02/07/2018 às 09h23min - Atualizada em 02/07/2018 às 09h23min

Desinteresse do eleitor compromete renovação

Resultado da eleição suplementar do Tocantins serviu de alerta para candidatos e partidos em todo país

WALACE | REPÓRTER
Divulgação
Com um tempo bem menor de campanha, leis que restringiram ainda mais a ação dos candidatos e uma percepção de descontentamento do eleitor com a política, as eleições gerais deste ano têm ingredientes de sobra para ser uma das mais antagônicas desde o período de redemocratização do país. Ao mesmo tempo em que cresce um sentimento de renovação explícito vindo por meio de manifestações populares – seja nas ruas ou nas redes sociais -, também há um desinteresse maior do eleitor com o processo político do país.
O resultado da eleição suplementar do Tocantins, encerrada no último domingo (24), serviu como constatação e ao mesmo tempo um alerta aos pleiteantes a um cargo eletivo em outubro. 
Se no primeiro turno 49% dos eleitores do Estado não votaram ou votaram branco e nulo, no segundo turno a renúncia do eleitorado chegou a inéditos 52%. 

Caso o fenômeno do “não voto” se repita em nível nacional, especialmente na eleição proporcional, a tendência é que o índice de renovação nos legislativos estaduais e no Congresso Nacional não se materialize na mesma proporção que o eleitorado em geral tem expressado sua vontade de mudança.

“Essa vai ser a eleição mais imprevisível dos últimos anos”, aponta o presidente do MDB em Uberlândia, Eduardo Afonso. “A população está se manifestando que quer mudança, mas tem muita gente dizendo que vai anular o voto”, completa.

Na eleição de 2014, o índice de renovação na Câmara dos Deputados foi de 47%. Considerando os pleitos nacionais realizados desde 1990, a média histórica é de 49%. A persistir o sentimento de resistência do eleitorado neste ano, essa média poderá ser reduzida uma vez que a conjunção de fatores como tempo, legislação e desconhecimento, favorece aos atuais detentores de mandato eletivo.

O período de campanha, por exemplo, foi reduzido de 90 para 45 dias. Os meios de propagação de propagandas que em outras épocas dominavam as ruas, como outdoors e muros, agora são proibidos. Até a manifestação espontânea do eleitor pelos candidatos de sua preferência foi restringida. A única forma de propaganda que o eleitor pode colocar na fachada de sua residência é um adesivo plástico de até meio metro quadrado na janela. A mesma metragem vale para o veículo particular.

“Com um período de campanha mais curto e com possibilidades menores de divulgação das candidaturas, leva vantagem aquele candidato que já é conhecido da população, seja por ocupar um cargo público eletivo ou então alguma celebridade, como ator, profissional do esporte, da imprensa”, avalia Diogo Mendonça Cruvinel, secretário de Gestão da Informação e de Atos Partidários do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG). “Nesse espaço curto de campanha ele teria um trabalho menor do que aquele candidato que é um completo desconhecido. O reflexo disso certamente vai ser um nível de renovação menor”, completa.
O cientista político Leonardo Barbosa e Silva cita que parte dessa restrição imposta pela legislação eleitoral é reflexo de uma cobrança vinda da população e da própria mídia em função da sujeira gerada nas ruas durante a campanha eleitoral. “Ao mesmo tempo em que a lei reduz a exposição, não permite que o eleitor conheça melhor os candidatos”, diz.

Ele lembra que mudanças profundas na legislação eleitoral sempre foram usadas como argumento de campanha, mas nunca implementadas na prática. “A impressão é de que o movimento feito no Legislativo é para reduzir a visibilidade dos novos candidatos e garantir que os grandes partidos continuem dando as cartas. O cenário não é mudado porque ninguém teve coragem de fazer uma grande reforma política no país. Esse processo está engavetado há muito tempo”.

Segundo avalia, uma alternativa para atrair novamente o interesse das pessoas pelo processo político seria fortalecer os mecanismos de participação popular. “Ou seja, descentralizar decisões, tirar um pouco o peso do Parlamento adotando o plebiscito e referendo para decidir sobre assuntos de interesse da sociedade”, diz.  

Ele ainda aponta dois aspectos que devem ser avaliados para entender a atual conjuntura política no país. O primeiro está relacionado com a decepção dos eleitores com os políticos e a política em geral. “O afastamento do debate político sempre ocorreu na história do Brasil. A população não tem consciência de quem votou nas últimas eleições, não acompanha o mandato de seu vereador, de seu deputado (...), não faz o esforço de tentar entender quem são eles, que setores representam”, frisa.

Outro ponto é que o cenário pós impeachment, no qual ainda não há certezas sobre a permanência da pré-candidatura do ex-presidente Lula, deixa o embate no nível nacional completamente em aberto. “A eleição para presidente da República puxa outras eleições. Quem consegue eleger o presidente também consegue fazer um grande número de deputados. Se a eleição para presidente está em aberto, a eleição para o Congresso também deixa incertezas”, diz.

PRÉ-CANDIDATURAS
Novatos apostam em redes sociais e reuniões


A fórmula para conquistar a simpatia do eleitor nunca teve muito segredo para candidatos a cargos proporcionais: o corpo a corpo e muito santinho. Com a restrição de tempo e de meios para propagar as ideias, os candidatos que vão tentar chegar pela primeira vez ao Parlamento enfrentam outro obstáculo que os adversários mais conhecidos não precisam se preocupar: a falta de recursos.

Enquanto deputados com mandato estão na expectativa de receber verbas do fundo partidário – tem legenda que promete até R$ 1,5 milhão para cada parlamentar que disputará a reeleição -, os candidatos novatos se viram como podem para angariar fundos para a campanha e se tornarem conhecidos no curto espaço de tempo até as eleições.

Por enquanto, a oportunidade é o período de pré-campanha no qual os pleiteantes podem manifestar sua intenção de disputar as eleições, fazer encontros e até conceder entrevistas defendendo posicionamentos e expondo ideias – só não podem pedir votos.
O advogado Daniel Tinoco se prepara para enfrentar sua primeira eleição. Pré-candidato a deputado federal pelo Novo, ele conta que tem aproveitado o período que antecede as convenções partidárias para se tornar conhecido. Diante das restrições de tempo e de propaganda, a receita é básica: “sola de sapato e redes sociais”, conta. Ele diz que tem feito um planejamento a partir de visitas a cidades estratégicas e encontros com lideranças que se comprometeram a apoiar sua candidatura. “É assim que vamos trabalhar, construindo pontes nas cidades-polo através de lideranças”.

Ana Luíza Rocha, coordenadora do Partido Novo na região, diz que o grande entrave para a legenda, que disputará sua segunda eleição (a primeira geral), é realmente se tornar conhecido diante das limitações impostas pela legislação. O cenário atual também não é favorável. “As pessoas estão com uma restrição muito grande à política (...) Nossa função é fazer com que as pessoas conheçam o projeto do Novo. Mas é um trabalho feito aos poucos, a longo prazo”, diz, citando que o foco nesse momento são as redes sociais. “É um falando para o outro e explicando”.

José Amaral Neto (Avante) vai para sua primeira disputa a uma vaga na Câmara dos Deputados. Em 2010 tentou o cargo de deputado estadual. Agora, entende que precisa intensificar as ações durante a pré-campanha para tentar se nivelar com os candidatos que já são mais conhecidos ou que têm mandato eletivo. “A estratégia é se manter presente o máximo possível e aproveitar esse momento em que se tem mais facilidade de agenda para fazer com que as pessoas entendam nosso processo político, para que elas possam ter a nossa confiança”, diz.

Sobre o reforço da atuação política nas redes sociais, ele acredita que o momento não tem contribuído. “Sou um grande usuário, mas não creio que elas vão ser o grande mobilizador. As pessoas não estão querendo falar sobre política. [A percepção] nessas redes é que muito mais bacana postar uma foto bonita do que uma questão política importante para o país”.

CONSCIENTIZAÇÃO
TRE tem preocupação com urnas e fake news


Para a Justiça Eleitoral, a preocupação do momento se concentra no combate às notícias falsas – as chamadas fake news – e na credibilidade do sistema eleitoral como um todo. Uma das novidades nesta eleição será as auditorias que os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) irão fazer nos estados. Em Minas Gerais, serão sorteadas 10 urnas, por amostragem. “Essa novidade é para certificação de que os sistemas prontos para operar nas urnas são aqueles homologados e assinados pelo Tribunal Superior Eleitoral”, disse o diretor-geral do TRE-MG, Adriano Denardi, em entrevista ao Diário de Uberlândia durante um seminário de orientação sobre as Eleições 2018 realizado na última segunda-feira (25), em Belo Horizonte.

Ele explicou que essa auditoria é diferente daquela que testa o funcionamento da urna e que também será mantida. O sorteio das urnas que vão passar pele novo teste vai acontecer na véspera da eleição, no sábado, 6 de outubro. “As urnas não serão substituídas e não sairão do local de votação. Uma equipe vai se deslocar até o local e será divulgado com antecedência para quem quiser se credenciar e acompanhar a auditoria”, disse.

Sobre as fake news, ele explica que a atuação da Justiça Eleitora terá como foco o combate às notícias que afetem as candidaturas e a credibilidade das urnas. “Há um interesse da Justiça Eleitoral em combater qualquer notícia falsa que tire a credibilidade desse instrumento de votação que vem sendo aperfeiçoado ano a ano”.
Para evitar que a propagação de notícias falsas contagie a opinião do eleitor, a recomendação é que faça a conferência das informações recebidas. “O eleitor não pode se informar apenas pelos seus grupos de Whatsapp e redes sociais, ele tem que visitar os sites oficiais tanto da Justiça Eleitoral quanto dos candidatos e partidos para ver o que de fato está sendo prometido”, diz Diogo Mendonça Cruvinel, secretário de Gestão da Informação e de Atos Partidários do TRE-MG. “Para verificar a procedência de cada informação e para não replicar informações falsas, ele tem que se dar ao trabalho de conferir aquela informação antes de replicar”.

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