25/06/2018 às 12h35min - Atualizada em 25/06/2018 às 12h35min

Não está fácil para ninguém

Enquanto a crise não passa, uberlandenses recorrem ao trabalho informal

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
Ambulante há 30 anos, Rilso Brito diz que é notório o aumento no número de vendedores no centro de Uberlândia (Vinícius Lemos)
O Brasil registrou 23 milhões de pessoas trabalhando por conta própria entre fevereiro e abril deste ano, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O número equivale a 11% da população brasileira e é um dos efeitos gerados pela crise econômica que atingiu o País. Em Uberlândia, é possível ver parte desse reflexo na quantidade de vendedores ambulantes que têm circulado na cidade.
Não há números oficiais em relação à mão de obra informal no Município, mas se usarmos como base os dados nacionais para efeito de projeção, é como se a cidade tivesse hoje 74 mil pessoas trabalhando por conta própria, o que inclui o trabalho informal. Na Praça Tubal Vilela, por exemplo, já se foi o tempo em que o carrinho de pipoca reinava sozinho. Em período de Copa do Mundo, então, o número de vendedores tende a aumentar, não só pelo hipercentro, mas também para vários outros pontos de Uberlândia.
Há três meses na Tubal Vilela, o ex-ajudante de reflorestamento Alessandro Alves, de 20 anos, agora vende salgados enquanto não volta ao emprego formal. Ele é natural de Montes Claros e veio para Uberlândia para tentar a sorte. Embora recorra ao bico para sobreviver, Alves diz que o aumento da informalidade tem reduzido o ganho até mesmo de quem já estava acostumado a comercializar produtos na rua. “Todo mundo desempregado e só vai aumentando. Eu mesmo vendo salgado, mas tem muitos outros ‘salgadeiros’ por aqui e acaba que ninguém vende direito”, explicou.
O tipo de produto que é possível encontrar na região central é tão variado quanto em um shopping center, mas, neste caso, a céu aberto e com preços populares. Há acessórios para celulares, aparelhos eletrônicos, artesanatos, roupas, calçados, bonés, alimentos que vão da tapioca ao salgado, passando por frutas, verduras e até cafezinho em garrafas térmicas.
Mas não é à toa que esses vendedores são chamados ambulantes e há muitos que se deslocam pela cidade. A vendedora de doces Surama Bezerra de Araújo, de 50 anos, não monta ponto fixo e transita por bairros no entorno do Centro vendendo paçocas entre R$ 0,50 e R$ 1. Ela afirma que fatura até R$ 50 por dia, rendimento que já foi maior anteriormente. Segundo Saruma, há cinco anos era possível vender em duas horas o que atualmente demora um dia inteiro. “Tenho 50 anos, não consigo emprego, já até trabalhei com carteira assinada e hoje a renda caiu. Gosto muito de Uberlândia, mas preciso viajar para outras cidades, até Goiás”, contou.

MEIAS

Antigo arquivista na capital paulista, Rilso Brito contou à reportagem que há 30 anos vende meias na região na rua Duque de Caxias, no Centro. Muita coisa mudou, disse ele, exceto pela catedral Santa Teresinha, que está ao lado do local mais comum de encontrá-lo. “Fui o primeiro vendedor de meia aqui, hoje tem um monte. Na minha época a gente trabalhava na praça, quando eu comecei tinha uns dez camelôs só. Aumentou demais o número de comerciantes, mas a venda diminuiu muito, quase 70% só aqui para mim”, explicou.
Beirando os 80 anos, o vendedor de meias conta com a ajuda dos filhos e de uma aposentadoria para ajudar a se manter.

COPA

Vendedor de almofadas e outros produtos para casa pelas ruas do bairro Santa Mônica, Felipe Carlos Rumim contou à reportagem do Diário que, desde a última semana, a Copa o ajudou nas vendas. Ele estocou principalmente camisetas e bandeiras para a torcida brasileira e as vendas, que não vinham bem anteriormente, melhoraram no fim de semana. “Normalmente fico andando pelo bairro, mas para a Copa fico o dia num ponto e mudo no seguinte, que aí eu consigo pegar o fluxo das pessoas que vão para algum lugar ver o jogo. Vendi um monte de camiseta sábado e domingo passados”, afirmou.
Ele disse que sempre esteve na informalidade e vez ou outra conseguiu emprego formal, mas que nos últimos três anos ficou difícil conseguir uma vaga.

BRIGAS

Ainda que pareça um shopping, as vendas e os produtos que passam pelas mãos dos ambulantes não são taxados, o que leva, vez ou outra, a caírem na fiscalização municipal. Entretanto, segundos todos os entrevistados do Diário de Uberlândia, desde o segundo semestre de 2017, as incursões da Prefeitura foram raras, principalmente na região central. “Já cheguei a ser levado pela Polícia duas vezes e tive muito produto confiscado, o que sempre me dificultou a montar uma lojinha, por exemplo. Mas do ano passado para cá, anda tranquilo”, disse Rilso Brito.
A tranquilidade, entretanto, é cortada, segundo os próprios vendedores, por confusões envolvendo ponto de vendas. Com o aumento ambulantes, a concorrência direta leva a discussões e até mesmo brigas com agressões. “O cara chega aqui e quer mandar na praça. Pessoal chega aqui e coloca produto concorrente. Dá confusão e acontece muito disso. Quem manda aqui é o prefeito, que pode até mandar recolher tudo de todo mundo”, afirmou um dos ambulantes da Tubal Vilela, que preferiu não se identificar.

PREFEITURA

Procurada, a Prefeitura não deu retorno sobre questionamentos do Diário em relação a pontos como rotina de fiscalização, número de autuações em 2018 e destinação dos produtos apreendidos.
 
CDL
Comerciantes reclamam de concorrência desleal

 
Devido ao crescente volume de ambulantes nas praças, avenidas e portas de lojas de da cidade, a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) Uberlândia se reuniu com o secretário de Planejamento Urbano, Rubens Yoshimoto, e o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbanístico, Dorovaldo Rodrigues Júnior, em uma reunião de diretoria, para expor descontentamento com a situação.
De acordo com o presidente da CDL Uberlândia, Cícero Heraldo Oliveira Novaes, a entidade tem recebido reclamações de seus associados relatando que a concorrência tem sido realizada na porta ou ao lado dos estabelecimentos que vendem o mesmo tipo de produto. “Como entidade representante da classe lojista, não podemos fazer vistas grossas. Precisamos ajudar a combater o comércio ilegal, irregular, praticado livremente. Entendemos que o ambulante torna a concorrência desleal, prejudica a arrecadação do município e a geração de empregos”, disse.
A entidade enviou um ofício à Secretaria de Planejamento Urbano, solicitando a fiscalização do comércio ilegal de ambulantes. O presidente da CDL espera que o executivo tome a iniciativa para resolver o problema da informalidade.
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