28/05/2018 às 18h25min - Atualizada em 28/05/2018 às 18h25min

Divulgação do Rumos traz boas notícias em momento delicado

Foram anunciados os 109 selecionados entre mais de 12 mil inscritos que contemplam, pela primeira vez, todos os estados brasileiros

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Coletiva na manhã de hoje no prédio do Itaú Cultural na avenida Paulista, em São Paulo | Foto: Agência Ophelia/Divulgação
 
O segundo andar do prédio do Itaú Cultural recebeu, na manhã de hoje (28), cerca de 40 jornalistas de várias regiões do Brasil para a divulgação dos selecionados do Edital Rumos 2017-2018. O número poderia ser maior, mas alguns profissionais não conseguiram vir por conta de reflexos das mobilizações que tomam conta do País. Porém, como disse o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, é preciso celebrar boas notícias que surgem dentro desse cenário com perspectivas incertas. Provavelmente, no próximo Rumos, a saga dos caminhoneiros nesse maio de 2018 deve ser contada em algum, ou vários formatos.

Os 109 selecionados têm muito o que comemorar. Além do financiamento para seus projetos ganham a parceria do instituto que tem o mais longevo dos editais voltados para o fomento cultural do País agora em sua 18ª edição. “Pela primeira vez tivemos inscritos de todos os Estados mais o Distrito Federal. Apesar do momento complexo e difícil que o Brasil atravessa percebemos uma militância no mundo da cultura e começamos agora uma nova jornada”, disse Saron que divulgou o valor de investimentos nesta edição: R$ 15.555 milhões, R$ 555 mil a mais do que a edição anterior.

Dessa vez, Uberlândia não está na lista de projetos selecionados. Minas Gerais, com 1.004 (7,96%) inscritos, teve nove contemplados (8,26%). “Li 778 projetos e para mim foi uma experiência bonita e transformadora para quem fez parte dela. Percebemos o olhar dos artistas para fora do eixo. Além de respostas, trouxeram ainda muitos questionamentos esse momento em que vemos um retrocesso, perda de direitos da classe artística e ataques direcionados”, disse Paula Gomes, cineasta, que representou a comissão multidisciplinar de seleção formada por 21 profissionais. A cineasta destaca o documentário “Aqui não entra luz”, de Karoline Maia Mendes Pardinho que tem locações na Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O longa trata da relação que a senzala tem com o quarto de empregada nos apartamentos da classe média brasileira. Analisa aspectos da arquitetura, da história e da construção da sociedade brasileira no que diz respeito à mulher, à mulher negra e à mulher negra e pobre. “E esta obra é dirigida por uma mulher, negra, filha de empregada. Tivemos nesta edição um grande número de mulheres na direção audiovisual. Algo que precisa de atenção, afinal, em 2017, no Brasil apenas uma mulher negra dirigiu um longa metragem”, completou Paula Gomes.

A atriz, diretora e produtora uberlandense Maria de Maria é  coautora de um projeto de circo-teatro, “Paixão e luta: O circo-teatro e o melodrama no Brasil”, e mesmo não tendo sido contemplada não desanima. “Não foi desta vez e tentaremos novamente”, afirmou Maria de Maria.

MODALIDADES

Pode-se dizer que os formatos mais “tradicionais” da arte lideraram as inscrições para o Rumos 2017-2018 (veja quadro nesta página). Música é recordista com 2.112 inscritos (16,7%) com 12 contemplados (11,09%), seguida de perto por audiovisual/cinema, patrimônio e memória e artes visuais, todos com mais de mil inscritos.

Em contrapartida, arquitetura, design, games, moda e software e aplicativos, todos com menos de 100 inscritos, não tiveram selecionados. Em gastronomia um entre 64 projetos foi contemplado.

Ainda segundo a comissão, houve um equilíbrio entre os artistas já com uma obra consolidada com os que começam suas empreitadas agora, inclusive, com uma presença maciça dos jovens.

ACERTOS E PERSPECTIVAS

As últimas três edições do Rumos foram marcadas por uma virada em prol de uma desburocratização do mesmo. Isso deu mais liberdade ao artista para escolher em que área ele acredita que seu projeto se encaixa. Outro ponto positivo foi não colocar um teto para o orçamento.

Saron anunciou que os quase 40 mil inscritos das últimas três edições do Rumos serão objetos de estudo do Observatório de Crítica Cultural do instituto. “Posso afirmar que é uma das maiores amostragens da cena cultural do país. Mais importante que a obra finalizada é o processo aqui. Os inscritos e seus projetos podem nos dar uma amostra de elementos para melhoria contínua do edital”, disse o diretor.

Para Saron, por anos a referência maior para o fazer cultural na política pública era a democratização do acesso. Mas tão importante quanto este acesso é a participação, principalmente em um país repleto de carências como o Brasil.

Aninha de Fátima Sousa, gerente do núcleo de comunicação do Itaú Cultural, celebra o que chama de um resultado “bonito e poético”. Na edição anterior falou-se muito em acessibilidade e neste ano foram 86 projetos inscritos que utilizavam essas ferramentas, cinco deles selecionados, entre eles o de um palhaço surdo. “Temos projetos marcados pela diversidade. Questões raciais, de gênero, da mulher, inclusive da mulher em situação de encarceramento, e indígena estão contempladas também com essas pessoas exercendo o protagonismo. Não é só alguém contando a história delas, elas contam sua própria história. O Rumos é um edital que acolhe, não exclui”, disse.

Sobre as modalidades dos aprovados, Aninha afirma que representa muito o momento pelo qual o país passa, mas que não interfere na aprovação ou não do projeto. “Chega uma hora que é uma verdadeira escolha de Sofia”, disse.

A pluralidade deve seguir como marca registrada do Itaú Cultura. “Aqui só não pode ser selecionado o que não foi inscrito”, finaliza o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.
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