30/07/2018 às 08h18min - Atualizada em 30/07/2018 às 08h18min

Constelação Familiar é utilizada para resolver casos na Justiça

Método denominado Direito Sistêmico começa a ser estudado pelos profissionais da área em Uberlândia

MARIELY DALMÔNICA | REPÓRTER
Juiz César Aparecido tem aplicado a visão sistêmica em alguns processos | Foto: Divulgação
Uma mulher estava se divorciando do marido violento. Após a separação, o filho mais velho do casal começou a trabalhar com o pai, mas a mãe não aceitava, e o filho do meio, de apenas 5 anos, tornou-se agressivo. Uma advogada que cuidava do caso procurou um especialista para que uma dinâmica de Constelação Familiar fosse feita com os envolvidos. O pai, a mãe e os filhos foram representados por voluntários e, durante a Constelação, foi notado que o homem carregava um grande peso nas costas. Na infância, ele presenciou o próprio pai agredindo a mãe diversas vezes e acabou transferindo essa raiva contra a ex-mulher. Depois do encontro, a mulher aceitou que o filho mais velho se sentia bem ao lado do pai enquanto o filho do meio, que antes sentia raiva da mãe, voltou a ficar bem com ela.
 
Este é apenas um exemplo de Constelação Familiar realizada pelo médico César Santiago, especialista na área há mais de 15 anos. No método, o terapeuta, chamado de constelador, trabalha com o cliente sem criar conceitos e teorias, apenas mostrando o que está oculto e atuando sobre a pessoa de forma inconsciente. A técnica pode ser aplicada em dinâmicas de grupo, onde todos os participantes podem vivenciar as experiências, ou de forma individual, com bonecos.
 
Atualmente, o método criado pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger vem se tornando comum no judiciário brasileiro, sendo utilizado para solucionar conflitos familiares nos tribunais. “A Constelação Familiar é muito eficaz para identificar vários emaranhamentos familiares e a gente trabalha com a cura desse sistema como um todo. É algo muito rico e precioso”, afirmou o médico César Santiago.
 
O método foi trazido para o Poder Judiciário brasileiro pelo juiz Sami Storch, do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, em 2012. Ao começar a aplicar a nova técnica, que ele chamou de Direito Sistêmico, o juiz obteve resultados satisfatórios e resolveu difundir a Constelação Familiar pelo País.
 
Em Uberlândia, a Constelação Familiar ainda não foi formalizada pela Justiça, mas o juiz César Aparecido de Oliveira, que trabalha na Vara da Família, tem aplicado a visão sistêmica em alguns processos conduzidos por ele. “Recentemente, e informalmente, sem normatização, designei a primeira sessão de constelação em um processo. Tenho que obter do tribunal a autorização para utilizar esse método, mesmo que ele tenha o aval do Conselho. Para ter mais segurança eu quero um amparo do Tribunal”, disse o juiz.
 
O magistrado estuda o Direito Sistêmico há mais de um ano e já se encontrou com outros juízes que utilizam a técnica pelo Brasil. Ele afirmou que o método já mostrou uma eficácia de mais de 90% nos tribunais. “Através dessa filosofia, você entende que existe uma situação real e é possível trabalhar também de uma forma real nas suas audiências. Quando as partes trazem um conflito, existe um emaranhamento pessoal de cada uma das partes. A partir do instante que você entende, você consegue uma solução definitiva. Mesmo que eu não esteja constelando formalmente, trabalho as perguntas e as direciono para uma parte na audiência. Já tive uns cinco processos que foram solucionados com esse método”, disse Aparecido.
 
ESPECIALIZAÇÃO

Advogados e juízes fazem curso sobre Direito Sistêmico

 
De acordo com o médico César Santiago, o Direito Sistêmico segue três princípios. O primeiro é o direito de pertencer, o segundo é o equilíbrio entre dar e receber, e o terceiro é ordem e hierarquia. Atualmente, Santiago ministra um curso para advogados e juízes que desejam se especializar no método da Constelação Familiar no Poder Judiciário.
 
O curso de Direito Sistêmico é dividido em seis módulos, cada um com um tema diferente. “O primeiro é sobre o histórico e os princípios gerais da Constelação Familiar, como as dinâmicas ocultas entre pais, filhos e irmãos. O segundo entra nas bases, que são a ordem do amor, o pertencimento, e o equilíbrio entre dar e receber. O terceiro entra nas questões dos conflitos e soluções, ou seja, como o advogado pode trabalhar com isso e lidar com mais tranquilidade. O quarto módulo é sobre limites. O quinto é sobre a atuação feminina no contexto familiar, os pais têm que estar bem para que os filhos fiquem bem, por exemplo. E o sexto módulo é sobre o procedimento em questões individuais”, disse Santiago.
 
Após realizar uma Constelação Familiar individual, a advogada Samantha Godoy se matriculou no curso oferecido por Santiago e, em breve, poderá trabalhar com o método. “Depois da minha experiência, a minha vida mudou e eu fiquei encantada. A técnica é incrível e quando me formar já posso atuar. Através da Constelação é possível ter uma justiça mais humanizada, onde as duas partes saem mais felizes, as pessoas se colocam no lugar de outras e mudam toda a concepção, e resolvem os conflitos. Com esse método, conseguimos ver que muitos problemas não são das pessoas, elas podem estar trazendo de outros familiares. A intenção é trazer paz, equilíbrio e harmonia”, disse a advogada.
 
OAB Uberlândia
 
Recentemente, foi criada a Primeira Comissão de Direito Sistêmico da 13ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Uberlândia para divulgar e difundir o Direito Sistêmico na cidade. Samantha, que também é membro da comissão, contou que a cidade está entre as 20 primeiras do País a criar a comissão.

Comissões de Direito Sistêmico existentes no Brasil e suas respectivas datas de criação:

1 - Santa Catarina - estadual - 12/04/2017
2 - Balneário Camboriú/SC - 19/06/2017
3 - Itajaí/SC - 20/06/2017
4 - Tatuapé/SP - 01/08/2017
5 - Minas Gerais - Estadual- 10/08/2017
6 - Juazeiro do Norte/CE - 27/08/2017
7 - Araranguá/SC - 25/09/2017
8 - Lapa/SP - 03/10/2017
9 - Itajubá/MG - 07/11/2017
10 - Franca/SP - 17/11/2017
11 -São Carlos/SP - 06/12/2017
12 - Rio de Janeiro - estadual - 13/12/2017
13 - Ribeirão Preto/SP - 01/01/2018
14 – Mato Grosso do Sul – estadual – 10/01/2018
15 - Jaraguá do Sul/SC - 31/01/2018
16 - São José dos Pinhais/PR - 20/02/2018
17 - Sorocaba/SP – 09/04/2018
18 - São Sebastião do Paraíso/MG 24/04/2018
19 - São Caetano do Sul/SP – 04/05/2018
20 - Joinville/SC – 05/06/2018
21 - Uberlândia/MG - 13/06/2018
22 - São José dos Campos/SP - 14/06/2018
23 - Paraná - estadual - 04/07/2018
24 - Ipiranga/SP - 04/07/2018

Constelação familiar:
 
- Mostra as conexões entre as gerações
- Pessoas assumem as posições dos familiares e descrevem o que sentem

Temas mais comuns:

- Dificuldades de relacionamento
- Separações
- Problemas financeiros
- Mortes na família
- Traumas
- Vícios
 
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