10/06/2018 às 07h49min - Atualizada em 10/06/2018 às 07h49min

O sobe e desce de preços nas bombas

O preço médio da gasolina comercializado em 2005 é parecido com o valor cobrado este ano considerando a correção inflacionária

WALACE TORRES | EDITOR
AGÊNCIA BRASIL/ARQUIVO
Entender por que o preço dos combustíveis no Brasil oscila tanto em tão pouco tempo atualmente é tão complexo como tentar entender porque os preços, de fato, ainda não baixaram nas bombas após a maior paralisação de caminhoneiros que o país já enfrentou. Greve essa que consequentemente inflamou a discussão em torno da política de preços praticada pela Petrobras, que refina mais de 90% da produção nacional e, portanto, influencia diretamente nos preços que chegam até o consumidor final.

Desde 2010, houve dois tipos de precificação dos combustíveis que saem das refinarias. No início da década, nos governos do PT, os preços praticados pela Petrobras tinham vinculação à política governamental como forma de manter a inflação sobre controle. Naquela época, quando o preço do barril de petróleo subia, os preços dos combustíveis eram mantidos em baixa para segurar a inflação. 

No fim de 2016, já no governo de Michel Temer (MDB), a gasolina e o óleo diesel, que são derivados diretos do petróleo, passaram a acompanhar a valorização do dólar e do barril no mercado internacional. O etanol, por ser um bem substituto da gasolina, também acompanhava essa variação. O problema é que no último ano o preço do petróleo aumentou de forma consistente, o que gerou reajustes semanais e até mesmo diários em alguns períodos. O estopim disso foi a greve de 10 dias que paralisou praticamente todos os setores produtivos.

Para o consumidor uberlandense que também vivenciou na pele o drama de ficar ao menos uma semana sem combustível – e por consequência sem alguns produtos de consumo -, um detalhe chama a atenção nessa história. O preço médio do litro da gasolina comercializado em 2005 é bem parecido com o valor cobrado este ano se levar em consideração a correção inflacionária.

Um levantamento feito pelo Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais do Instituto de Economia e Relações Internacionais (CEPES-IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a pedido do jornal Diário de Uberlândia, aponta a média anual dos preços reais dos combustíveis na cidade nos últimos 13 anos. Em 2005, o preço médio do litro da gasolina, atualizado pelo Índice de Preços ao Consumidor de Uberlândia (IPC-CEPES), foi de R$ 4,48, enquanto que a média da gasolina nos quatro primeiros meses de 2018 ficou em R$ 4,53 (veja a média anual na tabela A1).

O gráfico que registra essas médias, no entanto, não aponta uma linha reta ao longo de todo esse período. Pelo contrário, houve várias oscilações nesse intervalo que acompanharam as políticas da época, com forte ascendência dos preços a partir de 2017, quando teve a última mudança nas regras de precificação dos combustíveis.

“O preço hoje em termos reais é muito parecido com o de 2005 e 2006, mas o aumento recente é mais percebido porque na primeira metade dessa década o preço esteve significativamente abaixo do nível que estaria se acompanhasse de perto o preço do barril do petróleo”, cita o economista Pedro Henrique Martins Prado, um dos responsáveis pelo estudo.

O economista Álvaro Fonseca, também do CEPES, explica que para manter o preço dos combustíveis mais estável, mesmo com o preço do barril estando acima da média, a Petrobras acabou acumulando um prejuízo bilionário no período entre 2011 a 2014. “Tal cenário é resultado do interesse político na estabilidade dos preços dos combustíveis, inclusive como estratégia de controle inflacionário”, diz. No fim de 2014 até o início de 2017 o cenário se inverte e o preço do barril despenca, enquanto os valores dos combustíveis prevalecem em alta. “Quando o preço do barril cai bastante, a Petrobras tenta manter o preço (dos combustíveis) elevado para recuperar parte do prejuízo”, analisa.

No período seguinte, essa política é abandonada e a companhia adota a paridade de preços baseada no mercado internacional. Assim, o preço da gasolina e do diesel passam a acompanhar mais de perto o preço do barril do petróleo, o que provoca reajustes mais frequentes, especialmente a partir do segundo semestre de 2017.

CAMINHONEIROS
Greve reascendeu discussão sobre política de preços


Segundo o levantamento do CEPES, o diesel chegou ao seu maior valor real na série histórica em janeiro deste ano - R$ 3,65 o litro. Ou seja, se por um lado a nova política ajudou na recuperação a Petrobras, por outro coube ao consumidor final pagar a conta.
“Como a gente vinha de uma era em que o preço estava sendo controlado e de repente mudou a política de preço, que passou a acompanhar o preço do barril do petróleo sujeito à oscilação cambial, tivemos um aumento significativo. E o governo não se preocupou com isso, até porque a inflação estava em índices baixíssimos e não era preocupação o preço do combustível influenciar na inflação. Até agora, com a greve dos caminhoneiros”, diz a economista Sarah Cunha, também do CEPES.  “Agora é que estamos sentindo os efeitos da mudança de política (em 2016). Se não fosse a greve, será que o preço baixaria?”, indaga.

O economista Pedro Henrique acrescenta que o diesel não foi o único fator que impulsionou a paralisação. “A gente teve um aumento muito forte da oferta de frete no período recente. A quantidade de caminhões em circulação no país nos últimos cinco anos aumentou 40% a 50%. A concorrência ficou muito forte e os caminhoneiros não conseguem repassar essa alteração no preço do diesel. O diesel sobe e ao mesmo tempo a atividade econômica está mais frágil”, cita o
economista. “E para completar, as grandes transportadoras e distribuidoras também saíram fortalecidas com a política de subsídios para a compra de caminhões.

Além de concorrer com os seus pares, (os caminhoneiros) têm que concorrer com as grandes transportadoras. Tudo isso afetou muito a vida desses caminhoneiros que são autônomos. Aí, o grito contra o óleo diesel foi o grito sobre o que está acontecendo no momento”, completa Pedro.
Segundo Sarah Cunha, ainda é preciso esperar mais um tempo para refletir o cenário daqui pra frente, até porque o governo e a Petrobras já sinalizam com a possibilidade de novas mudanças. “Tanto é que agora, após a paralisação, está se questionando se essa política é realmente eficiente (...). A gente espera que isso seja discutido melhor, não só em torno do diesel, mas também da gasolina”, diz Sarah.

Por enquanto, o consumidor continua sendo prejudicado. “O preço de hoje da gasolina (R$ 4,99 nas bombas) é totalmente artificial. Isso não tem nada a ver com a política da Petrobras. Pelo contrário, a Petrobras está fazendo uma política para o preço cair”, avalia Álvaro Fonseca.

Evolução dos preços

A avaliação feita pelo CEPES sobre a evolução dos preços dos combustíveis é fruto de pesquisas realizadas mensalmente em vários postos de Uberlândia desde 1979. Além das oscilações de preços entre um período e outro, a coleta também observou diversificação de preços entre um estabelecimento e outro.
Considerando a evolução dos preços médios mensais praticados em Uberlândia, o litro da gasolina passou de R$ 2,24 em agosto de 2005 (primeiro mês do período analisado) para R$ 4,57 em abril de 2018 (última coleta), o que representa um aumento de 104%. Já o preço médio do etanol passou de R$ 1,49 para R$ 3,17, um crescimento de 113,7%. No mesmo período, segundo a pesquisa, a inflação em Uberlândia (IPC-CEPES) foi de 86,6%. O óleo diesel teve a busca iniciada em 2006, saindo de R$ 1,87 em junho daquele ano para R$ 3,58 em abril de 2018, o que dá um aumento de 91,9%. 

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