22/04/2018 às 05h50min - Atualizada em 22/04/2018 às 05h50min

Mercado do artesanato se organiza e cresce em Uberlândia

Trabalhos e atividades de classe para fomento de parcerias foram importantes nos últimos dez anos do setor

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
Zeneide Vieira de Barros e outras 11 artesãs mantêm um quiosque no Pratic Shopping | Foto: Vinícius Lemos

É arte, mas também é negócio e a profissionalização do artesanato local á apontada por quem vive da atividade como o que moveu o setor nesta década em Uberlândia. Hoje mais de 100 artesãos em Uberlândia têm ou esperam a chegada de suas carteiras profissionais reconhecidas. Os trabalhos de atividades de classe para fomento e de parcerias foram importantes, principalmente na organização, mas os artesãos são unânimes em dizer que o que vem acontecendo na cidade é muito pelas próprias mãos. Assim como eles já estão acostumados a trabalhar e moldar as próprias peças.

A mão-de-obra é o grande agregador de valor à matéria-prima do artesanato. Mas nos últimos anos, o trabalho de divulgação e busca por espaços locais no intuito de criar um segmento de credibilidade foram duas das razões que começaram a mudar a visão entre artesãos organizados em grupos e do próprio consumidor do Município, de acordo com avaliação de mercado. O consultor do programa Empreender da Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (Aciub), Elder Lima, explicou que o trabalho beira os dez anos. “Os artesãos de Uberlândia tinham a falsa teoria de que artesanato teria que sair da cidade para vender e participavam de feiras e eventos em locais onde havia turismo. Ao longo dos anos percebemos que havia público aqui”, disse.

O que veio em seguida foram as melhoras dos produtos e da produção, além da divulgação do artesanato para o mercado local. No primeiro caso, oficinas e projetos de capacitação foram oferecidos de diversas formas pela própria Aciub e também pelo Sebrae. O passo seguinte foi buscar espaços para inserção dos produtos e coloca-los à mostra da população da cidade para, assim, ter o reconhecimento. Por meio destes dois movimentos, o consultor disse que é possível entender como o segmento conseguiu projeção. “A população não valorizava, com pensamento errado de produto ruim ou caro, mas como tudo isso a gente percebeu a melhora dessa situação. A população agora demanda esse tipo de produto”, afirmou Lima, lembrando que esse foi um planejamento de cerca de 10 anos, que ainda está em execução.

Em setembro de 2017, pela primeira vez em Uberlândia, os profissionais puderam se cadastrar para conseguirem a Carteira Nacional do Artesão e do Trabalhador Manual sem precisarem se deslocar para Belo Horizonte.  O que demonstrou a importância que do interior do Estado tem conseguido. A Carteira Nacional do Artesão é um documento de reconhecimento profissional, válido em todo o território brasileiro, e de identificação pessoal como o registro de identidade. Além destes benefícios, a carteira abre outras frentes aos artesãos, como a participação de ações de empreendedorismo do Sebrae.

Depois de um período de comprovação da habilidade, hoje aproximadamente 100 profissionais locais aguardam a documentação, que vão se somar outros que já possuem depois de se cadastrarem na capital. Número parecido com os quatro grupos formados dentro do Núcleo de Artesanato da Aciub, que hoje se aproxima de 115 profissionais.

CENTRO E ZONA SUL

A organização para visibilidade e fomento de mercado fez a diferença na divulgação do artesanato de Uberlândia, que hoje passa por espaços nobres da cidade e de grande visibilidade como lojas de pelos menos dois shoppings, onde produtos variados estão lado a lado com marcas grandes que apostaram suas fichas na cidade. No Terminal Central, por exemplo, há cerca de um ano, Zeneide Vieira de Barros e outras 11 artesãs mantêm um quiosque num dos corredores mais movimentados do shopping que existe no local. Os produtos criados a partir de trabalhos em MDF, de crochê, bordado, pinturas, arranjos e outros são vendidos de maneira a se tornar a única atividade remuneratória das mulheres. “Inicialmente o lucro do artesanato não é muito grande, mas muita gente parece ter descoberto o negócio. Não sei se é só bom negócio ou se é bom para a cabeça mesmo”, disse ela, que há 15 anos abraçou o ramo.

A artesã contou que um problema de saúde a impossibilitou de se manter horas em pé e exercer sua atividade de cabeleireira, o que a fez procurar o artesanato que antes era um hobby e o transformou em trabalho. Justamente por isso, as negociações para que o quiosque fosse montado no shopping central foi uma das metas alcançadas de Zeneide Vieira. “Ainda ganhamos mídias nos televisores dos terminais de ônibus da cidade para divulgação e o contrato de seis meses se renovou e já chegamos a um ano de atividade”, afirmou.

Outro espaço conseguido com muita negociação foi a atual loja que outro grupo de artesãos mantêm em um shopping da zona sul da cidade. Uma das responsáveis, Rosa Maria de Oliveira, explicou que hoje o local existe como uma parceria entre o grupo e a empresa comercial, devido à movimentação e bons resultados. “É como uma loja de cooperativa, somo subsidiadas pelo shopping. Começou como um quiosque  há três anos para o dia da mães, depois foi pedido uma espaço e naquele mesmo ano, em outubro, votamos a conversar. Em outubro inauguramos a loja”, disse.

Como se trata de um parceria, a loja ganha descontos e o valor pago à empresa é quase simbólico, o que é mantido com a cobrança de 10% da vendas e uma mensalidade de R$ 40 entre as pessoas que fazem parte do grupo de artesanato. “Agora pretendemos transformar o grupo em uma associação formal”, disse Rosa Maria de Oliveira.

ESPAÇO CONQUISTADO

Apesar de, em março, o artesanato mineiro ter ganhado um Plano Quadrienal de Desenvolvimento, com políticas públicas para o setor, em Uberlândia, o que foi desenvolvido em Uberlândia para o artesanato não recebeu grande apoio público, segundo os profissionais.

O Plano Quadrienal aborda tanto a qualificação como a formalização profissional e a comercialização das obras. O documento incentiva, por exemplo, a transformação dos artesãos em microempreendedores individuais (MEI) e estabelece parcerias que resultem em oportunidades de capacitação. Entre as medidas previstas, estão a criação de linhas de crédito, a organização de espaços para comercialização das peças, a promoção de estudos e pesquisas sobre o setor, o estímulo ao turismo cultural associado ao artesanato e o fortalecimento da produção de populações mais vulneráveis, como povos indígenas e quilombolas.

Na visão da artesã Máucia Vieira dos Reis, o que se construiu localmente foi por organização própria e parte por parcerias privadas. “O mercado tem se profissionalizado aqui. Temos uma quantidade muito grande de artesãos e a aceitação do artesanato cresce. Antes era muito visto como algo de caridade, o conceito parece mudar”, afirmou.

IDENTIDADE

O degrau seguinte nesse plano, segundo o consultor Elder Lima, é criar identidade para o artesanato local, o qual vai representar Uberlândia, nos mesmos moldes da representação das rendas cearenses ou a cerâmica do Mato Grosso do Sul. “Temos um turismo de negócios muito grande. Isso poderia ajudar no fomento, como um jeito de levar um presente, uma lembrança. Hoje se compra um produto que é possível achar em vários lugares. É preciso formatar e promover algo só nosso”, disse.

EXPORTAÇÃO E BOA AÇÃO

Criadas a partir de uma boa ação, em junho, Marta Pontes Pinto e um grupo de mais seis artesãs exportam mais uma leva de bonecas para Moçambique. Serão 100 bonecas dessa vez. As peças são doações para as meninas do País da África, continente que visitou e percebeu que poderia ser feito algo pelas crianças do lugar. Ela ainda desenvolve modelos de cavalinhos que poderão ser doados futuramente para os meninos. Ela e o marido são artesãos e têm uma loja do ramo. “Sou artesão desde 2009, quando me aposentei e me tornei artesã em tempo integral”, afirmou a antiga professora da Universidade Federal de Uberlândia.
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