29/04/2018 às 08h48min - Atualizada em 29/04/2018 às 08h48min

Uberlândia terá 32 unidades comunitárias de segurança

Comandante da 9ª RPM disse que projeto foi reestruturado e fala sobre a violência na cidade

WALACE TORRES | EDITOR
“Nós vamos continuar fazendo a escolta enquanto entendermos que há o risco de novas ações” | Foto: Walace Torres
 
Após um período de sete dias em que foram registrados 10 ataques a ônibus, estação e empresas que prestam o serviço de transporte público em Uberlândia, a Polícia Militar garante que permanecerá fazendo a escolta dos ônibus até que não haja mais risco de novos ataques. Em entrevista ao Diário de Uberlândia, o comandante da 9ª Região de Polícia Militar, coronel Cláudio Vitor Rodrigues voltou a reforçar a suspeita de que os ataques tenham partido de presos do presídio Jacy de Assis. Também disse que a PM não irá admitir interrupção no serviço de transporte público e que ainda este ano o Governo do Estado irá implantar 32 Bases Comunitárias de Segurança em Uberlândia.
 
Diário - Na última quinta-feira o senhor chegou a falar que os ataques a ônibus podem ter relação com problemas internos no presídio Jacy de Assis. Já a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap) não confirma essa informação por enquanto. Quais os indícios mais fortes afinal?
 
Cel. Cláudio Vitor - Pelo que levantamos junto ao nosso sistema de inteligência, a principal linha caminha nesse sentido, de serem atos de represália em relação a ações de maior correição dentro do presídio. Ou seja, um maior rigor, dentro da legislação, na entrada das pessoas que vão visitar os presos. Isso cria um ambiente de descontentamento entre os presos. E, naturalmente, eles fazem contato com pessoas aqui de fora e solicitam que atos dessa natureza possam acontecer.
 
Essas normas valem para qualquer presídio, mas a gente não percebe o mesmo tipo de ação de vandalismo em outras cidades. Não seria muito cedo ou o ocorrido no presídio foi algo mais grave que gerasse uma insatisfação maior?
 
Nós tivemos a questão do maior rigor. A informação que temos é que as visitas estavam acontecendo de forma desordenada nos corredores, inclusive com situação de prostituição, prática de sexo na frente de menores, então as ações internas foram no sentido de fiel cumprimento do que está previsto na norma. Não tem nada de errado nisso. Errado era a forma que estava antes. O correto é fazer assim. Não posso falar por outros estabelecimentos penais no Estado, mas em Uberlândia a informação que temos é essa, ou seja, que o sistema está funcionando como deve funcionar. Gera um descontentamento e as pessoas começam a soltar esse tipo de gravação em grupos, da possibilidade de atentados contra coletivos, estabelecimentos comerciais, mas de concreto mesmo temos esses fatos que aconteceram da semana passada pra cá. Na quinta não tivemos nenhum ato relacionado a coletivo, lembrando que neste momento aparecem muitos oportunistas. Pessoas que não tem nada a ver com o sistema prisional, que são baderneiros mesmo e que agem de forma isolada, como foi o caso de um menor que atirou uma barra de ferro contra um ônibus. Outras gravações circulam, infelizmente há pessoas muito mal intencionadas e que rezam aquela cartilha do ‘quanto pior, melhor’. A população deve ficar tranquila, colaborar com a polícia fazendo denúncias para que a gente localize essas pessoas, sejam elas ligadas ao crime ou que simplesmente estejam criando esse clima de temor na sociedade.
 
Como está a atuação da força-tarefa criada na última semana? O que pode ser feito para trazer essa tranquilidade à população e ser efetiva no combate a esses atos de vandalismo?
 
Essa força-tarefa é composta pela Polícia Militar, Polícia Civil, Seap, Prefeitura – através da Settran – e as empresas de ônibus. O papel dessa força-tarefa é que tenhamos o nivelamento das informações, que as tomadas de decisão sejam compartilhadas. No âmbito da Polícia Militar cabe criar um ambiente seguro, de tranquilidade para a população diante de casos tão graves quanto esses. Então, colocamos todo o nosso efetivo, todo o nosso aparato operacional à disposição da sociedade para manter esse ambiente de tranquilidade. E diante de qualquer ruptura, rapidamente restabelecer a ordem pública. Nós não vamos admitir que seja suspenso o transporte público, que é um serviço essencial para a população e para o funcionamento da cidade. Mesmo diante dos ataques isso não aconteceu e não vai acontecer mais. Tivemos apenas um dia em que as empresas recolheram uma parte da frota antes do horário, mas alguns veículos ainda ficaram circulando até o horário previsto.
 
Foi uma ação precipitada das empresas em recolher os ônibus naquele momento (após um ataque, na noite do dia 24)?
 
Naquele momento eu até conversei com o vice-prefeito e falei: “olha, repasse para as empresas que tem policiamento na rua e que nós estamos efetivamente dando segurança às empresas”. Mesmo assim, algumas pessoas temendo que outros veículos fossem incendiados, recolheram parte da frota, não foi 100%. Mas, isso foi uma questão já superada. De imediato a Prefeitura interviu, através da Settran, proibindo qualquer recolhimento de veículos e que a população fosse prejudicada – então fica aqui o elogio à participação da Prefeitura, através do nosso prefeito e do vice-prefeito, que se mobilizaram pessoalmente nessa questão junto às empresas de transporte. E depois, com a criação da força-tarefa nossa interlocução foi direta tanto com a Settran quanto com as empresas, e isso é uma questão já pacificada no sentido de que o transporte vai continuar sendo disponibilizado para a população conforme está previsto no contrato de concessão pública.
 
A PM vai continuar fazendo a escolta dos ônibus do transporte urbano?
 
Nós vamos continuar fazendo a escolta enquanto entendermos que há o risco de novas ações. O nosso plano de ação é ter policiais à paisana nos coletivos, viaturas dispostas nos principais corredores, principalmente nos finais de linha, bem como fazermos as escoltas a partir de um determinado horário que entendemos ser mais crítico.
 
Não seria obrigação das empresas também providenciar escolta a partir de um determinado momento, de forma a não comprometer o efetivo da polícia?
 
Embora sejam empresas particulares, elas são concessionárias do serviço público. Então a natureza jurídica da atividade é pública. Sendo uma natureza pública que atinge o interesse coletivo, cabe à PM sim fazer a escolta desses ônibus enquanto perdurar esse ambiente de intranquilidade com relação ao usuário do transporte público.
 
Os índices de roubos, furtos e até de homicídios também podem ter intensificado essa onda de ataques?
 
Estamos tendo um cuidado muito grande em acompanhar os índices criminais. Na quarta-feira, tivemos um pico grande de crimes - a média em Uberlândia gira entre 8 a 12 crimes violentos diários, e nesse dia tivemos um pico de 20 crimes. Mas, homicídios não tivemos. Tivemos uma redução da ordem de 55% de homicídios em Uberlândia; roubo, da ordem de 35%. Mas especificamente na quarta-feira fechamos com um indicador muito ruim. Mas, na quinta-feira, justamente por esse aporte maior de policiais na rua, essa gestão da força-tarefa, já fechamos em 12 [crimes] sendo que até por volta das nove horas da noite estávamos com 5. Houve um aumento no fim da noite, mas dentro da normalidade da cidade. A quarta-feira foi um dia atípico dentro da nossa estatística. Mesmo quando a crise começou, na outra quinta-feira (dia 19), vínhamos fechando dentro da normalidade.
 
Como está o relacionamento da PM com a Polícia Civil em Uberlândia após o desencadeamento da Operação Fênix, que culminou na prisão de agentes da Civil? Em Belo Horizonte houve atrito entre as polícias por causa da prisão de delegados e agentes.
 
É natural que num primeiro momento houve descontentamento, mas o relacionamento deve ser institucional, mesmo porque a Polícia Militar cumpriu uma ordem expedida pelo juiz. Foram mandados de busca e apreensão e mandados de prisão. A Polícia Militar cumpriu o que estava no mandado judicial. Posteriormente foram feitos contatos com o doutor Edson Morais (novo delegado regional) e temos relacionamento no mais alto nível. Eventualmente, algum caso pontual pode surgir, mas a questão está sendo resolvida da melhor forma possível e sem que inviabilize a relação entre as instituições, que são instituições siamesas, uma depende da outra para prestar uma segurança pública de qualidade à sociedade.
 
A Polícia Militar tem feito operações nos fins de semana no Centro de Uberlândia com certa frequência. Qual o foco dessas operações e quais resultados já foram obtidos?
 
A gente sabe que nos ambientes onde há desordem urbana, como aglomeração de pessoas, fechamento de vias, isso facilita muito a prática de crimes, seja de natureza sexual, patrimonial, sejam questões relacionadas ao uso de entorpecentes e veículos em situação irregular. Tem também a intenção de coibir que pessoas alcoolizadas utilizem o veículo na condição de condutor. Temos tido um resultado muito positivo, a população tem nos elogiado muito com relação a essas operações porque elas acontecem em toda a cidade. Não existe em Uberlândia uma preferência para se fazer uma operação policial, seja periferia, centro, bairro de classe média ou periférico. Aonde demandar operação policial na cidade, ela será realizada, independentemente de dia ou horário. A polícia não faz preferência, ela atua diante de informações precisas sobre locais onde precisa ter uma presença maciça, e diante dessa atuação nós vamos e efetuamos o cumprimento da lei. Nada além disso e também nada menos que isso.
 
Como estão os planos da Polícia Militar para implantação das Bases Móveis Comunitárias, que foram anunciadas pelo governador Fernando Pimentel aqui em Uberlândia em 2017 para entrar em funcionamento ainda naquele ano? A crise do Estado comprometeu essa ação?
 
O porquê da não concepção ainda é que [o projeto] foi feito em fases. A primeira fase foi Belo Horizonte, e como é um projeto extremamente audacioso, porque você muda a forma de se fazer polícia, foram feitos ajustes para a implantação desse sistema. E sendo bem-sucedido, como foi em BH, a segunda fase seria a implementação na Região Metropolitana que vai acontecer ainda no primeiro semestre. Depois, poucas cidades do interior, porque é um sistema que funciona muito bem em cidades com população acima de 150 mil, 200 mil habitantes. A perspectiva agora é aguardar apenas a chegada de recursos, parte do Governo Federal e parte do Governo Estadual para a aquisição de Bases Comunitárias. Serão contempladas as cidades de Contagem, Uberlândia, Uberaba, Montes Claros, Governador Valadares e Betim. A previsão é que essas bases sejam entregues a partir de agosto ou setembro. A partir daí será feita toda uma estruturação para que o serviço possa funcionar da forma que foi concebido.
 
Quantas virão para Uberlândia?
 
A perspectiva é receber 32 Bases de Segurança Comunitárias, seria uma base por setor que irá funcionar de meio-dia até meia-noite.
 
Todas essas bases virão de uma vez?
 
Sim, todas de uma vez. Como falei, tem recursos do Governo Federal e Estadual para aquisição dessas bases. É um projeto muito caro, cada base implementada com sistema de câmera, motocicleta e todo o aparato gira na casa dos R$ 280 mil. Há ainda o nível de complexidade na sua implantação, por isso não pode ser implementado de forma abrupta. Tem que ser dentro do seu tempo, senão a estratégia de segurança pública pode ter algum tipo de problema e provocar um efeito inverso do que se espera.
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