02/07/2018 às 11h54min - Atualizada em 02/07/2018 às 11h54min

Descobertas sem amarras

Laboratório Sensorial proporciona vivências para crianças de 3 a 6 anos de idade

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Crianças, acompanhadas pelos responsáveis ou não, têm contato com as brincadeiras
A educadora pedagógica Shizue Tamaki está diante de uma mesa baixa, com bancos compridos e fala: “Agora nós vamos macerar a calêndula”. Neste momento, junto com uma atenciosa plateia, inicia o processo de maceração para fazer um chá, enquanto explica as propriedades dessa planta – como ação adstringente, analgésica, anti-inflamatória, calmante, entre outras. Nada demais, se não fosse uma particularidade: a plateia de Shizue é formada por crianças que têm entre 3 e 6 anos de idade que estão prestes a preparar um creme de castanhas, cookies de chocolate aromatizados com flores e o chá de calêndula com lavanda, adoçado com stevia.

“Tem gosto de caldinho de feijão com leite de vaca”, diz Ágata, 4 anos, sobre o creme de castanha. Em sua frente, Nicholas, 3 anos, corrobora: “eu gostei”, coro enfatizado ainda por João Lucas e João Henrique. A poucos metros dali, Tales prefere não participar das atividades. Deita-se em um colchão e logo os colegas resolvem acompanhá-lo, deixado, por alguns instantes, as atividades culinárias de lado.

Este é o Laboratório Sensorial de Shizue, que atua como educadora pedagógica há 20 anos e tem no currículo nada menos que a idealização do Jardim Sensorial, um dos principais atrativos do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, cidade onde desenvolveu vários outros projetos, antes de voltar para Uberlândia.

Antes desta iniciativa, ainda pouco conhecida na cidade, ela fez uma pesquisa junto com o Sebrae, no ano passado, e nas 41 escolas particulares que visitou – ela não conseguiu acesso a escolas públicas - não encontrou jardins ou espaços voltados para o desenvolvimento sensorial das crianças. Percebendo essa carência, optou por trabalhar com essa faixa etária por meio de oficinas de duas horas que acontecem em diferentes dias da semana e com diferentes temáticas.

“Nós conversamos, fazemos acordos para que tudo corra bem durante as atividades que são conduzidas pelas crianças. Geralmente é muito normal pensarmos pelos nossos filhos e isso nem sempre favorece o desenvolvimento deles, a independência. Respeito também a individualidade. Não há certo ou errado. Há o caminho do meio”, explica Shizue que conquistou prêmios como o Selo Empreendimento Sustentável Shell 2016, Destaque de Turismo da OAB RJ 2015 e Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2013.

E para exercer esse caminho de liberdade com responsabilidade é preciso interagir com o espaço, sem medo de se sujar! A escolha dessa faixa etária, segundo Shizue, deu-se porque no chamado primeiro setênio (0 a 7 anos) é fundamental para o desenvolvimento harmônico da criança que se regenera por toda as fases da vida adulta. “Os pais ou responsáveis, ao deixarem as crianças explorarem o ambiente de acordo com seu tempo, criatividade e peculiaridades, promoverão assim competências psicomotoras emocionais com muita ludicidade, afeto e presença”, disse.

O Laboratório Sensorial são convergências de vivências de mais de 15 em programas socioambientais. Shizue atuou em comunidades e escolas cariocas e diante disso percebeu a necessidade de continuar os cursos para pais e filhos com do símbolo fitoenergético das plantas e flores medicinais e a astrologia botânica. “Essa tecnologia foi desenvolvida por mim com minhas pesquisas teóricas de Merleau Ponty sobre fenomenologia, Carl Jung sobre inconsciente coletivo, Espinosa sobre a natureza dos afetos e Wilhelm Reich sobre corpo e emoção. Além disso, pesquisas etnobotânicas em comunidades tradicionais brasileiras e percebi como influência nas crianças uma vida rodeada de elementos naturais e hábitos saudáveis”, contou.

Durante duas horas as crianças, acompanhadas pelos responsáveis ou não, têm contato com brincadeiras naturais com muita arte botânica, jardinagem sustentável, alquimia vegetal e comidinhas gostosas, tudo produzido de forma artesanal com as plantas e flores medicinais. “Temos como base a comunicação empática, as soluções de conflitos, a meditação, autonomia, a ciranda das emoções, a afetividade de si e do coletivo (afetar e ser afetado).

METODOLOGIA

O programa de Shizue Tamaki se configura na Educação Antroposófica, nos âmbitos do pensar, sentir e querer de forma equilibrada, harmônica e sistêmica. Por pensar compreendem-se os sistemas cognitivos, da percepção, da memória, da abstração, do pensamento, das conexões, das comparações e relações mentais, tudo que envolve o intelecto. Por sentir, a Educação Sensorial contempla a imaginação, a fantasia, os sentimentos, os desejos e as expressões artísticas e, todo o mundo invisível interno e externo relacionado às emoções das crianças. Por querer é possível compreender o movimento, a vontade, o impulso que nos move para transformar o mundo.
Para saber mais sobre os programas e agenda de vivências acesse: www.facebook.com/interatos/.

DESCOBERTAS
Para os pais o mais difícil é conseguir não interferir

Andréia Soares Tomaz Almeida observa o filho, João Lucas, 4 anos, brincar com um brinquedo pedagógico, andar pelo espaço onde acontece a oficina de culinária, da qual ele prefere não participar o tempo todo. Alguns dias antes ele participou da oficina de jardinagem e se esbaldou com as plantas e a terra. Assim como Shizue Tamaki, ela sabe que as aulas nem sempre saem como programado, e isso não é nenhum problema.
Para Andréia, o Laboratório Sensorial é uma iniciativa que chega em boa hora. Quando tinha 1 ano e 3 meses, João Lucas parou de comer. Só ingeria líquido. Procurou médicos em Uberlândia, mas foi em São Paulo que teve o diagnóstico. O filho tem hipersensibilidade nas palmas das mãos, nos pés e na boca.
“Era muito difícil para ele. Tudo incomodava. Imagino que se esse estímulo sensorial tivesse começado mais cedo talvez fosse diferente. Depois do tratamento ele melhorou e com essas oficinas tem ficado cada vez melhor. Até natação ele já faz, uma evolução já que há alguns anos até a água o incomodava”, conta a enfermeira que diz ainda que no início é difícil não interferir durante as aulas. “A gente se acostuma muito com isso, mas já melhorei bastante”.

Mãe de Fernando, de 1 ano e 5 meses, e João Henrique, 4 anos, a turismóloga Daniela de Sousa Lemos acompanha o mais velho na oficina de culinária de Shizue. Reveza os cuidados com o mais novo com o marido. “O João Henrique vem esporadicamente, em diferentes oficinas. Ela adora a de jardinagem. É uma iniciativa maravilhosa, tira eles do computador, do celular e ele ainda convida os amigos para vir, compartilha isso com eles”, explica Daniela.
Ela repara que o filho está com a roupa suja de chocolate em pó, que derramou durante a preparação dos cookies, algo que há alguns meses o incomodaria. “Ele nem reparou na sujeira”. Para ela, o curso funciona para os dois lados, pais e filhos. Afinal, os pais também começam a não interferir tanto nas vivências e começam a entender melhor o tempo de cada um dos filhos.

PALAVRA DO MÉDICO
Pediatra fala sobre alguns cuidados antes das atividades

O pediatra Roberto Eduardo de Brito Gosuen afirma que, do ponto de vista de desenvolvimento, os estímulos são fundamentais na faixa etária de 3 a 6 anos de idade, e esses propostos no Laboratório Sensorial são bem interessantes e múltiplos. No entanto, ele diz que é preciso estar atento a cada criança.
“Tais cuidados deverão se estender desde os riscos e prevenção de acidentes quanto as possibilidades de sensibilização e manifestações alérgicas (que podem ser provocadas por algumas plantas). Ciente disso, minimizados os riscos, parece algo interessante para a construção cognitiva e motora que a criança tanto necessita”, afirmou.
Ele explica que as plantas também dão origem a medicamentos e medicamentos podem gerar efeitos adversos que variam de pessoa para pessoa. “Reações alérgicas é somente um desses efeitos”.
Na ficha dos alunos do Laboratório Sensorial, essa é uma das observações solicitadas por Shizue Tamaki.
Roberto Gosuen complementa ainda que os pais ou responsáveis devem estimular o contato entre as crianças e o contato com as coisas. “Essas atividades tiram o foco do ciclo celular-TV—videogame-tablet tão comum nos dias de hoje”, disse o pediatra que reforça a necessidade da estimulação multissensorial e do brincar.
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