15/04/2018 às 05h52min - Atualizada em 15/04/2018 às 05h52min

Pessoas com deficiência buscam qualificação para ter um trabalho

Mesmo com a vaga aberta, conquista do emprego para nas limitações físicas e técnicas

WALACE TORRES | EDITOR
Bruno faz curso de qualificação para ampliar o currículo e se preparar para o mercado | Foto: Luciele Melo

Dona Enedite Alves Melo vive feliz da vida atualmente. Há um ano, conseguiu uma vaga de serviços gerais numa padaria na região do bairro São Jorge, depois de passar três anos desempregada por causa de um problema de saúde que lhe gerou dores e desgaste nos ossos no joelho e coluna.

“Me encaixei no perfil e estou levando. Mas não é fácil para uma pessoa com problemas, eu vejo como se fosse um milagre”, diz Enedite, de 59 anos.

O depoimento da auxiliar reflete bem o cenário vivenciado pelas pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e outras limitações.

Segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 24% dos brasileiros – 45 milhões de pessoas – possuem algum tipo de deficiência. No entanto, menos de 1% está inserido no mercado de trabalho formal.

Em Uberlândia, apesar de não haver um dado geral que aponte esse universo, a situação é evidente. Na Associação das Pessoas com Deficiência Física de Uberlândia (Adef), dos 1.160 associados estima-se que 40% deveriam estar exercendo alguma atividade profissional. A entidade trabalha principalmente com as pessoas com mobilidade reduzida, seja em função de acidente ou doença, como é o caso de dona Enedite.

Já na Associação dos Paraplégicos de Uberlândia (Aparu) são 2.250 associados, sendo a grande maioria de aposentados e afastados por invalidez. Do público em idade de trabalho, 780 estão cadastrados no Banco de Emprego da associação. Desses, 85 estão desempregados.

Na Associação dos Surdos e Mudos de Uberlândia (Asul) há uma minoria entre os 1.502 associados que se encontra fora do mercado de trabalho – aproximadamente 40 pessoas. No entanto, a rotatividade no emprego é alta.

Dependendo do público assistido pelas entidades, o encaminhamento se torna mais afunilado. Há dois fatores que são praticamente um consenso quando se fala em dificuldade de conseguir um emprego formal: de um lado, a falta de qualificação das pessoas com deficiência e de outro, a falta de oportunidade aberta pelas próprias empresas.

O primeiro fator é o mais comum, segundo apontam as instituições. A coordenadora do Banco de Emprego da Aparu, Ivone Voiski de Oliveira, observa que a maioria das vagas ofertadas pelas empresas às pessoas com deficiência exige pelo menos o ensino médio. “A maioria dos desempregados ou tem um currículo muito bom ou não tem qualificação. Os que estão nos dois extremos sofrem mais”, diz Ivone. “O intermediário – que tem o ensino médio - é mais fácil por causa do salário”.

Os números da instituição confirmam essa tendência. Até a última sexta-feira (13), o Banco de Emprego da Aparu tinha 51 vagas disponíveis em 12 empresas para pessoas com ensino fundamental completo ou não. Já as vagas com ensino médio eram 74 em 13 empresas distintas. O núcleo tinha apenas uma vaga para candidato com ensino superior – de assistente financeiro, com salário de R$ 2.300. “Essa vaga está aberta há mais de um mês. Já encaminhamos quatro pessoas, mas a empresa não contratou”, diz Ivone, frisando que a efetivação depende de vários fatores, como adaptação e aceitação às condições de trabalho.

Em relação à falta de oportunidade nas empresas, há ainda o agravante de que muitos estabelecimentos comerciais não estão adequados às condições de acessibilidade. Essa adequação abrange tanto a questão física como de postura da empresa, que precisa ter pessoal preparado para lidar com o tipo de deficiência, além do preconceito, ainda presente.

Daniele Tizo Costa é coordenadora de RH de uma atacadista que tem 20 vagas destinadas à pessoa com deficiência. Além da dificuldade de encontrar um profissional qualificado, ela diz que outra preocupação é envolver os demais funcionários no acolhimento à pessoa com limitações físicas. “Às vezes, tem o preconceito do líder (de setor) que é uma questão tem que ser trabalhada internamente. Tem que haver parceria de ambos os lados”, diz.

No caso dos surdos e mudos, a maior barreira está justamente na comunicação. “Tanto na entrevista quanto na integração do funcionário na empresa, o ideal seria ter um intérprete, pelo menos para acompanhar no início da atividade”, diz a assistente social da Asul, Maria Aparecida de Pádua.

Ela cita o exemplo de um jovem surdo que foi encaminhado para uma vaga, mas acabou desistindo porque ele entendeu que a empresa tinha sede em Araxá quando na verdade a localização era na saída para Araxá. “Às vezes, a pessoa acha que ficou claro para o surdo, mas na verdade ele não entendeu”, diz a assistente social Maria Aparecida.

A chamada Lei de Cotas determina às empresas com mais de 100 funcionários o preenchimento de 2% a 5% das vagas com reabilitados ou pessoas com deficiência. “As empresas que têm que cumprir a cota em Uberlândia estão no Distrito Industrial, mas muitas não têm acessibilidade. Para cadeirante e pessoas com muleta, dá para contar nos dedos quantas têm adaptações”, aponta Ivone.
 
ADEF

Exercícios e terapia ajudam na autoestima

As entidades que atendem pessoas com deficiência têm ampliado cada vez mais a oferta de serviços e atividades que contribuem tanto para melhorar a qualificação como também a autoestima desse público.

As manhãs das quartas-feiras são as mais movimentadas na Associação das Pessoas com Deficiência Física de Uberlândia (Adef). É o dia em que a psicóloga Maria Madalena Andrade Faria faz uma atividade de psicologia corporal. “Trabalho o corpo junto com as emoções. Com isso, a pessoa se abre mais para a vida”, diz ela.

Durante quase uma hora, os participantes – a maioria aposentados e afastados por alguma lesão ou doença – praticam atividade física, meditação, relaxamento e técnicas de descontração. Em um momento, eles são incentivados a rir sem parar, no momento seguinte estão meditando, ou fazendo uma atividade em dupla. Os exercícios utilizam conceitos como a bioenergia e a psicologia positiva. “Quando a gente trabalha a psicologia a pessoa traz logo o problema, e a psicologia positiva mostra a outra vertente. Já tem dois anos que eu fiz um combinado com eles: nós não vamos reclamar, porque se reclama, o problema aumenta. Se o ônibus atrasou, não reclame, converse com alguém. Veja o lado bom, e aprenda a agradecer”, diz a psicóloga.

A aposentada Aparecida Elizete Silva, 59 anos, já sofreu um bocado por causa da artrose. Agora, não perde uma quarta-feira na associação. “Tem que fazer atividade, senão a gente entrega e a dor ataca. (...) A gente fica louca pra que chegue o dia de vir pra cá. Sai daqui bem melhor”, diz Aparecida, que também faz fisioterapia e tem planos agora de iniciar as aulas de ginástica. “Estou só esperando o médico me liberar”.

Wanderson Teles dos Santos, 32 anos, começou a fazer as atividades há três meses. “A primeira vez que vim me identifiquei logo com ela (a professora). Tem me ajudado bastante, principalmente no psicológico”, diz o ajudante de pedreiro, que está parado há mais de um ano por causa de uma artrose que limitou seus movimentos. Hoje, ele recebe auxílio-doença mas o que diz querer mesmo é receber a carta do INSS com uma proposta de reabilitação para voltar ao trabalho. “Sou novo e não poder fazer nenhuma atividade, ficar em casa, é muito ruim. Pretendo me qualificar para voltar ao mercado de trabalho”, diz Wanderson, que tem apenas o ensino fundamental incompleto.
 
ASUL 

A quarta-feira também é o dia mais esperado da semana na Associação dos Surdos e Mudos de Uberlândia (Asul). É nesse dia que acontecem os encaminhamentos para as empresas. A entidade oferecer cursos de qualificação e dá orientações às empresas, inclusive com indicação de intérpretes. Tem ainda incentivado os associados a melhorar a escolaridade, o que aumenta as chances de a pessoa se firmar no trabalho e até obter uma promoção.

“A maioria das empresas pede segundo grau. Temos surdos que já estão há quatro, cinco anos na mesma empresa, o que depende muito do setor em que a pessoa está atuando”, diz a assistente social Maria Aparecida.
 
CAFÉ COM IDEIA 

Uma vez por mês a Aparu realiza o projeto Café com Ideia, que consiste num bate-papo regado a lanche entre cadastrados no Banco de Emprego da entidade. Durante uma hora de encontro, os associados, estejam empregados ou não, aproveitam para tirar dúvidas referentes à sua empresa, trabalho, projeto, networking ou até mesmo sobre o trabalho de algum participante. É também um momento para fazer alguma reclamação ou sugestão em relação à rotina no trabalho.

A atividade acontece nos três períodos do dia para atender a todos os associados. “Em outro dia do mês também fazemos o Café com as Empresas para repassar orientações, reclamações dos associados e também ouvir o que eles têm a dizer sobre as pessoas encaminhadas”, diz Ivone Voiski, coordenadora do Banco de Emprego.

A Aparu também tem investido em cursos de qualificação profissional, que acontecem às quartas-feiras, das 14h às 16h, na sede da entidade. Neste primeiro semestre são nove cursos em diversas áreas. Outra atividade é o treinamento que prepara a pessoa com deficiência para fazer a entrevista de emprego.

Este ano a Prefeitura de Uberlândia ampliou de 17 para 27 a quantidade de cursos de capacitação para o público em geral, com expectativa de formar 5.400 pessoas até o fim do ano. As aulas são oferecidas gratuitamente nos Centros Profissionalizantes dos bairros Planalto, Lagoinha, Luizote, Morumbi e Campo Alegre.

Bruno Camelo de Menezes Silva tem 17 anos e há sete meses trabalha como assistente no Hospital Municipal. Cursando o ensino médio, o jovem que tem uma deficiência congênita na mão pensa em fazer faculdade de Administração. Para aumentar suas chances no mercado, ingressou no curso de jovem aprendiz oferecido pela Fundação CDL. “Já estou me qualificando para outra área e aumentando o meu currículo”, diz.
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