14/06/2018 às 08h16min - Atualizada em 14/06/2018 às 08h16min

Michele Bretas deixa base do governo

Vereadora reclama que o executivo não responde aos seus pedidos de informação e diz que sofre perseguição na mesa diretora

WALACE TORRES | EDITOR
                                                         
                                                                                                                                   Denilton Guimarães/Ascom/CMU

                                                       

                                            Michele Bretas: “Não existe resposta pra nada. Dizer que não tem recurso não é resposta”

A bancada do prefeito Odelmo Leão na Câmara Municipal de Uberlândia sofreu uma baixa nesta semana com o comunicado entregue pela vereadora Michele Bretas (Avante) ao Executivo e à mesa diretora de sua saída da vice-liderança do governo na Casa. A decisão gerou um clima de mal-estar na base aliada, que permanece com ampla maioria no Plenário mas a partir de agora vê um poder de fogo a mais na tribuna para questionar as ações e projetos de interesse do Executivo.

Na sessão de ontem, um dia após renunciar ao cargo de vice-líder, Michele postou um vídeo em sua rede social diretamente do plenário, acusando vereadores de fazerem “perseguição gratuita”. Segundo a vereadora, que é a terceira vice-presidente da Câmara, outros integrantes da mesa diretora tiraram sua prerrogativa de ler projetos e deram a outros parlamentares que não fazem parte da mesa.

Eleita em 2016 para o segundo mandato consecutivo, Michele Bretas obteve a 11ª maior votação dentre os 27 vereadores, com 3.496 votos. A renúncia ao cargo de vice-líder do governo pegou muito vereador de surpresa e foi motivada, segundo apontou em entrevista ao Diário de Uberlândia, pela insatisfação com o Executivo, que não teria atendido seus pedidos e requerimentos sobre informações. “Não existe resposta pra nada. Dizer que não tem recurso não é resposta”, disse a vereadora, se referindo ao posicionamento adotado pelo Executivo diante dos questionamentos protocolados na Prefeitura.

“Se sabia que não tinha recurso por que se candidatou? Se sabia que a Prefeitura e o Município estava tão quebrado por que se candidatou? Se não tinha solução pra isso, desse lugar a quem tinha solução, a quem achava que tinha propostas melhores para a população. Agora, candidatar porque estava sendo ovacionado pela população também é uma forma de enganar a população”, afirmou.
Ela conta que essa falta de respostas era uma situação que vinha acontecendo há algum tempo. “Sei que as pessoas pensam que é uma coisa imediata, mas já tem alguns meses que eu não me manifestava favoravelmente ao governo. Existia uma inconsistência de informações que eu estava reclamando, inclusive pessoalmente com o prefeito”, disse.

A vereadora entende que não havia mais motivos para seguir defendendo uma posição à qual não encontrava respaldo. “Tudo na nossa vida tem que ter um propósito e o propósito fugiu. Pra que eu vou ficar esquentando lugar? Tem que ter um propósito e eu não vi mais um propósito que fosse de beneficio para população estar na vice-liderança do governo”.

Ela afirma que não fará parte da oposição e nem terá uma atuação independente, mas que votará de acordo com os interesses da população. “Eu sigo agora sozinha, porém o meu trabalho continuará o mesmo no plenário. Eu não acredito nessa questão de posição independente na política, as pessoas tem que se posicionar”, disse, frisando que deve satisfação somente à população. “Eu não vou me furtar ao meu dever de vereadora, de fiscalizar, de legislar por que um ou outro faz cara feia, bate na mesa e acha que a gente não pode indagar, não pode perguntar, não pode questionar porque aí já se sente traído”. E completou: “Aliás, eu acredito que nesse momento quem está se sentindo traído é a população, que não tem respostas para a saúde, não tem respostas para o trânsito”.

Apesar de deixar a vice-liderança do governo e não ter os pedidos de resposta atendidos, Michele Bretas ressaltou que continuará cobrando informações e tentando resolver demandas. “Eu não posso ver uma população, que confiou em mim pra estar aqui defendendo ela, à míngua só porque existe alguém lá na prefeitura sentado numa cadeira maior que faz beicinho cada vez que alguém interroga ele”, disse.
 
Castramóvel 
Nos bastidores da Câmara, vereadores comentam que o estopim do desentendimento entre a vereadora e o governo foi a votação de um projeto de lei nesta semana destinando R$ 125 mil para a implantação do Castramóvel em Uberlândia. A verba é proveniente de uma emenda apresentada ao orçamento da União pelo deputado federal Weliton Prado (PROS).
Michele Bretas disse que já tinha entregado um ofício ao prefeito informando sobre uma emenda parlamentar obtida junto ao deputado federal Luís Tibé (Avante) para o serviço de captura e castração de animais de rua.

O projeto aprovado esta semana é de autoria do prefeito e não fazia nenhuma menção à vereadora ou a verba por ela obtida. “Todas as causas que foram pleiteadas por mim nesta Casa, eu lutei com meu coração e consegui êxito. Antes ninguém falava em animal. Deputado com três, quatro mandatos nunca olhou pra esta causa. O próprio prefeito, que está no terceiro mandato como prefeito de Uberlândia, por que não lutou por isso antes também?”, ponderou, acrescentando que desde seu primeiro mandato defende a causa dos animais de rua em Uberlândia.

“Precisou que alguém estivesse aqui desde 2013 lutando pra que fosse feito alguma coisa. Que bom que foi feito, que bom que me ouviram. Bola pra frente, já estou em outra pauta já”, disse citando que esteve em Belo Horizonte no início da semana tratando de outra emenda do deputado Tibé para a saúde em Uberlândia.
 
Polêmicas 
Com menos de um ano e meio no mandato, Michele Bretas já esteve no meio de outras polêmicas na Câmara. Eleita pelo PSL, Bretas se filiou neste ano ao Avante, o que gerou uma ação na Justiça Eleitoral contra ela por infidelidade partidária impetrada pela antiga legenda. Ela afirma que não fez nada de errado. “O partido me traiu, me expulsou de forma que eu só fiquei sabendo disso pela Justiça eleitoral”, diz.

Na condição de pré-candidata a deputada estadual, Michele não poderia trocar de partido visando as eleições deste ano, uma vez que a legislação prevê que apenas os detentores de cargos em disputa – deputado estadual e federal – utilizem a janela partidária sem o risco de perda de mandato. Sem entrar em detalhes, a vereadora alega que seu caso está sendo acompanhado pela assessoria jurídica e que se trata de uma perseguição política. “Quando você demonstra que tem ideias, que você pensa, que você não aceita tudo goela abaixo, infelizmente você pode não fazer parte daquele projeto ou do processo que eles têm em mente. E aí é excluído”.

Outra situação que deixou Michele Bretas em confronto com alguns vereadores foi a votação do projeto de resolução que propunha o reajuste de 19,8% nos salários dos parlamentares. O projeto foi aprovado em dezembro, mas o reajuste foi barrado na Justiça. Bretas não participou da sessão na época em função de um atestado médico – se recuperava de uma cirurgia - e postou posição contrária ao reajuste nas redes sociais. Além disso, ingressou com uma ação judicial contra a decisão da mesa diretora, à qual faz parte. “Essa é uma questão de justiça. O meu dever eu cumpri”, disse.
 
OUTRO LADO

Líder do governo considera saída uma “vergonha”
 
O líder do governo na Câmara, vereador Antônio Carrijo (PSDB), saiu em defesa do Executivo nas duas últimas sessões e rebateu as acusações feitas pela vereadora Michele Bretas. Segundo afirmou, o prefeito responde todos os pedidos de resposta e questionamentos apresentados pelos vereadores.
“O que o vereador tem que entender é que somos 27 vereadores e o orçamento do município tem que atender as despesas e receitas. Tem muita coisa que o vereador pede e não tem como ser atendido”, disse. Carrijo considerou como “vergonha” a saída de Michele da base do governo. “A saída da vereadora está vinculada à eleição dela como candidata a deputada, porque não existe justificativa nesse momento de sair da base como vice-líder para assumir uma posição dessa, pois não tem fato novo nessa questão (...) Esse argumento que a vereadora alega é uma vergonha”, disse.

Segundo Carrijo, a vereadora queria que o prefeito retirasse da pauta de votação o projeto que tratou da emenda do deputado Weliton Prado para a implantação do Castramóvel. “Ela defende que faça o Castramóvel, mas não aceitava que fosse ideia do deputado. Temos que largar dessas briguinhas e lutar pelo melhor, pelo interesse da cidade”.

O líder do governo disse que serão necessários mais de R$ 500 mil para a implantação do Castramóvel e que a emenda apresentada por intermédio da vereadora Michele Bretas, no valor de R$ 250 mil, se destinava ao Fundo Municipal de Saúde. “Esse recurso é apenas para custeio, não é investimento. Já foi gasto porque é um dinheiro para atender média e alta complexidade no SUS. Esse recurso veio carimbado para isso”, cita. “O que ela [Michele Bretas] queria era negociar, não sair da liderança e deixar a paternidade do Castramóvel para ela. É a primeira vez que eu vejo isso aqui no Parlamento em meus sete mandatos. Partindo para uma pecuínha política”, completou.
 
 
Perfil
Michele Bretas
 
2012
Eleita pelo PV
49ª mais votada
1.569 votos
 
2016
Eleita pelo PSL
11ª mais votada
3.496 votos
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