14/05/2018 às 10h16min - Atualizada em 14/05/2018 às 11h19min

Empresários querem investir R$ 1,3 bi no Clube Caça e Pesca

Plano prevê a construção de condomínios na área interna; nova diretoria disse que decisão será tomada junto com associado

WALACE TORRES | EDITOR
Clube Caça e Pesca, em Uberlândia, tem mais de 7 milhões de m² | Foto: Walace Torres
 
Distante dez minutos do Centro da cidade, o Clube Caça e Pesca Itororó de Uberlândia (CCPIU) ainda é pouco conhecido pela maioria da população local, apesar de ter 53 anos de criação. Uma explicação pode estar nos números. São 6,5 mil sócios patrimoniais - dos quais aproximadamente 2,6 mil estão quites com todas as obrigações com o clube -, e apenas 750 contribuintes (que pagam mensalidade).
 
Essa situação deixa o clube em condição desfavorável para investir em novos atrativos. Por isso, a nova diretoria que tomou posse em março trabalha com duas frentes de atuação. Uma delas é a necessidade de modificar a modalidade de participação do sócio patrimonial, que apesar de ser a grande maioria, não contribui financeiramente para a manutenção do clube. A segunda medida gerou controvérsia por envolver a comercialização de terrenos dentro da área do Caça e Pesca.
 
Segundo o novo presidente do clube, Reginaldo Eduardo Ferreira, algumas pessoas entenderam que a ideia era vender o clube e conseguiram impedir na Justiça que o projeto fosse apresentado na época. “Houve um equívoco”, diz Reginaldo, que é empresário e nome conhecido do esporte na cidade (foi goleiro de várias equipes do Campeonato Amador e também técnico, com 10 títulos de campeão), e tem mais de 30 anos de Caça e Pesca.
 
Agora, a diretoria quer estreitar o relacionamento com o associado, que terá participação na tomada de decisão.
 
A proposta envolve um investimento de R$ 1,3 bilhão por parte de um grupo de empresários que pretendem construir um condomínio residencial, lojas e até museu a céu aberto. O clube teria um aporte em torno de 40% do valor investido, sendo que todo o empreendimento será de responsabilidade dos investidores. A condição é que qualquer pessoa que adquirir um imóvel terá que ser também um sócio ou contribuinte do clube.
 
Considerado uma das maiores áreas de lazer da América Latina, conforme consta em seu site, com 146 alqueires (mais de 7 milhões de m²), o Clube Caça e Pesca tem em sua estrutura parque ecológico, piscinas naturais e equipamentos que não se encontram em outros espaços recreativos, como pista de Kart e de Aeromodelismo, stand de Tiro, pista de trilha para corrida e bike.
 
Confira abaixo a entrevista com o presidente do clube, Reginaldo Eduardo Ferreira:
 
Diário - O que será prioridade para a nova diretoria?
 
Reginaldo Eduardo - Temos hoje uma dívida enorme feita nos anos anteriores – prefiro não comentar o valor -, difícil de pagar, mas quem tem que por a mão no bolso é o sócio patrimonial. Hoje, em termos de contribuintes, nós não conseguimos quitar nem a folha de pagamento. De contribuintes são cerca de R$ 75 mil e a nossa folha dá mais do que isso. Já temos uma assembleia geral marcada para 22 de julho para apresentarmos as contas. Fizemos um levantamento com o diretor financeiro e a contabilidade e iremos mostrar para o sócio essa dívida. Evidente que eles terão que saber para onde se orientar. Vamos passar as informações e as ideias que temos e eles vão dizer o porquê e onde chegar, se querem que façamos algum empreendimento para dar suporte ao clube, trazendo investidores, ou nós próprios arcarmos com essa dívida elevada. Já sabíamos que a situação do clube é complicada, pois participamos da diretoria anterior, mas as dimensões vão se avolumando com juros e correção monetária. Além do que, hoje o clube não é sustentável com esse número de contribuintes. Então há um prejuízo mensal que também precisa ser sanado.
 
E o que pode ser feito?
 
Temos várias ações para trazer o associado de volta. Estamos contratando uma equipe de vendas para buscar novos contribuintes, mas temos outras ações em termos de mobilizar os 6,5 mil associados patrimoniais para que possam retornar ao clube. Imagina se esses associados estivessem frequentando assiduamente o clube? Ou pelo menos uma vez por mês. A partir do momento que você tem uma obrigação a ser contribuída com o clube, você vai lá participar. Desses 6,5 mil sócios patrimoniais, 4,6 mil pagaram a última chamada de capital, portanto ainda tem muito paradeiro indefinido, ou seja, pode estar hoje na segunda, terceira, quarta geração de quem comprou essas ações lá trás, e antigamente o clube não tinha uma organização como hoje. Temos que localizar o restante dessas pessoas. Nosso levantamento aponta que só uma faixa de 1,2 mil sócios vão ao clube, é muito pouco. Você é dono de uma coisa, mas não usufrui e nem paga por ela.
 
Os sócios patrimoniais não pagam nada por mês?
 
Nada. O estatuto do clube diz que o patrimonial não paga nada, a não ser quando se faz uma chamada de capital com aprovação da assembleia. Os 750 contribuintes então é que pagam e que utilizam o clube. Outro detalhe importante é que nessa época fria do ano esses contribuintes se afastam do clube. E a partir do momento que ele afasta, ele para de pagar. É sazonal, o clube trabalha na faixa de 6 a 7 meses por ano. Então esse contribuinte sai e depois retorna no ano seguinte. Isso é um problema que acontece no Caça e Pesca e em outros clubes da mesma modalidade. Diferente de outros clubes da cidade em que o sócio acionista contribui mensalmente. Ou seja, o clube se mantém porque o sócio está pagando. Já o Caça e Pesca é totalmente diferenciado, ele tem uma gama enorme de proprietário, mas de contribuintes são poucos. O modelo atual precisa ser revisto. Vamos levar isso para assembleia para que tenha consciência disso. Não podemos ter um clube com vários proprietários mas que não contribuem com nada. O clube hoje se faz necessário ter um aporte em torno de R$ 450 mil para se manter.
 
Há intenção de se investir na iniciação esportiva e transformar o clube numa referência no esporte?
 
Tudo que vamos fazer hoje precisamos de valor financeiro e o clube hoje não tem essa condição. O kartódromo é terceirizado, ele é alugado para uma empresa que paga um valor mensal. Já o tiro faz parte do clube mas sobrevive à parte, ou seja, o que é necessário gastar lá os próprios associados do clube de tiro o faz. O aeromodelismo está caminhando para esse sentido. Ou seja, o clube está desonerando o máximo possível. Em termos de esportes, estamos trazendo uma escolinha de futebol e fazendo com que parceiros estejam conosco lá dentro do clube. Temos o Uberlândia Vôlei – já vai fazer três anos -, que também é um parceiro. Inclusive tem a Copa Uberlândia que começa neste fim de semana com as equipes que disputam o vôlei na cidade. No feminino estamos com um processo agora na faixa etária de 35+ e que vai disputar campeonatos com nome do clube. Além disso, temos hoje um campeonato de master, com 16 equipes, estamos organizando o campeonato de futsal, teremos novamente o Terrão a partir de julho. Estamos organizando o campeonato de sinuca, peteca, retornando com o tradicional do clube que é o truco, e tem a canastra também. O que falta para o Caça e Pesca hoje é ter um atrativo em termos de piscina, que é o principal foco quando se fala em clube. A ideia é fazer com que pelo menos uma piscina seja aquecida, com os tobogãs funcionando. Já estamos fazendo orçamento para reformar e colocá-los em funcionamento. Iremos fazer também aos domingos ações direcionadas às crianças na piscina e fora dela com atividades de esporte e entretenimento.
 
Reginaldo Eduardo Ferreira, atual presidente do Caça e Pesca | Foto: Walace Torres
 
Hoje, há uma proposta engavetada de transformar o clube em resort. A atual diretoria pretende levar isso para o associado, até como uma solução para os atuais problemas?
 
É uma solução também, mas dependemos do associado. E quando falamos disso, muitas vezes o associado entende como se fosse uma venda - e não é uma venda. É uma Sociedade de Proposta Específica (SPE), ou seja, uma parceria com um grupo de empresários que querem investir no clube, e evidentemente, querem também ter retorno. A informação de uma parte imobiliária com construção de hotéis, salão de convenções, museu a céu aberto. Eles levaram dois anos para fazer esse projeto, que está pronto. Era para ser apresentado numa assembleia anterior e por motivos judiciais apresentaram um cancelamento por falta de conhecimento por parte do desembargador que fez o deferimento. Houve um equívoco, a diretoria queria fazer a apresentação do plano, e as pessoas que apresentaram contrário falaram que nós já iríamos aprovar o plano naquela assembleia, quando na verdade era só a apresentação. Há uma desinformação da associação e estamos procurando fazer com que isso possa mudar dando mais informação e tendo o associado mais próximo da diretoria. Tanto é que nós queremos fazer com que o associado tenha uma reunião semanal, estamos nos organizando pra isso, pra que ele possa dar sugestão, ter orientação e saiba realmente o que o clube está passando.
 
Como é esse plano de investimento?
 
É importante salientar que a gerência da parte do clube não cabe a nenhuma empresa. Essa gestão é da diretoria com o associado. Essa parceria é feita no molde de vender imóveis dentro do clube. Divide-se uma área em terrenos, sendo que toda a infraestrutura será feita por essa empresa. O clube teria um aporte entre 38% a 40% do valor do investimento – o investimento inicial proposto é de R$ 1,3 bilhão. Essa proposta nos foi apresentada no final da diretoria passada e essa empresa está nos aguardando. Mas, antes disso, precisamos fazer com que o clube se mantenha. Se o clube não se manter, não conseguimos chegar ao término desse investimento. Esse projeto, até ter um arranque inicial, não leva menos de um ano e meio, dois anos, depois que a assembleia aprovar essa situação. Mas, inicialmente, estamos pensando exclusivamente em dar condições para que o clube continue funcionando, e pra isso precisamos do associado.
 
Mas, nesse começo de gestão, é intenção da diretoria de esclarecer o associado sobre essa proposta e concomitantemente adotar outras ações para trazer o sócio?
 
Sim, nós iremos demonstrar ao sócio. Se o sócio achar que isso seja interessante para o clube nós daremos prosseguimento. Se achar que não, então não daremos prosseguimento nessa área. Ou seja, o sócio saberá que ele tem que arcar com a responsabilidade e as despesas do clube.
 
Essa proposta é semelhante a de outros resorts onde há hospedagem?
 
Na verdade não. A proposta dos investidores é que o próprio clube gerencie o aporte que será dado (dos 40%). O clube ficará com uma área X e a diretoria é que vai gerenciar juntamente com os associados. Eles irão executar o projeto em cima daquela área (obtida). O clube teria participação nos terrenos, mas os investimentos serão feitos pelos investidores. A ideia do investidor é fazer lojas comerciais, condomínios horizontais e verticais. Outra coisa importante dessa situação é que todo empreendedor que comprar um imóvel naquele local tem por obrigatoriedade ser um associado do Caça e Pesca. Isso fará com que as ações dos patrimoniais suba, porque o clube hoje não tem ações para vender. Ele tem que comprar de um terceiro. Isso vai fazer com que se tenha uma movimentação enorme entorno do clube, a previsão é entre 10 mil a 15 mil moradores. Seria um luxo ter uma casa praticamente dentro de um clube.
 
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