 12, o prefeito Odelmo Leão (PP) concedeu uma entrevista coletiva e também falou sobre o atraso dos repasses pelo Governo do Estado. A principal área prejudicada é a saúde e a dívida até o início do mês passado passava de R$ 91 milhões.
 
SOFRIMENTO
Pacientes enfrentam a dor e a demora por atendimento



 














































A pensionista Janete Moreira espera há oito meses por uma ressonância magnética | Foto: Divulgação

Janete Moreira de Jesus Menezes, de 51 anos, está impedida de trabalhar por causa das fortes dores na coluna. A espera por uma ressonância magnética para avaliar melhor o quadro de saúde dela já dura oito meses. Segundo a pensionista, a atendente da Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do Luizote informou, em maio deste ano, que começou a chamar os pacientes que entraram na fila em agosto do ano passado. “Já fiz dois Raio-X, mas o médico falou que é preciso a ressonância, porque a suspeita é que eu tenha problema em duas vértebras que estão afetando o ciático, e o Raio-X não mostra.  Meu sonho é voltar a trabalhar, mas não aguento ficar em pé”, afirmou.

Outra paciente de 55 anos, que não quis ter o nome divulgado por medo de atrapalhar ainda mais o processo, está há três anos na fila por uma cirurgia de hérnia umbilical. Há dois meses, ela também foi diagnosticada com um mioma no útero e o órgão precisa ser retirado, mas a consulta para exames ainda nem foi marcada. “Estou sentindo muita dor, tem dia que custo a andar. Eu queria fazer as duas cirurgias de uma vez para aproveitar a anestesia, mas a moça da UAI falou qu
e acha que não tem jeito, que vou ter que fazer todos os pedidos de exame novamente”, disse ela.
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