29/04/2018 às 09h18min - Atualizada em 30/04/2018 às 17h23min

Monja Myoden acredita que a simplicidade é o caminho

Ela recebe pessoas de todas as crenças na Via Zen, criada em 2012, em Uberlândia

NÚBIA MOTA | REPÓRTER
Centro budista de meditação, o Via Zen, foi criado em Uberlândia em 2012 | Foto: Thaneressa Lima/Divulgação
 
A alguns metros do centro comercial de Uberlândia, cheio de pessoas apressadas e carregadas de sacolas de compras, barulho, trânsito lento e grandes filas, tem uma casinha simpática, atrás de um muro laranja, com um gramado na frente, onde descansa, em um canto, a famosa imagem de Buda. O barulho da campainha é quase imperceptível e anuncia a chegada da reportagem do Diário de Uberlândia. Da casa, sai uma moça sorridente, vestida com uma roupa longa, preta e perfumada, chinelo nos pés e cabeça raspada. É a monja Myoden.

O nome, em uma junção de claridade do sol e da lua com tudo o que é sagrado, foi adotado pela designer de interiores Adriana Muniz Retamal, desde que foi ordenada monja, em 2015. Paraense de Santarém, caçula de seis filhos, Myoden tem 45 anos, e veio para a região ainda criança, morou na vizinha Araguari e está em Uberlândia desde o início dos anos 80.

Batizada e crismada na igreja Católica, a monja divide o tempo em cuidar da mãe de 85 anos, do vira-lata Budi, de 4, dos trabalhos como designer e do centro budista de meditação, o Via Zen, criado em Uberlândia em 2012 e que, como o próprio nome indica, é da linhagem Zen, da escola Soto Zen, fundada no Japão no século 13.

Durante o bate-papo, Myoden falou vários termos em japonês e chorou algumas vezes, principalmente ao se referir a mãe, Adali Muniz Retamal, com quem mora há 4 anos, desde a morte do pai.

Emocionou também ao falar sobre a descoberta no Budismo. “Eu sou muito mais feliz agora. Essa possibilidade de abrir a casa pra os outros, ter o coração e as portas abertos me deixa muito feliz”, disse a monja sem esconder as lágrimas.

A descoberta dela sobre a linhagem Zen foi em 2009, no Via Zen de Porto Alegre (RS), em mais uma de suas viagens de férias para o sul. “Alguma coisa mexeu muito. Eu tenho minha formação em designer, com muito ego. A gente sempre começa por causa de algo pessoal. Eu sou hiperativa, era muito do rock. Eu vivi tudo isso intensamente, mas tinha algo que não me preenchia. Quando eu me sentei, senti que tinha algo diferente”, disse a monja, se referindo à meditação Zazen, a prática meditativa do Zen, que consiste em se sentar de frente para a parede. 

Pela hierarquia, como monja, Myoden deveria estar em um templo budista, mas devido à morte do pai, em 2014, e com os cinco irmãos morando fora de Uberlândia, coube a ela cuidar da mãe. “A gente sabe o que tem que fazer, mas às vezes, o tempo é outro”, disse.
 
UMA VIDA NORMAL 

Myoden tem uma rotina comum, gosta de um bom vinho, cerveja artesanal e come de tudo, se define como uma “ema”. Em casa, ela é budista e a mãe reza o terço todos os dias. Na rua, é confundida com um paciente oncológico por causa da careca. Devido ao calor de Uberlândia e por usar muito a bicicleta, usa roupas leves, mas não se deixa fotografar com elas. A monja acorda cedo, passeia com o vira-lata Budi, verbo que originou a palavra Buda, medita, faz café para mãe e para o cachorro e trabalha em casa, como designer de interiores e gráfico, com criação de logos, imagens digitais, livros, entre outros. “No Brasil, não tem como viver só de doações. Mas pela minha idade mesmo, eu prezo mais pela qualidade do que a quantidade. Nós, monges, somos treinados para viver com muito pouco. É o que Buda deixou há 2600 anos. Ele vivia só do que era doado. Toda essa parafernália que inventamos é para preencher vazios, mas é tudo ilusão. Já somos inteiros e o que nos ajudar a ver isso, são esses processos meditativos, que geram autoconhecimento. Uma pessoa que se conhece, ela é muito melhor”, afirmou.

A monja hoje namora uma mulher, já foi casada com outras duas, mas também já teve relacionamentos com homens. A homossexualidade, assim como a cor da pele, não é pauta para ela. “Lama (professor) foi questionado sobre a homossexualidade por uma senhora e ele disse: ‘Isso não é um tema’. Eu gosto da mente humana, não penso muito nisso. Uma amiga me disse uma vez que se eu quisesse um dia ter filho, nenhum homem ia querer ficar comigo. Mas eu jamais ia me conectar com um homem que pensa desse jeito”, disse Myoden.

Como monja, Myoden fez alguns votos, como não roubar, não mentir, não fazer sexo impróprio e não falar mal das três joias - Buda, darma (tudo que é sagrado) e sanga (comunidade). “Não roubar é mais amplo, é não roubar a mente do outro. Não levar a pessoa a pensar no que eu quero. Incitar alguém a pensar mal de alguém”.
 
PÉS DESCALÇOS
 
Nos fundos da Via Zen tem uma pequena horta orgânica. Para entrar na casa, é preciso tirar os sapatos. Myoden entra sempre de costas, depois de deixar os chinelos no tapete. Em uma das salas do centro de meditação, onde nada é sujo ou fora do lugar, foi possível aprender um pouco sobre o Zazen. No tradicional conjunto de zafu, uma almofada redonda, colocada sobre o zabuton, um tapete acolchoado, a “caseira” do Via Zen, Thaneressa Lima, a Thane, nos ensinou uma das posições para se sentar em Zen. De frente para a parede, sentada, com os joelhos tocando o chão, corpo ereto, ocupando apenas a metade da frente do zafu, olhar entreaberto em 45°, com as mãos formando uma elipse. O difícil mesmo é desligar do mundo que não para lá fora, desconcentrar-se.  “A gente vai fornecer esses kits para sentar. Já fizemos a parceria com uma costureira, mas a gente ensina as pessoas a usarem almofadas em casa ou um edredom mesmo”, disse Thane, que tem formação kardecista, e conheceu o Zen há 4 anos.

Assim como no espiritismo, os budistas acreditam na reencarnação, chamada por eles como roda de Samsara, que é voltar várias vezes até se tornar um ser iluminado.  “Não somos ateus. Se tudo é sagrado, não nominamos o inominável. Não tem uma referência a um Deus. Qualquer molécula é sagrada. Então respeitamos tudo, não chutamos uma pessoa, nem uma cadeira, nada”, disse Myoden. 

Ao todo, o Via Zen tem capacidade para atender 15 pessoas sentadas. São 9 frequentadores fixos, além do trânsito de curiosos. “As pessoas são livres para fazer o que querem. As pessoas vão fugir do sentar. Mas cada um tem seu momento. É uma honra para nós que venham sentar aqui quando quiserem”, disse Myoden.

Os encontros para principiantes são terças e quintas-feiras, às 19h, com instrução sobre o Zazen, roda de chá e diálogos. A casa vive de doações.

BUDA

O Buda, que significa “o iluminado” e é o fundador do Budismo, foi batizado de Siddhartha Gautama. Ele nasceu em 563 a. C. em uma rica família da região de Himalaia, na Índia, e teve uma vida repleta de luxo e segurança até os 29 anos. Quando entrou em contato com a pobreza de grande parte da população e com o sofrimento humano, resolveu mudar radicalmente de vida. Saiu do palácio, deixando esposa e família, e passou a buscar explicações e soluções para o sofrimento humano. O princípio básico do Budismo é a busca pela anulação dos desejos materiais como meio de terminar com o sofrimento.
 
SERVIÇO
 
Via Zen
Aberta a principiantes às terças e quintas-feiras, às 19h, no  rua Felíciano Morais, 590, (paralela a Cesário Alvim), bairro Nossa Senhora Aparecida.
Mais informações: na página do Via Zen, no Facebook
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