21/05/2018 às 17h32min - Atualizada em 21/05/2018 às 17h32min

Nem bola, nem voto: 2018 é marcado pela falta de interesse do brasileiro

Copa do Mundo e eleições presidenciais sofrem com reflexos da crise dos últimos dois anos

WALACE TORRES | EDITOR
Betão e as lembranças de quando viajou com a Seleção | Foto: Walace Torres
   
“A vida não tá fácil pra ninguém” - Quem nunca ouviu essa frase mais de uma vez nos últimos tempos? Dois mil e dezoito pode ser considerado para muitos o ano que não empolgou, ou que ainda não emplacou. Pelo menos até o momento.

Em pleno ano de eleição presidencial e de Copa do Mundo o sentimento de incômodo com a atual conjuntura político-econômica do país permanece. Tanto para o eleitor que irá às urnas em outubro como o torcedor brasileiro não tem demonstrado sinais evidentes de que a disputa vai começar. A 24 dias para a abertura da Copa e a pouco mais de quatro meses para definir quem será o novo mandatário do país, as cores ainda não tomaram conta da cidade, das ruas, dos bares, dos carros, enfim, da vida dos torcedores/eleitores.

Há quatro anos, quando o Brasil sediou o mundial de futebol, a expectativa por um título inédito em casa se transformou em frustração diante do vexatório 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão. Também há quatro anos, a vitória apertada de Dilma Rousseff (52,41% dos votos) sobre Aécio Neves (47,59%) deu início a uma espécie de “terceiro turno” em que os grupos políticos que participaram daquela disputa elevaram o grau de descontentamento a tal ponto que o país praticamente se dividiu em dois lados, com cores bem definidas. O resto é história.

Quatro anos depois um novo capítulo começa a ser escrito em condições bem distintas. De igualdade mesmo, apenas os números de um placar imaginário que reflete a realidade do momento: Futebol 0 x 0 Política.

Nunca antes na história deste país o brasileiro chegou num ano de Copa do Mundo tão desinteressado. O sentimento prevalece quando o assunto é a eleição presidencial.

Em janeiro, o Instituto Datafolha divulgou pesquisa na qual 41% dos entrevistados disseram não ter interesse por futebol. O índice foi dez pontos percentuais maior que o levantamento semelhante feito há oito anos. Nem mesmo o assunto Copa do Mundo mudou a trajetória de alta do descontentamento. Comparado com pesquisa realizada em 2009, também pelo Datafolha, o percentual de brasileiros que declararam agora não ter interesse no Mundial subiu de 18% para 42%.

No cenário político os números dizem por si. Na eleição de outubro de 2010, o número de eleitores com 16 e 17 anos de idade - faixa em que o voto não é obrigatório - era de 2.243.200 jovens, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em março deste ano – dado mais recente disponibilizado na página do TSE – havia 1.517.097 jovens com títulos de eleitor.

Segundo avalia o professor de Antropologia Sebastião Vianney, esse cenário de desinteresse é o retrato de uma junção de dois problemas vivenciados pelo brasileiro desde 2015. “Um é relativo a crise econômica, o país tem 12,5 milhões de desempregados. Isso tem um impacto psicológico muito grande e, obviamente, o desencanto com relação a momentos de entretenimento, lazer e euforia, que são sentimentos que a Copa traz”, disse. O outro motivo é a crise política agravada pelos constantes escândalos de corrupção. “Há uma incerteza relativa a economia e também com relação a política. Isso alimenta um terreno fértil para a violência social”, diz.

Dirigentes partidários e políticos de todos os campos temem um índice recorde de abstenções nas eleições deste ano justamente em função desse descontentamento com a classe. O fim do prazo para o recadastramento biométrico de eleitores demonstrou essa situação. Nas duas últimas semanas que antecederam o fechamento do cadastro eleitoral, em 9 de maio,

Segundo dados do Cartório Eleitoral, Uberlândia tem 47 mil eleitores com o título cancelado porque perderam o prazo em fevereiro e não compareceram para regularizar a situação até 9 de maio – data limite. Como o recadastramento biométrico na cidade era obrigatório, quem não passou pelo processo digital não poderá votar neste ano.

Os índices verificados nas últimas seis eleições em Uberlândia mostram que a ausência do eleitor nas urnas só aumentou nesse período. Desde 2002, a abstenção veio numa ascendência gradativa, saindo de 13,39% naquele ano até chegar a casa dos 19,35% em 2016 (veja tabela nesta página). Já os votos brancos e nulos oscilaram entre 6,4% a 10% no mesmo período.
 
DECORAÇÃO

Verde e amarelo ainda não chegou aos bares

Em 2010, nessa mesma época do ano, o bar Saideira, no bairro Fundinho, estava repleto de verde e amarelo. O proprietário também já havia confirmado o aluguel de telão e televisores extras para garantir a transmissão dos jogos da Copa, além de contratar novos profissionais temporariamente. Em 2014, com a Copa no Brasil, a preparação também foi antecipada. Este ano, no entanto, as cores da bandeira nacional ainda não realçaram no estabelecimento. “Vamos nos preparar, mas será uma estrutura um pouco mais simples”, conta o empresário Carlos Andrade Brito, que confirma haver uma maior falta de interesse do torcedor neste Mundial. “A gente percebe isso, os jogos amistosos (da Seleção) tiveram menos público”, conta.
 
 

Carlão investiu pouco para a Copa deste ano ao contrário as outras edições | Foto: Walace Torres

Para o jogo do Brasil no dia 22 de junho, contra a Costa Rica, que acontecerá às 9h, o bar nem irá abrir nesse horário. “É muito dispendioso montar toda a estrutura logo cedo na expectativa de que o torcedor irá comparecer”, diz, ressaltando que para as partidas em outros horários haverá transmissão.

O Bar do Betão, que na Copa de 2002 no Japão já tinha torcedor nas mesas acompanhando a Seleção Brasileira às 7 da manhã, desta vez também só irá funcionar nas partidas marcadas para o período da tarde. “Não estou vendo muita empolgação com essa Copa”, diz José Gilberto Machado, o Betão. “Na Copa do Japão a gente abria às 7h e ficava o dia todo”, conta o empresário que já foi a uma Copa do Mundo e chegou a viajar no avião da seleção por 10 dias, durante a fase eliminatória, a convite de um patrocinador. Segundo avalia, o cenário deste ano está realmente diferente de outras épocas em que tanto a Copa quanto a eleição geravam uma expectativa maior do torcedor e também do eleitor. “A gente não tem em quem votar e nem pra quem torcer”.

Apostando que o torcedor ainda irá comparecer nos dias de jogos, ele já comprou mais uma TV e pretende colocar bandeiras verde e amarelo pelo bar. “Acho que na véspera vai ter mais empolgação”, diz.

Adélio Braz Tinoco Junior é conselheiro estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e reconhece que o clima de Copa ainda não contagiou os empresários do setor. Ele avalia que o 7 a 1 de 2014 contribuiu para aumentar o desinteresse do brasileiro por esse Mundial, mas não foi o maior responsável. “Foi um conjunto de fatores (...) Foram dois anos de crise e agora é que começou a melhorar a passos lentos. Os empresários estão com medo de investir sem saber como será no fim do ano”, diz.

O empresário cita como exemplo suas duas lojas da franquia Vivenda do Camarão, uma em cada shopping de Uberlândia, que tiveram juntas uma queda de 26% na operação nos últimos dois anos. “Em 2018 já crescemos 16%, mas ainda faltam mais 10% para chegar ao patamar de antes”, diz. Ele conta que a franquia chegou a elaborar pratos especiais para a Copa do Mundo, mas apenas 25% dos franqueados se interessaram. “A grande maioria dos associados está com receio de investir (para a Copa) por causa das incertezas na economia e na política”.

Apesar da cautela, Adélio acredita que até o início de junho o setor irá incrementar as estratégias de marketing de olho no Mundial de futebol. “A partir do momento que tiver uma boa ação de alguns empresários, os outros também se mexem. Se o comércio começar a se mexer, a enfeitar, fazer promoções, os outros virão para não ficar pra trás”.
 
FIGURINHAS 

Se nos bares a Copa ainda não emplacou, o mesmo não se pode dizer dos pontos de trocas de figurinhas, onde a movimentação é constante. A Papelaria Nobre, no bairro Santa Mônica, recebe uma média de 300 pessoas aos sábados entre crianças, jovens e adultos.


Troca de figurinhas no bairro Santa Mônica reúne 300 pessoas aos sábados | Foto: Divulgação

Com apoio de um patrocinador, a papelaria chegou até a fechar o quarteirão durante uma tarde colocando mesas e barracas na rua à disposição dos colecionadores. “A gente se tornou uma referência de ponto de troca, isso até ajudou a reforçar a marca”, diz o proprietário Marcelo de Bittencourt Magalhães Tamaki. “Estamos felizes com o resultado, pois é um ambiente muito familiar, uma mistura de gerações fazendo coleção”, completa.

Ele acredita que, com a divulgação da lista oficial da Seleção, na última semana, as pessoas passaram a se interessar mais pelo Mundial e, consequentemente, o comércio também começa a entrar definitivamente no clima de Copa.

POVO FALA

Qual a sua motivação em relação à Copa do Mundo e eleições para 2018?


 “Copa do Mundo, para mim, é uma grande ilusão, pois acaba tapando a podridão dos políticos no nosso país. Os políticos torcem para que a Seleção Brasileira seja campeã, assim eles terão mais alguns anos para aproveitar e praticar mais roubalheiras. Estou completamente desanimado em relação aos dois temas. A Seleção pertence a uma entidade corrupta, e na política não temos novas e boas opções para podermos mudar o Brasil” (Vilmar Viana Ferreira, comerciante)
 

“Eu não perco meu tempo com Copa e nem com eleição. Em relação às eleições, nossos políticos não nos dão nenhuma esperança de que algo será mudado. Não temos nenhum sinal. Só vemos gente sendo presa, mas daqui a pouco estão soltos novamente. Enquanto uns são julgados, outros vão se aproveitando para roubar a população. É assim que acontece. Já a Seleção Brasileira é outra ilusão, pois só defendem os interesses deles próprios, para se valorizarem. Não jogam pela população” (Paulo Cabral,  mototaxista)
 

“Até que gosto de Copa do Mundo, mas para mim virou somente comércio. Não tem aquela paixão que eu sentia na época que era criança ou adolescente, perdeu o encanto. Não vejo simpatia nos jogadores como era na época do Bebeto e Romário, por exemplo (1994). Nas eleições eu tenho curiosidade para ver se algo será mudado, pois o povo reclama e xinga tanto, mas quero ver na hora de votar se vão eleger gente diferente.  Só vemos corrupção, política para mim está perdendo o sentido que deveria ter, que é de dar ao povo o poder para mudar” (Graziele Cristiana Pereira, atendente)
 

“Já tive muito interesse em relação à Copa do Mundo. Antes eu torcida, gritava e gostava demais, mas agora perdeu a graça. Com o tempo tudo vai mudando e acho que foi perdendo a magia que tinha. Quando se falava em Copa do Mundo era como se estivéssemos entrando em um sonho, algo inimaginável. Eleição serve para quê? Eu pergunto. De que forma vamos conseguir distinguir quem é bom ou ruim para comandar o nosso país? Só podemos ter alguma esperança caso aquele Congresso seja completamente renovado, mas isso não acontece, pois elegemos sempre os mesmos crápulas” (Sebastião Rodrigues, taxista)
 
ELEIÇÕES

Comportamento do eleitor em Uberlândia

Eleição 2016
Eleitorado: 478.250
Abstenção: 92.545 (19,35%)
Votos Brancos: 10.916 (2,83%)
Votos Nulos: 27.282 (7,07%)
Comparecimento: 385.705 (80,65%)
 
Eleições 2014
Eleitorado: 462.372
Comparecimento: 380.663 (82,33%)
Abstenção: 81.709 (17,67%)
Votos Brancos: 16.835 (4,42%)
Votos Nulos: 22.890 (6,01%)
 
Eleições 2012
Eleitorado: 444.792
Comparecimento: 374.485 (84,19%)
Abstenção: 70.307 (15,81%)
Votos Brancos: 10.506 (2,81%)
Votos Nulos: 19.940 (5,32%)
 
Eleições 2010
Eleitorado: 423.150
Comparecimento: 358.023 (84,61%)
Abstenção: 65.127 (15,39%)
Votos Brancos: 11.229 (3,14%)
Votos Nulos: 17.624 (4,92%)
 
Eleições 2006
Eleitorado: 373.744
Comparecimento: 319.516 (85,49%)
Abstenção: 54.228 (14,51%)
Votos Brancos: 9.957 (3,12%)
Votos Nulos: 18.039 (5,65%)
 
Eleições 2002
Eleitorado: 334.454
Comparecimento: 289.687 (86,61%)
Abstenção: 44.767 (13,39%)
Votos Brancos: 7.437 (2,57%)
Votos Nulos: 11.130 (3,84%)
 
Eleições 1998
Eleitorado: 295.142
Comparecimento: 247.742 (83,94%)
Abstenção: 47.400 (16,06%)
Votos Brancos: 9.966 (4,02%)
Votos Nulos: 28.451 (11,48%)
 
Eleições 1994
Eleitorado: 251.832
Comparecimento: 217.842 (86,5%)
Abstenção: 33.990 (13,5%)
Votos Brancos: 11.403 (5,23%)
Votos Nulos: 19.409 (8,91%)
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